Doença oncológica no doente idoso

Raquel Palma

Raquel Palma

Interna de Formação Específica de Medicina Geral e Familiar

Unidade de Saúde Familiar Flor de Lótus

Raquel Palma1, Maria Teresa Couto2, Denise Sousa3

1,2 Internas de Formação Específica de Medicina Geral e Familiar, USF Flor de Lótus, ACES Sintra

3 Interna de Formação Específica de Medicina Geral e Familiar, USF Marginal, ACES Cascais

MHA, sexo feminino, 83 anos, viúva. Reside sozinha e tem apoio da única filha, que habita perto, para algumas atividades básicas de vida diária, dada a sua dependência moderada, de acordo com a Escala de Barthel. Dos antecedentes pessoais, de salientar hipertensão arterial, dislipidemia, anomalia da glicemia em jejum, excesso ponderal, doença arterial periférica, úlcera crónica da pele, estrabismo e glaucoma.

Trata-se de uma utente bastante frequentadora da unidade de saúde, sobretudo nos últimos meses devido à frequência de tratamentos que a sua úlcera crónica requeria. Recorreu a consulta aberta por queixas de tumefação indolor a nível do quadrante superior interno da mama esquerda, com alguns meses de evolução, que teria desvalorizado quando se apercebeu inicialmente. Preocupada com a situação, e já tendo a consciência da probabilidade diagnóstica da sua queixa, a utente consentiu realizar a mamografia cujo resultado de BI-RADS 5 veio mostrar algumas semanas mais tarde. Salienta-se que se tratava de uma utente sem cumprimento prévio do rastreio do cancro da mama. Após decisão partilhada, referenciou-se à consulta de Senologia do IPO de Lisboa. “Seja gripe ou seja cancro… é para tratar!” – dizia, esforçando-se por transparecer segurança de si mesma, porém com um sorriso triste, esboçando receio e pouca esperança.

Entretanto, pela mobilidade condicionada da utente, foi sugerido, por parte da equipa de enfermagem da unidade de saúde, a realização de consultas domiciliárias para vigilância e cuidados da úlcera crónica de pele. Por agravamento da lesão, foi realizado um domicílio médico, durante o qual a utente revelou sentimento de insegurança perante a sua situação clínica – “Nesta idade já não estava à espera desta surpresa…”. Ainda a aguardar a primeira consulta no IPO, questionou sobre aceitar ou não que fosse tratada, demonstrando preocupação por viver só e pela possibilidade de vir a ter de necessitar de cuidados de outrem. Foi evidente a revolta que sentia, a insegurança sobre o que lhe poderia acontecer em termos de tratamentos invasivos, mas, simultaneamente, a vontade de ser avaliada e ter uma opinião especializada.

Recentemente, recorreu novamente a consulta aberta por quadro clínico compatível com tromboflebite superficial, para a qual a utente foi orientada, com melhoria. Nesta consulta, trouxe a nota de alta do internamento que tinha tido para realização de biópsia da mama e do gânglio sentinela. De momento, aguarda consulta de decisão terapêutica no IPO.

A par do aumento da esperança média de vida, o diagnóstico de doença oncológica em idade geriátrica tem sido cada vez mais comum na prática clínica a nível dos cuidados de saúde primários. A patologia oncológica no doente idoso implica uma abordagem complexa, sobretudo perante um doente idoso frágil, pelo que a terapêutica deve ser individualizada e ter como objetivo primordial a manutenção da qualidade de vida.

Sendo a acessibilidade e a continuidade de cuidados duas das competências que melhor caracterizam a Medicina Geral e Familiar, conclui-se que o médico de família exerce um papel importante na orientação dos cuidados e na gestão do impacto causado no próprio e na família. Esta gestão é um desafio para o médico, por ter de decidir com o doente prosseguir a investigação e informar sobre as prováveis consequências que implicam um diagnóstico oncológico. Por fim, cabe ao profissional de saúde encorajar o doente a falar e validar sentimentos e emoções, escolhendo as palavras certas para acalentar quem tem de viver com este diagnóstico na última fase da sua vida.

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