7 Set, 2022

Cancro da mama em homens. “Há uma grande necessidade de investigação”

O cancro da mama em homens é uma doença rara, que precisa de ser alvo de mais investigação. Pese embora alguns avanços, muitos dos conhecimentos e tratamentos são ainda extrapolados das mulheres para os homens, o que é um risco, admite a diretora da Unidade de Cancro da Mama da Fundação Champalimaud, Fátima Cardoso.

Qual a incidência do cancro da mama na população masculina, em Portugal?

Em Portugal, como no mundo inteiro, trata-se de uma doença rara nos homens. Representa 1% de todos os cancros da mama e 1% de todos os cancros no homem.

 

Os fatores de risco para o cancro da mama são diferentes nos homens?

Alguns são diferentes. No homem, um dos fatores de risco é o genético (nem todos os casos são de cancro hereditário mas há uma maior incidência deste tipo de cancro quando existe um homem com cancro da mama na família, com alterações no gene BRCA ou outras alterações genéticas mais raras).

Existem outros fatores de risco, como os hormonais. Determinadas doenças, como a cirrose, levam a alterações da parte hormonal no homem, aumentando o risco de cancro da mama. Existe também outra alteração hormonal, que leva à ginecomastia (homens com mamas maiores), e que aumenta substancialmente o risco.

 

No caso dos homens, qual é o grupo etário mais afetado?

Tal como nas mulheres, a incidência aumenta com a idade. No caso dos homens, há um pico entre os 60 e os 70 anos. No entanto, pode também desenvolver-se nas casas dos 40 e 50 anos.

 

Por ser uma doença rara, o cancro da mama nos homens é mais agressivo?

O que acontece é que, muitas vezes, o diagnóstico é atrasado. A maioria dos homens não está atento a alterações que possam ocorrer nas suas mamas, muitos até desconhecem que é possível terem cancro da mama. Acabam por recorrer tarde à ajuda médica. Contudo, por vezes, os profissionais de saúde também falham, porque não pensam na possibilidade de poder tratar-se de um cancro da mama.

Estas duas componentes fazem com que, muitas vezes, a doença seja diagnosticada quando já está muito avançada. Nestas situações, o prognóstico é pior. No entanto, quando olhamos para o prognóstico em situações iguais (tumores do mesmo tamanho, com o mesmo estadio e biologia), vemos que o prognóstico é o mesmo em homens e mulheres.

Em termos de biologia, nas mulheres existem três grandes tipos de cancro da mama, sendo que o mais frequente (65 a 70% dos casos) é o hormonodependente. No homem, esse tumor acontece em quase todos os casos. Sempre que se faz o diagnóstico, a primeira coisa a fazer é confirmar se o tumor é hormonodependente.

 

Existem algum sintoma distintivo no cancro da mama nos homens?

Os sintomas a que os homens devem estar atentos são os mesmos das mulheres, como nódulos na mama recentes. Os homens devem ter também o cuidado de fazer apalpação quando estão no banho, por exemplo, para verificarem a existência de algum nódulo ou alterações nos mamilos. O fator que determina a maior probabilidade de cura e sobrevivência é o diagnóstico precoce.

 

Quais são os maiores desafios no tratamento do cancro da mama em homens?

Um dos maiores desafios (como acontece na generalidade das doenças raras), é existirem poucos estudos e poucos dados. Praticamente não há estudos feitos exclusivamente em homens. Os homens eram excluídos dos ensaios clínicos de cancro da mama. Por esse motivo, começou, há alguns anos, uma campanha de sensibilização para não excluir os homens dos ensaios. Felizmente, os reguladores, nomeadamente a FDA, emitiu, em 2020, uma recomendação para que, salvo razão científica, os homens não sejam excluídos dos ensaios com novos medicamentos. Nestes últimos anos, temos assistido a uma melhoria, já há mais dados sobre o efeito nos homens de novos medicamentos para o cancro da mama.

Contudo, na maioria das vezes, o que fazemos é extrapolar os nossos conhecimentos adquiridos com as mulheres para o tratamento dos homens. Ora, um homem não é igual a uma mulher, particularmente em termos hormonais. Precisamos de estudar de que forma o cancro da mama se comporta nos homens.

Essa falta de dados leva à extrapolação para os homens da abordagem terapêutica feita às mulheres. Esta realidade leva a piores resultados nos homens?

Não. Apesar de estarmos a utilizar esta fórmula, globalmente os resultados são aceitáveis. Mas existem perigos por se extrapolar tudo. Há uma grande necessidade de investigação. Por exemplo, há várias décadas que houve uma evolução da cirurgia no cancro da mama nas mulheres, de modo a evitar as mastectomias (opta-se cada vez mais pelas cirurgias conservadores). Nos homens, ainda se recorre quase sempre à mastectomia – e não é necessário. É perfeitamente possível fazer cirurgias conservadores e poupar a mama do homem.

A mesma coisa acontece na radioterapia. Temos poucos dados sobre como tratar os homens e acabamos por tratar da mesma forma.

Um ponto positivo é que, finalmente, desde há dois ou três anos, temos guidelines específicas sobre como tratar um cancro da mama num homem.

SO

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