“A presença de peritos internacionais no evento atesta a qualidade da Cardiologia portuguesa”
Lino Gonçalves faz questão de reforçar a ideia de que o What´s New in ESC Guidelines 2026 é um evento multidisciplinar, no qual se conta todos os anos com a presença de peritos internacionais. Com este reconhecimento além-fronteiras da Cardiologia portuguesa, assim como do trabalho de outras especialidades na área cardiovascular, o diretor do Serviço de Cardiologia da ULS de Coimbra dá destaque, este ano, a três guidelines da Sociedade Europeia de Cardiologia: Reabilitação Cardíaca, Insuficiência Cardíaca e Doença Cardiorrenal.

“From Guideline to Clinical Practice” é o mote central do evento. Quais são os principais desafios que os profissionais de saúde enfrentam para porem em prática as recomendações clínicas mais recentes?
Tem-se tentado fortemente melhorar a implementação das guidelines mais recentes na prática clínica, para que se possa prestar os melhores cuidados aos doentes, mas não é fácil. Precisamente por ser difícil, pensou-se em organizar este simpósio internacional, no qual os líderes dos grupos de redação de três guidelines da Sociedade Europeia de Cardiologia se deslocam a Portugal para discutir as novidades com peritos portugueses. Neste diálogo interpares procura-se também perceber quais as lacunas de conhecimento que poderão ser tidas em conta nas orientações futuras.
Mais uma vez, este ano, temos a oportunidade de debater, de forma aprofundada, três guidelines: Reabilitação Cardiovascular, Insuficiência Cardíaca, uma epidemia do século XXI; e outra área, essencial, que é a doença cardiorrenal. Entre os palestrantes internacionais, voltamos a ter nomes reconhecidos internacionalmente como Matthias Wilhelm, Bernard Gersh, Günter Breithardt, Wael Jaber, Kevin Dammon, Marianna Adamo e Scott Solomon.
Vai também existir lugar para um momento especial por causa da celebração dos 20 anos do Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Coimbra de Bernard Gersh e Günter Breithardt. São duas décadas de reconhecimento da Cardiologia portuguesa?
Sem dúvida! De forma regular, todos os anos temos peritos mundiais no evento, o que muito nos orgulha. A sua presença atesta, seguramente, a qualidade da Cardiologia portuguesa, porque também se predispõem para discutir as diversas temáticas com médicos portugueses.
“… ainda há muitos doentes sem acesso à reabilitação cardíaca, apesar de vários estudos internacionais demonstrarem a sua mais-valia. É urgente alterar esta realidade e permitir que mais pessoas possam ter acesso a este tratamento”
O evento não é apenas para cardiologistas…
Não, o nosso objetivo é chegar, para além dos cardiologistas, a mais colegas de especialidades afins como de Medicina Interna, Medicina Geral e Familiar, Nefrologia, Medicina Física e Reabilitação, Endocrinologia… Esperemos que estejam disponíveis para interagir com estes peritos internacionais que vão estar presentes em Coimbra.
O trabalho do cardiologista é cada vez mais em equipa multidisciplinar. Exemplo disso é a reabilitação cardíaca. Ainda há várias lacunas nesta área em Portugal?
Sim, ainda há muitos doentes sem acesso à reabilitação cardíaca, apesar de vários estudos internacionais demonstrarem a sua mais-valia. É urgente alterar esta realidade e permitir que mais pessoas possam ter acesso a este tratamento, que é de evidência científica máxima. A taxa de sobrevida aumenta quando têm acesso à reabilitação, assim como a qualidade de vida.
“… ainda há muitos doentes sem acesso à reabilitação cardíaca, apesar de vários estudos internacionais demonstrarem a sua mais-valia. É urgente alterar esta realidade e permitir que mais pessoas possam ter acesso a este tratamento”
Mas os problemas no acesso estão mais relacionados com a falta de atenção por parte da Tutela ou há outros fatores?
É algo complexo… O trabalho multidisciplinar é obrigatório na reabilitação cardíaca e conseguir esse pressuposto não é fácil. É preciso haver profissionais e estruturas, e também incentivos. A Sociedade Portuguesa de Cardiologia emitiu, há uns anos, um documento de consenso, no qual definia os critérios para se organizar um programa de reabilitação cardíaca de qualidade – que incluía vários grupos profissionais. Os doentes mais frágeis também têm determinadas especificidades e exigem este trabalho conjunto.
Portugal tem mesmo de dar este salto: a reabilitação cardíaca deve começar ainda no internamento, devendo posteriormente haver um continuum que, na fase 3 e 4, pode ser em ambulatório em articulação com os cuidados de saúde primários. Atualmente, fala-se também da telemonitorização e telereabilitação, havendo já projetos com inteligência artificial (IA), que poderão ajudar estes doentes à distância.
Uma das principais novidades nas guidelines atuais é a ligação coração-rim, numa altura em que se alerta cada vez mais para a síndrome cardio-reno-metabólica…
Sim, daí ter falado da abordagem multidisciplinar. Esta nova guideline vai ser discutida durante a manhã de sábado com diferentes especialidades no sentido de aprendermos uns com os outros. É uma manhã inteira, não apenas 45 minutos… Também estimulamos a presença dos colegas de Medicina Geral e Familiar, porque são peça fundamental para existir um continuum de cuidados nestes casos – do centro de saúde para o hospital e vice-versa.
Maria João Garcia
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