Assimetria regional “gigante” limita resposta dos cuidados de saúde primários por falta de médicos de família
O principal obstáculo, segundo Nuno Jacinto, é a “assimetria gigante” na cobertura de médicos de família no território nacional. Enquanto algumas zonas têm equipas completas e conseguem dar resposta, outras enfrentam carências graves de profissionais, comprometendo o acesso aos cuidados.

Os cuidados de saúde primários em Portugal continuam sem capacidade para responder de forma eficaz à maioria das situações de doença não urgente, devido à falta de médicos de família em várias regiões do país, alertou a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF).
Em declarações à Lusa, o presidente da associação, Nuno Jacinto, assinalou os três anos da entrada em vigor da medida que permite aos utentes emitir uma autodeclaração de doença, sublinhando que o SNS 24 tem encaminhado cada vez mais casos para os cuidados de saúde primários — uma evolução que considera positiva. “É importante que situações não urgentes nem emergentes sejam tratadas nos cuidados de saúde primários e não nas urgências hospitalares”, afirmou. Ainda assim, destacou que estes serviços deveriam conseguir resolver “a esmagadora maioria” das situações de doença aguda e de agravamento de doenças crónicas.
O principal obstáculo, segundo o responsável, é a “assimetria gigante” na cobertura de médicos de família no território nacional. Enquanto algumas zonas têm equipas completas e conseguem dar resposta, outras enfrentam carências graves de profissionais, comprometendo o acesso aos cuidados. “Não adianta encaminhar utentes para os cuidados de saúde primários quando não há médicos para realizar consultas, quando o utente não tem médico atribuído ou quando a unidade não dispõe de consultas abertas por falta de recursos humanos”, frisou.
Para Nuno Jacinto, o problema não está na organização do sistema, mas sim na escassez de profissionais. “Esse é o grande problema que continua sem ser resolvido”, lamentou, acrescentando que o aumento do número de utentes inscritos não foi acompanhado por um reforço proporcional de médicos. Segundo dados do Serviço Nacional de Saúde, o número de utentes inscritos nos cuidados de saúde primários cresceu cerca de 680 mil na última década, ultrapassando os 10,7 milhões no final de fevereiro. Destes, mais de 1,59 milhões não têm médico de família atribuído.
Questionado sobre o anúncio recente da ministra da Saúde, Ana Paula Martins, relativo à abertura de vagas em todas as zonas carenciadas, o presidente da associação considerou a medida positiva e há muito reivindicada por várias entidades do setor. “Temos de disponibilizar todas as vagas para que os médicos as possam escolher”, afirmou, reconhecendo, no entanto, que a fixação de profissionais continua a ser um desafio estrutural.
Ainda assim, defendeu que o alargamento das vagas pode contribuir para melhorar o recrutamento: “Mesmo que não consigamos preencher todas, captar mais alguns médicos já será um passo positivo para reforçar a resposta do sistema”.
SO/LUSA
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