Estratificação de risco e prescrição de exercício: estado da arte
A reabilitação cardíaca (RC) é uma intervenção clínica multidisciplinar e individualizada, na qual a estratificação de risco e a prescrição de exercício assumem um papel central. As recentes recomendações da Sociedade Europeia de Cardiologia sobre RC reforçam esta abordagem, salientando que a estratificação de risco deve permitir uma prática de exercício segura e eficaz, e não constituir uma barreira à participação.
Esta abordagem contemporânea privilegia um perfil de risco multidimensional que integra sobretudo o risco isquémico e arrítmico, a resposta hemodinâmica, a capacidade funcional, os sintomas e as comorbilidades. Este perfil deve orientar o tipo de exercício, a intensidade, o grau de supervisão e a necessidade de monitorização, em vez de determinar simplesmente se o doente pode ou não fazer exercício.
A prescrição de exercício pode ser estruturada através do modelo FITT-VP – frequência, intensidade, tempo, tipo, volume e progressão. Neste contexto, a prova de esforço cardiorrespiratória é essencial, permitindo caracterizar a resposta cardiovascular e ventilatória ao exercício e identificar os limiares ventilatórios, que devem ser utilizados para determinar a intensidade de exercício. Existem outras metodologias de prescrição da intensidade de exercício, nomeadamente baseadas na perceção subjetiva de esforço. Esta metodologia mais subjetiva é particularmente relevante em doentes sob betabloqueantes, com incompetência cronotrópica ou outras alterações da resposta da frequência cardíaca.
O treino aeróbio continua a constituir um componente fundamental da RC, mas deve ser combinado com treino de força, contribuindo para vários efeitos favoráveis como a melhoria da força, capacidade funcional e autonomia. O treino intervalado, incluindo protocolos de maior intensidade, representa uma estratégia adicional com potencial para melhorar a capacidade cardiorrespiratória, mas requer uma adequada seleção dos doentes e individualização da dose de exercício. Na insuficiência cardíaca, a prescrição deve ainda integrar o treino muscular inspiratório.
Finalmente, a monitorização e a progressão são componentes inseparáveis da prescrição de exercício. A carga deve ser aumentada de forma gradual e de acordo com a resposta clínica e fisiológica, evitando progressões abruptas. Sintomas, alterações eletrocardiográficas ou respostas hemodinâmicas anormais devem prevalecer sobre a intensidade previamente definida.
Na atualidade, a RC reflete a mudança de uma prescrição baseada em protocolos genéricos para uma prescrição de exercício mais individualizada, em que a dose, modalidade, intensidade, supervisão e progressão são determinadas pelo fenótipo, capacidade funcional, risco e objetivos de cada doente.






