Especialista em Medicina Geral e Familiar, Mestre em Evidência e Decisão em Saúde e Coordenador do Grupo de Estudos de Dor da APMGF

A Medicina como uma dança. Como posso ajudar?

Pois passado e futuro aí se enlaçam. Nem ida nem vinda,

Nem ascensão nem queda. Exceto por este ponto, o imóvel ponto,

Não haveria dança, e tudo é apenas dança.

 

T.S. Eliot

 

Celebrou-se a 19 de maio o Dia Mundial do Médico de Família. Depois de um ano especialmente desafiante para todos nós, vale a pena pensar naquela que é a área de saber médico mais abrangente e, talvez, menos compreendida na sua plenitude. Talvez valha também a pena refletir qual o caminho para o médico de família. O que somos, mas, acima de tudo, o que vamos ser daqui a 10 anos.

Curiosamente, maio foi também o mês em que li mais sobre uma frase, tornada célebre por uma das séries do momento: How can I help you?

Este é o mote do protagonista da série New Amsterdam, um médico que dirige um hospital e que faz esta pergunta aos membros da sua equipa, assumindo um estilo de liderança muito claro. E, naturalmente, esta mensagem passa para o cuidado aos doentes, para o cuidado às pessoas, a cada pessoa na sua individualidade.

É curioso como uma pergunta tão simples – “Como posso ajudar?” – causa tanto impacto no pensamento coletivo de uma sociedade, sendo referida em múltiplos artigos como diferenciadora, disruptiva e como um exemplo de liderança.

Hoje não escreverei sobre como a tecnologia irá mudar a face da medicina e muito especialmente da medicina de proximidade como a que o médico de família exerce. Porque esta mudança depende mais de outros do que de nós, médicos de família.

Hoje pergunto se, daqui a 10 anos, quereremos começar as nossas consultas a perguntar como podemos ajudar. Aquele indivíduo, aquela pessoa. Se teremos tempo para isso e não para triar uma quantidade quase infinita de ferramentas tecnológicas, de dados e de métricas.

Pergunto se o papel do médico de família não será, em 10 anos, o de ser líder de todos os aspetos da saúde da pessoa, daquela pessoa, que se senta e se sente à nossa frente. Um líder com tempo para ver para além das métricas e da tecnologia.

Um líder na comunicação, na empatia e nas ferramentas que tem ao seu dispor para transformar a vida de quem o procura e que precisa de ajuda. Que enlaça passado e futuro num único ponto.

Sem dúvida, o desafio para a medicina familiar, será de humanização, de tempo, de colocar a tecnologia, a inteligência artificial, a ciência, ao serviço de cada pessoa, ajudando a tornar cada vida ainda mais valiosa.

A medicina, e mais ainda a medicina familiar, é uma dança. Um bailado contemporâneo que exige precisão rítmica na abordagem dos problemas, que é cinemático nas mudanças erráticas de direção enquanto se procura a melhor solução para cada pessoa.

Mas que mantém a beleza, a consistência, a fluidez. E que faz desta profissão muito mais do que uma profissão. Que a torna a mais bela dança.

 

Como posso ajudar?

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