Depressão funcional – será a nova epidemia camuflada?
Beatriz Abreu Cruz (Especialista em MGF, USF Reynaldo dos Santos, ULS Estuário do Tejo; Membro da equipa coordenadora do Grupo de Estudos de Saúde Mental - APMGF); Mariana Macieira (Interna de MGF, USF Azevedo Campanhã, ULS São João; Colaboradora do Grupo de Estudos de Saúde Mental – APMGF)

Depressão funcional – será a nova epidemia camuflada?

A expressão “depressão funcional” ou high functional depression, que tem vindo a ser mais utilizada recentemente, descreve alguém capaz de manter as suas actividades de vida diária e a sua funcionalidade, embora se depare e oculte dificuldades emocionais. Não se trata de uma entidade formalmente descrita nas classificações de doenças comumente aceites, nomeadamente porque a síndrome depressiva cursa obrigatoriamente com o compromisso da funcionalidade da pessoa.

No entanto, a “depressão funcional” apresenta algumas características que surgem também associadas à depressão, mas por serem habitualmente menos graves e menos duradouras, permitem que o indivíduo mantenha a sua actividade. Estes podem parecer emocionalmente estáveis, bem-sucedidos e ajustados nas esferas laboral, familiar e social, embora frequentemente à custa de um grande investimento emocional e de tempo. No entanto, sofrem silenciosamente com humor deprimido persistente ou sentimentos de desesperança, dificuldade em sentir-se descansado, com dificuldade no controlo das emoções, dificuldades de concentração e recurso a mecanismos de coping desadequados (álcool, tabaco, drogas, jogos de vídeo, junk food).

Apesar do sofrimento interno, a capacidade de cumprir certas obrigações, como as profissionais, académicas ou familiares, mascara o impacto dos sintomas. Não havendo compromisso da funcionalidade, não é feito o diagnóstico de síndrome depressivo, ignorando-se o fardo psicológico. Deste modo, ao ocultarem o seu sofrimento por trás da competência, os indivíduos com “depressão funcional” permanecem em grande parte invisíveis para os profissionais de saúde, empregadores e até mesmo familiares, apesar do seu sofrimento persistente, perpetuando o mito cultural de que o sucesso externo é incompatível com a doença mental.

Para a dificuldade de diagnóstico da situação, contribui também o facto de a própria pessoa ter dificuldade em a identificar. Assim, a nível dos cuidados de saúde primários deverá haver a disponibilidade para avaliar a saúde mental dos utentes. Perguntas simples tais como “como se sente?”, “sente-se triste ou irritável?”, “descansa bem?”, “tem dificuldades de concentração?”, “como é que estas situações têm afectado a sua vida no dia-a-dia?” podem abrir espaço para abordar o tema e identificar atempadamente estas pessoas.

Importará ainda fazer uma caracterização completa dos sintomas e perceber se poderemos estar perante outros diagnósticos, nomeadamente reacções agudas a eventos adversos, perturbações de ansiedade, perturbações do sono, burnout.

Estes indivíduos podem mostrar-se relutantes em procurar ajuda e iniciar medidas para minimizar os sintomas. Podem questionar a necessidade de ajuda e desistir da terapia logo que o seu desempenho externo melhora. À semelhança do que se verifica na síndrome depressiva, a abordagem passará também por medidas de estilo de vida, nomeadamente por uma dieta saudável e equilibrada, exercício físico, psicoterapia e higiene do sono.

É fundamental reconhecer precocemente estas situações, de modo a prevenir a sua progressão para quadros mais graves, como episódios depressivos major, ou o desenvolvimento de comorbilidades, incluindo ansiedade, uso de substâncias, doença cardiovascular e perturbações do sono. Nesse sentido, a mudança de paradigma é necessária para desafiar o estigma que equipara vulnerabilidade à fraqueza e bem-estar à produtividade. Ao reconhecer o sofrimento interno, mesmo quando oculto por trás das conquistas do dia-a-dia, podemos preencher uma lacuna crítica na abordagem da saúde mental e contribuir para a prevenção de doenças mais graves e das suas comorbilidades.

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