Especialista em Medicina Geral e Familiar, Mestre em Evidência e Decisão em Saúde e Coordenador do Grupo de Estudos de Dor da APMGF

Ensaio sobre a saúde: A medicina dos costumes e a saúde 3R

Não se muda nada lutando contra a realidade existente. Para mudar alguma coisa, construa um novo modelo que torne o modelo existente obsoleto.

– Buckminster Fuller –

 

É curioso analisar a evolução da medicina à luz da transição dos costumes. Passamos de ler tratados médicos, para ler livros-resumo, para artigos, para revisões de artigos, para algoritmos e para apps.

Da mesma forma, na sociedade, passou-se dos livros para as séries baseadas em livros, para os vídeos de curta duração, para os micro-vídeos, para os tweets. Vale mais um soundbite que um texto que (quase) ninguém lê, dirão alguns.

E com isto muda a percepção de como a medicina deve ser feita, do tempo que é necessário para a fazer com qualidade e das bases estruturais para essa qualidade.

Em tempo nenhum da história foi tão fácil estudar uma patologia médica (porque a informação está facilmente disponível), mas em tempo nenhum tivemos tanta necessidade de filtrar e adequar a informação à prática clínica e à pessoa que está à nossa frente. Sim, porque ainda tratamos pessoas e não números de cama, nomes de doença ou putativos estados de espírito. Sim, porque a pessoa é a mesma quer seja tratada em cuidados primários, no hospital ou em casa.

Recentemente alguém me dizia, a propósito de um protocolo de seguimento de pessoas com dor crónica: “isso é tudo muito bonito, mas não tenho tempo”. E, talvez, haja um fundo de verdade nesta afirmação. A medicina dos costumes tem de ser um tweet e não um livro, uma story do instagram e não um filme. O problema é que a medicina dos costumes está errada. Ponderação não significa inércia. Reflexão não é falta de inteligência. Sofisticação não é sempre qualidade.

A vontade de implementar estratégias de alta resolução para as pessoas doentes é, na maior parte das vezes correta. Mas, tem que ser medida, adaptada e discutida. Não pode ser uma variante cosmética, indigente e inadaptada à pessoa que pretendemos tratar.

Impõe-se, assim, um novo modelo que torne o atual obsoleto – o modelo da saúde 3R: rápida, robusta e replicável.

Rápida porque a evidência nos mostra o impacto das estratégias rápidas de mitigação de doença, com melhoria significativa do estado de saúde e da qualidade de vida do doente e aumento do índice de satisfação do profissional de saúde.

Robusta porque estratégias de cosmética só nos dão resultados aparentes que caem por terra rapidamente; só com a força adequada e proporcional ao obstáculo (doença) podemos ter um resultado eficaz no longo prazo.

Replicável porque nenhuma estratégia é boa se só funcionar num nicho. A criação de valor em saúde baseia-se também na comparação entre organizações e no afinar de estratégias que permitam implementar modelos de sucesso ao longo do todo o ecossistema de saúde.

Talvez seja este o ensaio necessário para uma nova saúde para a pessoa, para o profissional e para a sociedade. Num novo modelo, porque o atual está obsoleto.

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