Cancro do Pâncreas. Diagnóstico precoce é fundamental para alterar mau prognóstico

19 Nov, 2020

"Apesar de todos os avanços da medicina, o prognóstico continua reservado, com uma sobrevivência aos cinco anos inferior a 5%", diz o cirurgião-geral, diretor clínico e coordenador do Centro do Cancro do Pâncreas do Hospital da Luz Lisboa.

No âmbito do Dia Mundial do Cancro do Pâncreas, que se assinala a 19 de novembro, o SaúdeOnline entrevistou o Prof. Doutor Rui Maio, de forma a sensibilizar a população portuguesa sobre os principais sintomas e sobre a importância de um diagnóstico precoce na luta contra o aumento da mortalidade deste cancro.

Qual é a incidência do cancro do pâncreas em Portugal e quais as faixas etárias mais afetadas?

Estima-se que surjam anualmente, em Portugal, cerca de 1400 novos casos e o número absoluto de mortes por causa deste cancro duplicou nos últimos 25 anos. É a terceira neoplasia maligna do sistema digestivo mais frequente em Portugal logo após o cancro do cólon e do estômago.

A nível mundial, o cancro do pâncreas é atualmente a 4ª causa de morte por cancro em ambos os sexos mas a sua incidência tem vindo a aumentar de tal forma, que se prevê que em 2030 seja a 2ª causa de morte, imediatamente atrás do cancro do pulmão. Tipicamente é uma doença que aparece na 7ª ou 8ª década de vida mas, nos dias de hoje, um dos dados mais alarmantes é o de que o crescimento da mortalidade é mais acentuado entre os 50 e os 54 anos, o que pode significar que se esta tendência se mantiver, num futuro próximo, um número crescente de mortes por cancro do pâncreas poderá ocorrer em idades cada vez mais precoces.

Quais os principais sintomas que realçaria?

O cancro do pâncreas só apresenta sintomas numa fase avançada mas, ainda assim, inespecíficos. Como este órgão está localizado atrás do estômago as queixas podem ser vagas, apenas um desconforto, mal-estar abdominal, por vezes com irradiação para as costas, podendo ainda haver náuseas, perda de apetite ou emagrecimento. Se o tumor estiver localizado na cabeça do pâncreas e causar obstrução da via biliar, pode surgir icterícia com coloração amarelada da pele e das escleróticas (parte branca) dos olhos.

Como estas queixas são progressivas e graduais, o doente ou os familiares podem não notar e serem, por vezes, as pessoas que não vêm o doente há algum tempo a notar. Prurido (comichão) generalizado também pode aparecer. Algumas destas queixas em doentes com fatores de risco, nomeadamente diabetes, devem obrigar a excluir obrigatoriamente tumores do pâncreas.

Como é que se diagnostica um cancro do pâncreas?

Em geral, o diagnóstico do cancro do pâncreas obtém-se recorrendo a TAC com contraste ou ressonância magnética. Podem ser necessários exames adicionais como ecoendoscopia com eventual punção aspirativa do pâncreas (biopsia), tomografia de emissão de positrões (PET) e exames laboratoriais ou análises mais específicas. Deve salientar-se que os exames de imagem devem ser feitos em centros de referência, com equipamento adequado e por profissionais diferenciados. O doente terá maiores benefícios se realizar os exames no centro onde for tratado. Os métodos de imagem são muitas vezes complementares entre si e devem ser discutidos pela equipa médica envolvida no tratamento do doente. Podem ser necessários mais exames ou o primeiro exame realizado de forma adequada ser conclusivo e ser proposta uma terapêutica, nomeadamente, cirurgia. Reconhece-se hoje que existem lesões do pâncreas, nomeadamente alguns quistos, que têm maior probabilidade de evoluir para cancro, enquanto outros quistos não têm qualquer potencial de evolução e, por isso, não têm indicação para ser vigiados.

Esta diferença é de máxima importância pois se, por um lado, o diagnóstico e tratamento de lesões pré-malignas têm um potencial de cura muito elevado, por outro, a cirurgia do pâncreas tem elevada morbilidade e algum risco de mortalidade, pelo que só deve ser proposta a doentes com lesões com alto risco de transformação maligna. A distinção entre os vários tipos de lesões do pâncreas pode e deve ser feita com recurso a vários métodos de imagem nomeadamente ressonância magnética, ecoendoscopia com eventual punção aspirativa, bem como pela medição de marcadores tumorais no sangue ou no conteúdo/líquido do quisto. Nos doentes com fatores de risco para cancro do pâncreas deve-se estar particularmente atento ao diagnóstico precoce e/ou identificação de lesões pré-malignas. O diagnóstico recente de diabetes mellitus, sobretudo num adulto de idade mais avançada, pode ser motivo para realizar um exame de imagem para estudar o pâncreas como forma de excluir a presença de um tumor maligno.

