17 Jan, 2022

Doenças valvulares. “Estamos a falar de patologias muito frequentes em Portugal”

Em entrevista ao SaúdeNotícias, o cardiologista de intervenção Rui Campante Teles caracterizou as duas principais doenças valvulares e alertou para a sua prevalência a nível nacional. “As doenças cujo processo é degenerativo também estão a aumentar, como é o caso da insuficiência mitral e da estenose aórtica”, explicou.

Quais são as principais doenças valvulares?

As principais doenças valvulares contemporâneas são a estenose aórtica e a insuficiência mitral.

A aorta é a principal artéria do nosso corpo que transporta sangue para fora do coração. Quando o sangue sai do coração, flui da válvula aórtica – que tem como função evitar que o sangue bombeado volte para trás – para a artéria aorta. Na presença de estenose, ou seja, de um aperto, a válvula aórtica não abre completamente, vai ficando cada vez mais estreita e isso impede o fluxo sanguíneo para fora do coração.

A insuficiência mitral caracteriza-se por um refluxo de sangue através da válvula mitral. Cada vez que o ventrículo esquerdo de contrai, isto é, à medida que o ventrículo esquerdo bombeia o sangue para a aorta, uma porção de sangue volta para trás em direção à aurícula esquerda, aumentando o volume de sangue a pressão nesse local. Por sua vez, o aumento da pressão na aurícula esquerda irá traduzir-se num aumento da pressão nas veias dos pulmões. Assim, a insuficiência mitral leva a uma menor eficiência no sangue bombeado para a circulação geral a cada batimento cardíaco e, simultaneamente, a um aumento de pressão na circulação pulmonar, comprometendo a sua função.

Quais são os principais sintomas associados a estas condições?

Os doentes começam por sentir cansaço, muitas vezes acompanhado por falta de ar e incapacidade para realizar as tarefas que faziam anteriormente sem aparente dificuldade. Por vezes, sentem desconforto quando se deitam, ou seja, têm falta de ar, particularmente quando estão deitados (ortopneia). Também podem apresentar pieira (ruídos produzidos pela respiração dificultada), as pernas podem inchar (edemas), têm falta de apetite e, de forma geral, acabam por ter também algum desconforto ou dor difícil de caracterizar no peito.

A nível nacional, quais são os seus níveis de prevalência?

São duas doenças cuja prevalência está a crescer, de acordo com o aumento da longevidade portuguesa. Neste momento, a esperança média de vida em Portugal é de cerca de 80 anos de idade. Logo, as doenças cujo processo é degenerativo também estão a aumentar, como é o caso da insuficiência mitral e da estenose aórtica.

Atualmente, é sabido que mais de 6% da população octogenária tem esta última condição. Em relação à doença mitral, estes números não serão menores, pois cerca de 50% das pessoas que sofreram um enfarte agudo do miocárdio ou têm insuficiência cardíaca ou acabam por desenvolver insuficiência mitral. Estamos a falar de duas patologias muito frequentes em Portugal.

Quais são os meios de diagnóstico?

No exame médico, quando é realizada a auscultação cardíaca, com o estetoscópio, esta permite, facilmente, detetar sopros, que são o sinal de alerta.

O passo seguinte é fazer exames diagnósticos, particularmente o ecocardiograma ou a ecografia cardíaca, para detetar qual é a válvula com perturbação no funcionamento, que habitualmente, é a mitral ou a aórtica.

Quais são os tratamentos disponíveis?

Os procedimentos minimamente invasivos nas válvulas e o cateterismo são a grande revolução para os doentes e para os cardiologistas, nas últimas duas décadas.

O facto de termos uma técnica minimamente invasiva torna o tratamento deste tipo de patologias menos limitativo, sendo possível tratar os doentes mais frágeis. Há um mundo novo, não só na possibilidade de tratar novos doentes, até porque os que não têm um risco particularmente agressivo beneficiam de um procedimento mais simples, que permite um retorno a melhoria e até o retorno à vida normal, muitas vezes, em menos de uma semana.

Como se pode prevenir o desenvolvimento destas patologias?

O exercício físico e o controlo do sal na dieta são vertentes fundamentais da intervenção na insuficiência cardíaca. Os doentes devem manter uma vida ativa, fazer tanto exercício físico quanto tolerarem e ter, particular, atenção com a alimentação, sobretudo com a ingestão de sal, que pode descompensar o coração, uma vez que leva à retenção de líquidos.

São medidas de caráter geral que ajudam todas as pessoas, à medida que os anos passam.

SO

ler mais

RECENTES

ler mais