30 Abr, 2026

Projeto para acompanhamento da gravidez de baixo risco gera conflito entre Direção do SNS e Ordem dos Enfermeiros

Um despacho de 9 de fevereiro de 2026 prevê que uma comissão seja responsável por definir o protocolo de implementação do projeto de acompanhamento por enfermeiros de uma gravidez de baixo risco, mas por causa de divergências, nada avançou.

Projeto para acompanhamento da gravidez de baixo risco gera conflito entre Direção do SNS e Ordem dos Enfermeiros

O projeto de acompanhamento da gravidez de baixo risco está a provocar um braço-de-ferro entre a Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e a Ordem dos Enfermeiros (OE), com ambas as entidades a trocarem acusações sobre o atraso na sua implementação. Na comissão parlamentar da Saúde, o diretor executivo do SNS, Álvaro Almeida, afirmou que o projeto não avança porque a Comissão de Acompanhamento “não está a funcionar em condições”, apontando a falta de participação da Ordem dos Enfermeiros como um dos principais entraves.

O responsável recordou que o despacho de 9 de fevereiro de 2026 prevê que esta comissão seja responsável por definir o protocolo de implementação, estabelecer indicadores de avaliação e assegurar a monitorização do projeto. Além da Direção Executiva do SNS, integram a estrutura a Ordem dos Enfermeiros, a Ordem dos Médicos, a Comissão Nacional da Saúde da Mãe, da Criança e do Adolescente e representantes de unidades locais de saúde envolvidas no projeto-piloto. “Se o protocolo não avança, é porque a Comissão de Acompanhamento não está a funcionar em condições”, afirmou, acrescentando que, segundo informações que recebeu, a OE se recusa a participar nos trabalhos.

Em resposta, a Ordem dos Enfermeiros rejeita as acusações e aponta responsabilidades à Direção Executiva. O bastonário, Luís Filipe Barreira, considera que o problema reside na tentativa de impor um modelo que não respeita o despacho aprovado, nomeadamente ao limitar a prescrição de medicamentos e a requisição de exames a médicos. A divergência levou o responsável a solicitar uma intervenção urgente da ministra da Saúde, defendendo que cabe ao Governo clarificar eventuais dúvidas jurídicas e garantir o cumprimento da medida.

Entretanto, em comunicado, o bastonário acusou Álvaro Almeida de faltar “à verdade” ao responsabilizar a Ordem pelo impasse. “A responsabilidade é exclusiva da Direção Executiva do SNS, que está a tentar contrariar uma medida aprovada pelo Ministério da Saúde”, afirmou.

Segundo a OE, a interpretação da Direção Executiva — que reserva atos como a prescrição terapêutica e a requisição de exames exclusivamente aos médicos — esvazia o alcance do projeto e compromete o objetivo de reforçar o acompanhamento de grávidas, sobretudo num contexto de falta de médicos de família. “Não aceitamos que uma medida criada para responder a mulheres sem acompanhamento fique bloqueada por interpretações corporativas”, sublinhou Luís Filipe Barreira, alertando para o impacto negativo na área materno-infantil.

A Ordem dos Enfermeiros garante que apenas regressará à Comissão de Acompanhamento quando forem retirados os “entraves corporativos”, afastando, até lá, qualquer responsabilidade sobre decisões ou documentos produzidos no âmbito do projeto.

O impasse coloca em causa o arranque de uma medida considerada estratégica para melhorar o acesso ao acompanhamento de grávidas de baixo risco no SNS, num momento em que o sistema enfrenta constrangimentos na resposta em cuidados de saúde primários.

SO/LUSA

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