É importante o doente ser diagnosticado de forma precoce? A pandemia tem afetado o processo de diagnóstico?

Absolutamente! Na altura do diagnóstico apenas cerca de 20% dos tumores são considerados ressecáveis. 50% são localmente avançados ou metastáticos e só podem beneficiar de terapêutica paliativa e 30% são borderline ressecáveis ou seja podem ser submetidos a terapêutica neoadjuvante (quimioterapia e/ou radioterapia) e dependendo da resposta, serem posteriormente submetidos a cirurgia com intuito curativo. Apesar de todos os avanços da medicina nas últimas décadas, o prognóstico desta neoplasia continua reservado, com uma sobrevivência global aos cinco anos inferior a 5%.

Sem dúvida que o principal responsável por este mau prognóstico é o diagnóstico da doença numa fase avançada, quando o tumor já cresceu localmente e invadiu dos vasos (veias e artérias), o que impossibilita a cura através da cirurgia. A melhor compreensão da biologia tumoral, o diagnóstico precoce e a utilização de terapêuticas neoadjuvantes são as únicas formas de alterar este cenário. Assim, é fácil entender que para melhorar o prognóstico dos doentes com cancro do pâncreas, temos de investir no diagnóstico precoce das lesões pré-malignas, as quais são, muitas vezes, achados acidentais em exames de rotina realizados por outros motivos (por exemplo, TAC, ressonância magnética ou ecografia).

Desde o início da pandemia assistimos a um aumento da mortalidade que não é explicável apenas pelas mortes provocadas pelo COVID19 o que nos faz suspeitar que esta e outras doenças estão subdiagnosticadas ou são diagnosticadas em fases muito avançadas afetando claramente o processo de tratamento e dessa forma o seu prognóstico.

Quais são os tratamentos que existem atualmente para estes doentes?

A cirúrgica representa atualmente a única opção terapêutica potencialmente curativa. Por outro lado, tal como sucede para outros tumores do aparelho digestivo, a combinação de várias modalidades terapêuticas pode ser necessária para tratamento da doença. Assim, existem situações em que a cura cirúrgica parece pouco provável, mas a administração prévia de quimioterapia e radioterapia pode tornar a doença tratável cirurgicamente – a chamada conversão terapêutica. Os resultados nomeadamente mortalidade, complicações, tempo de internamento, sobrevida e custos estão intimamente relacionada com o volume, pelo que o tratamento destes doentes só está recomendada em centros especializados.

Diria que há necessidade de haver uma Via Verde para estes doentes, de forma a diminuir tempos de espera entre a ida ao médico inicial, o diagnóstico e o início do tratamento?

Claramente!

Doentes com fatores de risco:

  • Tabagismo: os fumadores têm 2-3 vezes mais probabilidades de desenvolver cancro do pâncreas;
  • Idade: risco maior para pessoas acima dos 50 anos;
  • História familiar: algumas pesquisas mostram que cerca de 10% dos cancros pancreáticos são causados por alterações genéticas hereditárias;
  • Obesidade: as pessoas com excesso de peso e um índice de massa corporal (IMC) superior a 30 são mais propensos;
  • Pancreatite crónica;
  • Diabetes de início repentino ou mudanças bruscas de controlo de açúcar no sangue em diabéticos.

Que apresentem os seguintes sintomas:

  • Icterícia (pele ou olhos amarelados);
  • Mudança de cor na urina (pode ficar cor de laranja ou cor de chá) ou nas fezes (amarelas, avermelhadas, acinzentadas ou esbranquiçadas);
  • Dor no abdómen ou em redor;
  • Inchaço ou sensação de plenitude;
  • Náuseas, vómitos ou indigestão;
  • Fadiga;
  • Falta de apetite ou perda de peso inexplicável
  • Diabetes de início súbito ou súbita mudança no controlo de açúcar no sangue em diabéticos;
  • Depressão

Devem ter um acesso preferencial aos cuidados de saúde dado que, pela  rápida evolução deste tipo de cancro, muitas vezes a celeridade do diagnóstico e do inicio do tratamento mais adequado é determinante para a melhoria do prognóstico e sucesso terapêutico.

AR/SO

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