Os fatores principais são a vida sedentária: as profissões evoluíram, as pessoas deixaram de trabalhar no campo, de fazer atividade física e hoje passam o tempo sentadas em escritórios.

Diabetes e coração: 80% das pessoas com diabetes morre de DCV

A diabetes (tipo 2) é uma doença da civilização. Tem muito a ver com o nosso estilo de vida, particularmente com a alimentação, e é uma epidemia que tem vindo a aumentar, de forma muito marcada, a partir do início dos anos 90 do século passado. Por outro lado, as doenças do coração também são doenças da civilização e estão também condicionadas pelos fatores de risco e pelos estilos de vida.

Os fatores principais são a vida sedentária: as profissões evoluíram, as pessoas deixaram de trabalhar no campo, de fazer atividade física e hoje passam o tempo sentadas em escritórios. Como a maior parte de nós está neste preciso momento! Vivemos dentro de “caixas” e deslocamo-nos para o trabalho e para casa dentro de “caixas” (elevadores e automóveis) e tornámo-nos muito sedentários. Por outro lado, a alimentação mudou muito. Apesar de em Portugal termos como tradição a dieta mediterrânica, a nossa alimentação aproxima-se cada vez mais da dita dieta ocidental.

Quando comparamos fotografias dos anos 60, em que os portugueses eram uma população magra, como fotos ou imagens televisivas da segunda década deste século, vemos que, principalmente entre os jovens, há uma grande percentagem de obesos. Quando eu andava no liceu, numa turma de 30 alunos, havia um que tinha excesso de peso. Hoje, em 30, há 29 com excesso de peso… A diabetes tipo 2 está intimamente relacionada com o excesso de peso e com a obesidade. A dieta ocidental e o sedentarismo são fatores de risco simultâneos de diabetes e de doença cardiovascular (DCV).

Por outro lado, o aumento da glicemia vai exercer uma ação tóxica sobre os órgãos. Sobre os olhos, sobre os nervos, sobre o fígado (fígado gordo) e sobre os rins (insuficiência renal). Mas, talvez o órgão mais sensível seja o coração, de tal modo que muitos autores defendem a teoria – a meu ver um pouco exagerada – de que quem é diabético é doente do coração. A evidência mostra que 80% das pessoas com diabetes morre de DCV, devido, precisamente, à toxicidade da glicemia sobre o coração, para além das perturbações lipídicas que acompanham a diabetes, como níveis elevados de colesterol de baixa densidade, triglicéridos elevados e níveis reduzidos de colesterol de alta densidade. Além disso, há uma associação extremamente frequente entre a diabetes e a hipertensão arterial (HTA).

Portanto, todos estes fatores de risco vão exercer uma ação negativa sobre o coração e daí a razão porque todos os órgãos são afetados pela diabetes. Daí a importância de trabalhar na prevenção da diabetes, que passa fundamentalmente pela adoção de estilos de vida saudáveis, que integrem a dieta mediterrânea e a prática regular de atividade física. A Fundação Portuguesa de Cardiologia (FPC) reconhece a importância da enorme evolução terapêutica na diabetes, atualmente com fármacos que reduzem a mortalidade por DCV.

Até há pouco tempo, conseguíamos reduzir a glicémia, atingindo níveis glicémicos muito próximos dos normais com os fármacos de que dispúnhamos, mas não conseguíamos reduzir a mortalidade por DCV. Atualmente, temos à nossa disposição dois grupos de fármacos – agonistas da GLP1 (aGLP-1) e inibidores da SGLT-2 (iSGLT-2) – com um papel extraordinário, comprovado por grandes ensaios clínicos, na redução da morbimortalidade cardiovascular, na prevenção do risco de doença aterosclerótica, controlo da insuficiência cardíaca (IC) e uma ação benéfica ao nível do rim. Vivemos, assim, uma nova era no tratamento da diabetes, em que como médicos nos sentimos mais confortáveis e mais capazes de ajudar os nossos doentes.

Prolongando-lhes a vida e evitando que sofram eventos cardiovasculares graves, que são a principal causa de morte entre as pessoas com diabetes. Para nós, cardiologistas, são ainda fármacos (de primeira linha) no combate a uma outra epidemia crescente: a da IC. Sabe-se que as pessoas com IC que têm diabetes apresentam, por norma, um pior prognóstico do que os doentes com IC sem diabetes. Por serem recentes, estas duas classes terapêuticas ainda não estão inscritas nos automatismos de todos os clínicos, mas temos todos de fazer um esforço para que passem a integrar o nosso instinto terapêutico, na medida em que comportam enorme vantagem e são fundamentais em termos de sobrevida dos nossos doentes.

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