Anestesiologista || Coordenadora da Unidade Terapêutica de Dor e Corresponsável da Unidade de Dor Aguda Pós-Operatória da Unidade Local de Saúde do Alto Minho, ULSAM, EPE

Dor neuropática no doente oncológico

A dor é um dos sintomas mais frequentes em doentes oncológicos, com uma incidência de cerca de 40% nas fases iniciais e de 60%-80% nas fases mais avançadas da doença1. A dor neuropática, definida como “dor causada por uma lesão ou doença do sistema nervoso somatosensorial3 e que pode levar à perda de função e ao aumento da sensibilidade à dor4 tem uma prevalência no cancro que varia de 5% a 40% dependendo dos estudos e do tipo de tumor e/ou tratamento2 envolvidos.

A dor neuropática no doente oncológico é um sintoma complexo que afeta a maioria dos aspetos da vida da pessoa, incluindo o funcionamento físico, o desempenho de atividades de vida diária, o estado psicológico e emocional e as interações sociais. O seu impacto, em comparação com outras síndromes de dor crónica, pode ser superior, com os indivíduos afetados a classificarem a sua qualidade de vida como “pior do que a morte” de acordo com o EQ-5D, um questionário para avaliação da qualidade de vida5. O doente pode apresentar dor acompanhada de parestesias, disestesias, sensação de queimadura ou choque elétrico. Ao exame físico pode apresentar alterações da sensibilidade, hiperalgesia ou alodinia.

A dor neuropatica nestes doentes pode ser causada pela própria doença oncológica (invasão tumoral), pelo seu tratamento cirúrgico (após a excisão cirúrgica do tumor – dor neuropática pós-cirúrgica), após a quimioterapia (neuropatia pós-quimioterapia) ou após a radioterapia (por fibrose tecidular)4.

A dor neuropática pode ocorrer após a excisão cirúrgica do tumor. As cirurgias que mais frequentemente causam esta dor são: mastectomia e toracotomia. A etiologia não é completamente conhecida, acredita-se que seja multifactorial, presumivelmente relacionada com a lesão nervosa no momento da cirurgia.

A neuropatia periférica induzida pela quimioterapia é um efeito adverso comum da terapêutica oncológica. A neurotoxicidade a longo prazo é uma questão importante para o número crescente de sobreviventes do cancro, com um maior número de doentes afetados no caso do cancro da mama e/ou do cólon. Esta neuropatia pode igualmente afetar negativamente a terapêutica oncológica, forçando alterações da doses e/ou interrupção prematura do tratamento. Os agentes com maior incidência de neuropatia periférica são os fármacos de platina, especialmente cisplatina e oxaliplatina, taxanes, vinca alcaloides e bortezomib. A neuropatia é tipicamente dependente da dose, cumulativa e normalmente tem uma distribuição simétrica, distal, em “meia e luva”. Estas alterações sensitivas podem alterar a postura e o equilíbrio, aumentando o risco de quedas. Frequentemente, a história natural desta neuropatia é uma melhoria gradual ao longo do tempo após a suspensão da quimioterapia, embora se possa agravar ao longo de alguns meses com alguns medicamentos.

A dor neuropática relacionada com o cancro, quando comparada com a dor puramente nociceptiva, foi associada a uma maior necessidade de recurso a analgésicos (incluindo opioides fortes e analgésicos adjuvantes) e uma maior diminuição do bem-estar geral6.

Em reconhecimento da importância de identificar a dor neuropática, a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP), na recente classificação internacional de doenças (ICD-11), identifica códigos específicos para a dor neuropática causada pelo cancro e para a dor neuropática causada pelos tratamentos, como quimioterapia ou radioterapia7.

As orientações da IASP sublinham a importância de um diagnóstico correto da dor no contexto de doença oncológica para que o tratamento personalizado (incluindo analgesia, terapêutica citostática, cirurgia e intervenções não farmacológicas) possa otimizar os outcomes no tratamento da dor8. A Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO) atualizou recentemente as suas orientações para gestão farmacológica e não farmacológica da dor neuropática oncológica9.

Assim, dada a ausência de medidas preventivas eficazes é importante o diagnóstico e tratamento precoces para se conseguir uma diminuição do sofrimento e melhoria da qualidade de vida destes doentes.

 

Referências

  1. van den Beuken-van Everdingen MH, Hochstenbach LM, Joosten EA, Tjan-Heijnen VC, Janssen DJ. Update on prevalence of pain in patients with cancer: systematic review and meta-analysis. J Pain Symptom Manage 2016;51:1070e1090.e9.;
  2. Roberto A, Silvia Deandrea S, Greco MT, et al. Prevalence of neuropathic pain in cancer patients: pooled estimates from a systematic review of published literature and results from a survey conducted in 50 Italian palliative care centers. J Pain Symptom Manage 2016;51:1091e1102.e4.;
  1. https://www.iasp- pain.org/group/neuropathic-pain-neupsig/, acedido em Janeiro 2022;
  2. Edwards, H. L., Mulvey, M. R., & Bennett, M.I. (2019). Cancer-Related Neuropathic Pain. Cancers, 11(3), 373. https://doi.org/10.3390/cancers11030373;
  3. Torrance N, Lawson K, Afolabi E, et al. Estimating the burden of disease in chronic pain with and without neuropathic characteristics: does the choice between the EQ-5D and SF-6D matter? Pain 2014; 155: 1996–2004;
  4. Rayment, C.; Hjermstad, M.J.; Aass, N.; Kaasa, S.; Caraceni, A.; Strasser, F.; Heitzer, E.; Fainsinger, R.; Bennett, M.I. Neuropathic cancer pain: Prevalence, severity, analgesics and impact from the European Palliative Care Research Collaborative- Computerised Symptom Assessment study. Palliat. Med. 2013, 27, 714–721.;
  5. Bennett, M.I.; Kaasa, S.; Barke, A.; Korwisi, B.; Rief, W.; Treede, R.D. The IASP classification of chronic pain for ICD-11: Chronic cancer-related pain. Pain 2019, 160, 38–44.;
  6. Finnerup, N.B.; Attal, N.; Haroutounian, S.; McNicol, E.; Baron, R.; Dworkin, R.H.; Gilron, I.; Haanpaa, M.; Hansson, P.; Jensen, T.S.; et al. Pharmacotherapy for neuropathic pain in adults: A systematic review and meta-analysis. Lancet Neurol. 2015, 14, 162–173.;
  7. Jordan B, Margulies A, Cardoso F, et al. Systemic anticancer therapy-induced peripheral and central neurotoxicity: ESMO-EONS-EANO Clinical Practice Guidelines for diagnosis, prevention, treatment and follow-up. Ann Oncol. 2020 Oct;31(10):1306-1319.
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