Terapia hormonal aumenta risco de cancro da mama logo após o primeiro ano

Estudo admite que a terapia hormonal, que serve para aliviar os sintomas da menopausa, aumenta o risco de desenvolver cancro da mama logo após o primeiro ano de utilização.

Um ano após as mulheres iniciarem terapia hormonal para aliviar os sintomas da menopausa a probabilidade de desenvolverem cancro da mama aumentou consideravelmente, revela um estudo publicado na revista científica The Lancet.

O tratamento é já há várias décadas motivo de debate entre os membros da comunidade científica e médica. Se, por um lado, existem médicos que afirmam que os benefícios deste superam os contras, por outro, existem os que defendem a sua não aplicação tendo em conta os efeitos adversos.

O grupo de cientistas responsáveis pelo estudo, o Grupo Colaborativo sobre Fatores Hormonais no Cancro da Mama, encontram-se há já algumas dezenas de anos a tentar descobrir quais os fatores que contribuem para o cancro da mama, como por exemplo, a Terapia Hormonal (TH). Descobriram haver um maior risco de desenvolver cancro da mama após o primeiro ano de tratamento, contrariando uma teoria que afirmava que só a partir dos cinco anos é que o risco aumentava. Além disso, comprovou-se ainda que o risco mantém-se inalterado durante os 10 anos seguintes à finalização do tratamento. Os investigadores analisaram também dados de outros 58 estudos internacionais e nos quais haviam participado mais de 100 mil mulheres com cancro da mama. Escusado será dizer que as polémicas revelações lançaram ainda mais achas para a fogueira já existente entre os médicos a favor e contra a terapêutica hormonal nas mulheres com menopausa com vista a reduzir a sintomatologia a ela associada.

“Tínhamos muita convicção de que se fizéssemos o tratamento só durante cinco anos o risco de cancro não aumentaria, mas agora sabemos que não. Ficamos a saber que, ao fim de um ano de utilização, esse risco aumenta. E que persiste mesmo após a interrupção da terapêutica”, admitiu surpreendido o diretor da Unidade de Ginecologia do Centro Clínico Champalimaud, Henrique Nabais, em entrevista ao jornal Expresso.

 

“Praticamente todas as hormonas estão associados ao aumento do risco [de cancro da mama]”

 

No entanto, declara ainda que ficaram com um maior conhecimento graças a este estudo. “Ficámos também a saber que praticamente todas as hormonas usadas na terapêutica estão associados a esse aumento do risco” e que, a combinação frequente neste tipo de tratamentos entre o estrogénio e a progesterona está associada a um risco ainda mais elevado. Mas, por outro lado, o estrogénio, hormona que está associada a um menor risco de vir a ter cancro, “só pode ser utilizada em mulheres sem útero”, um problema visto não se tratar da maioria dos casos.

 

Mas afinal, quantas mulheres fazem terapia hormonal?

 

De acordo com um inquérito levado a cabo em maio de 2018 pela Sociedade Portuguesa de Ginecologia, em Portugal continental e respetivos arquipélagos (Açores e Madeira), com uma amostra de 892 mulheres com idades compreendidas entre os 45 e os 60 anos, cerca de 28% (perto de 250 mulheres) já fez um tratamento hormonal; menos de metade (46%) afirmou não ter realizado nenhum tratamento e 25% optou por não responder. Das mulheres que fizeram a terapêutica, cerca de 97% fizeram o tratamento por um ano ou mais tempo.

“Já sabíamos que havia uma associação clara entre a terapêutica hormonal e o cancro da mama, mas há uma novidade, o facto do risco persistir durante mais tempo do que se pensava. Pensava-se que uma vez terminada a toma, o risco seria igual ao de uma mulher que nunca fez a terapêutica, mas afinal não é bem assim. Nenhum estudo anterior mostrava isto, e com esta abrangência”, confirma a diretora da Unidade de Mama no Centro Clínico Champalimaud, Fátima Cardoso.

“Antes achava-se que era seguro tomar durante cinco anos, mas este estudo diz que, seguro mesmo, só mesmo durante um ano”, declara.

 

E agora?

 

Para a diretora da Unidade de Mama no Centro Clínico Champalimaud, é necessário que a mulher seja informada sobre os riscos e benefícios para poder depois tomar uma decisão.

“Não se trata de lançar o pânico, mas é preciso que as mulheres tenham noção das consequências da TH, para que recorram à terapêutica apenas aquelas cujos sintomas da menopausa são tão intensos que destroem a sua qualidade de vida.

A terapêutica não é o fator de risco mais importante para o cancro, é um fator que se vai associando a outros. Cabe à mulher decidir. Nunca poderíamos ser nós a decidir por ela. Se não posso proibir o tabaco, que está associado a um risco muito mais elevado, também não posso proibir algo que melhora a qualidade de vida de uma pessoa que está em sofrimento”, explica.

O diretor da Unidade de Ginecologia do Centro Clínico Champalimaud afirma, em declarações ao Expresso, que se tratava “já de um risco calculado”, mas que com estas novas informações terá “de o avaliar melhor e informar as mulheres que recorrem a esta terapêutica”.

“A TH é precisamente isso, uma terapêutica, tem contra-indicações e riscos como outra qualquer. Há mulheres que têm a indicação para a fazer, porque a sua qualidade de vida, em menopausa, é miserável. Não quero apenas que uma mulher viva até aos 100 anos, quero que viva esse tempo todo bem”, finaliza.

 

EQ/SO

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