12 Jan, 2021

Depressão. Estigma tem diminuído de forma lenta e há um longo caminho a fazer

Em entrevista, o psiquiatra do Hospital de Santa Maria diz que o “estigma limita as pessoas a procurarem ajuda”. Luís Madeira afirma que, com a pandemia, o número de pessoas com síndromes depressivos tem aumentado.

Quais os sinais de alerta para um quadro depressivo?

A depressão pode manifestar-se várias formas. A falta de vontade, a diminuição dos interesses, as dificuldades e a pouca vontade de interação social, a falta de prazer, o sofrimento, a tristeza são tudo sentimentos que caracterizam os síndromes depressivos.

O que é preciso é clarificar estes sintomas na situação que atravessamos, em particular por estarmos a chegar ao inverno. O SARS-CoV-2 veio trazer fatores de stress adicionais, que dificultam a convivência e vieram trazer um sentimento de incerteza.

Diria que o mais universal dos sinais da depressão é a insónia, ou seja, seja a insónia que dificulta que a pessoa adormeça, seja a insónia intermédia (dificuldade em manter o sono) ou a insónia terminal (dificuldade em acordar). Estão normalmente associadas ao acordar demasiado cansado e sem energia para o dia. São sinais que devem levar à procura de ajuda médica e apoio psicológico.

Esses sinais devem ser considerados preocupantes quando persistem durante quanto tempo?

É difícil falar num número concreto de dias. Normalmente definimos a tristeza normal como um período curto de sete dias com sintomas parecidos à depressão, com sintomas que fazem sentido para a pessoa ou que não causam disfunção significativa.

Contudo, três ou quatro dias de ideação suicida, por exemplo, são suficientes para a pessoas pensarem em procurar ajuda, seja através do médico de família, da linha de saúde 24 ou até no serviço de urgência.

Definir um período exato é muito difícil de um ponto de vista médico mas se formos muito estritos poderemos apontar para os 15 dias.

Que conselhos daria às pessoas para passarem um inverno (ainda em pandemia) com uma boa saúde mental?

– Exercício físico frequente (20 minutos por dia ou três vezes por semana)

–  Alimentação saudável

– Boa hidratação

– Boa higiene do sono (tentar não trabalhar duas horas antes de ir dormir; fazer pausas e não descurar os momentos de lazer)

– Tentar ir dormir e acordar todos os dias à mesma hora, especialmente no inverno

– Ter um animal de estimação, que pode melhorar o bem-estar

Tem sentido, no Hospital de Santa Maria (onde trabalha), um aumento dos casos de depressão que cheguem através da urgência ou dos centros de saúde?

É preciso distinguir sintomas depressivos de quadros reativos a uma situação de stress aguda de sintomas depressivos de natureza psiquiátrica, manifestados em idades mais jovens. O que observamos na consulta são doentes que estão com reações de adaptação e sintomas depressivos e ansiosos. Também há casos de doentes que estavam já em tratamento para doença psiquiátrica e tiveram de interromper os tratamentos ou adiar o acompanhamento médico.

Por exemplo, os hospitais de dia tiveram de interromper as suas atividades ou fazer acompanhamento à distância, que não é a mesma coisa. Não é uma consulta semanal ou mensal que substituiu um acompanhamento diário. Muitas vezes entram num sofrimento psicológico que motiva o recurso à urgência. É fundamental repensar os cuidados integrados na proximidade, para que, no futuro, consigamos garantir cuidados que sejam resistentes a este tipo de stress.

Portanto, não só houve um aumento de casos de pessoas com quadros depressivos como o quadro dos doentes que já estavam em tratamento se agravou.

Sinto que o número de pessoas com síndromes depressivos tem aumentado. (15 min)

Sente que as pessoas com depressão ainda sofrem com o estigma social?

A doença psiquiátrica ainda é vista como obscura e ameaçadora. O estigma limita as pessoas a procurarem ajuda e a receberem apoio e limita os cuidadores e amigos/família a fazer uma abordagem construtiva e apoiante. É verdade que as práticas discriminatórias para com as pessoas com depressão têm mudado. Mas a mudança do paradigma, do ponto de vista do estigma, é lenta e muitas vezes é feita por exposição. Ou seja, os doentes sem doença psiquiátrica que me procuram pela primeira vez ficam com outra perspetiva, bem como os familiares, que mudam o paradigma quando veem o profissional a melhorar.

Como avalia o acesso à psiquiatria em Portugal? Funciona bem a referenciação dos centros de saúde para a consulta de especialidade?

O apoio está estruturado a partir da referenciação, ou intrahospitalar ou a partir da consulta com o médico de família ou ainda através do serviço de urgência. A forma mais razoável é através do centro de saúde. Depois, é feita uma triagem no hospital e daí pode resultar o retorno do doente para o médico de família ou o seguimento contínuo na consulta de psiquiatria.

No limite, em urgência, é sempre possível ter apoio psiquiátrico imediato. Isso é extraordinário. Trabalhei noutros países onde os cuidados psiquiátricos estavam muito mais distantes dos cidadãos.

Em Portugal, o tempo de espera para acesso a uma consulta varia mas tem vindo a melhorar. Já tivemos esperas de uma a duas semanas no Santa Maria. Tendemos a dar resposta em muito menos tempo do que muitos países da europa.

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