18 Mar, 2022

Apneia do sono “contribui decisivamente para a principal causa de morte em Portugal: a doença cardio e cerebrovascular”

Em entrevista ao SaúdeOnline, o pneumologista, coordenador do Centro de Medicina do Sono do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra e presidente da Associação Portuguesa de Sono descreve o impacto dos distúrbios do sono na qualidade de vida dos portugueses.

O que é um sono de qualidade?

Por sono de qualidade entende-se um sono que tem uma duração suficiente, com ciclos contínuos e sem interrupção, e profundo o suficiente para ser reparador.

Recomenda-se que entre os 18 e os 65 anos se durma entre sete a nove horas. A duração de sono varia ao longo da vida: crianças e adolescentes precisam de dormir mais horas, mas existe uma grande variabilidade individual. A sesta até aos cinco anos é necessária para a maioria das crianças.

No que respeita aos ciclos, sabemos que o nosso sono está estruturado em ciclos com a duração de 90 minutos. Em cada ciclo atravessamos de forma sequencial as diferentes fases de sono: sono ligeiro (N1), intermédio (N2), profundo (N3) e sono REM (rapid eye movement), associada á maioria dos sonhos. O sono REM é fundamental para a aprendizagem, consolidação de memórias e equilíbrio emocional.

Qual o “retrato” atual do sono dos portugueses?

A maioria dos portugueses dorme menos do que seis horas, de acordo com os diversos estudos que têm sido realizados nas duas últimas décadas.

A pandemia teve impacto neste domínio? De que forma?

Para mais de metade das pessoas que participaram num estudo realizado pela Associação Portuguesa do Sono, em conjunto com o — Centro de Investigação em Neuropsicologia e Intervenção Cognitivo-Comportamental (CINEICC) da Universidade de Coimbra, o sono pio­rou durante a pandemia (46,6%). Para um pouco mais de um terço (38,5%) não houve alterações e cerca de 15% afirmaram que o seu sono melhorou (14,9%).

Quais as queixas que devem motivar a procura de cuidados médicos?

Insatisfação com a qualidade de sono sob a forma de insónia inicial ou de manutenção. Ressonar, ocorrência de apneias, nitúria, movimentos anormais do corpo ou dos membros. Ao acordar, noção de sono não reparador, cefaleias. Sonolência diurna. Alterações cognitivas com a perda de memoria, falta de foco, dificuldade em tomar decisões, irritabilidade. Movimentos involuntários das pernas são sintomas frequentes em diversas doenças do sono, que frequentemente cursam em conjunto como o caso da insónia, da síndrome de apneia do sono (SAS) e da síndrome de pernas inquietas, para citar as mais frequentes (ver caixa).

Que consequências pessoais/profissionais/sociais advém de um mau sono?

A SAS está associada a doença cardíaca e cerebrovascular, sendo que a maioria dos doentes com SAS tem hipertensão arterial (HTA). A evidência unindo estas duas entidades é tão forte que a SAS foi assumida como a primeira causa identificável e tratável de HTA.

A incapacidade resultante da sonolência diurna excessiva (SDE), em paralelo com o ressonar, a disfunção eréctil e as comorbilidades cardiovasculares presentes na doença fomentam a desintegração social e familiar, sendo a depressão comum.

Os indivíduos com SAS têm maior risco de desenvolver arritmias e doença coronária. A SAS relaciona-se, ainda, com o desenvolvimento da diabetes mellitus e o desencadeamento de acidentes vasculares cerebrais (AVC).

Em suma, a SAS contribui decisivamente para a principal causa de mortalidade em Portugal: a doença cardio e cerebrovascular. Como já se disse, a SDE é uma das manifestações cardinais da doença. Tem impacto na mortalidade e condiciona o desempenho profissional. A SAS tem, por isso, custos indiretos em saúde elevados.

No que respeita, concretamente, à síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS), qual a prevalência em Portugal?

Precisamos de um grande estudo epidemiológico em Portugal. Para já, tudo indica que temos valores semelhantes aos europeus (Heinzer, HypnoLaus 2015), quiçá um pouco mais elevados devido a maior prevalência de obesidade em Portugal.

Há forma de prevenir esta patologia?

Prevenir a obesidade e tratar as deformações maxilo faciais. A identificação precoce é fundamental. O nosso centro colabora com o Centro de Neurociências da Universidade de Coimbra na identificação de marcadores biológicos da doença.

Quais os tratamentos atualmente disponíveis?

Em Portugal, os geradores de pressão positiva contínua (CPAP) e os dispositivos de avanço mandibular (DAM) são os mais usados. A cirurgia ORL é fundamental como abordagem coadjuvante em todos os doentes e podes ser curativa em formas ligeiras.

Qual o impacto destes tratamentos na qualidade de vida do doente e que resultados são mais valorizados?

É difícil encontrar, em toda a Medicina, um tratamento que proporcione uma melhoria de qualidade de vida, de satisfação e reconhecimento que o CPAP, DAM e cirurgia bem conduzidas. “A minha vida mudou” é a expressão mais comum por parte dos doentes.

Em Portugal e de acordo com um estudo conduzido pela VitalAire, os doentes dão particular importância ao ressonar e à doença cardiovascular.

Há novidades terapêuticas na calha, no contexto da SAOS e de outros distúrbios do sono?

Consultando a PubMed, verificamos que o sono é uma das áreas científicas que tem maior investigação e desenvolvimento. A resposta a esta pergunta fica para uma próxima entrevista…

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