A importância da Evidência de Mundo Real na Doença Renal Crónica em Portugal
A doença renal crónica (DRC) constitui um dos maiores desafios de saúde pública da atualidade. Silenciosa, progressiva e frequentemente subdiagnosticada, estima-se que possa atingir cerca de 10% da população adulta. Estima-se também que, em pouco mais de uma década (2040), venha a ser a 5ª principal causa de morte global. Estima-se.
Com lugar de destaque no ranking europeu da prevalência da DRC terminal, em Portugal, existe uma enorme necessidade em conhecer e compreender a DRC. O nosso país precisa de informação sobre epidemiologia da doença, os percursos assistenciais, os resultados clínicos e a utilização dos recursos de saúde. A um nível mais profundo, é escassa ou inexistente a evidência nacional sobre taxas e ritmos de progressão da DRC, implementação das recomendações diagnósticas, de monitorização e terapêuticas, adesão aos tratamentos nefroprotetores, disparidades regionais no acesso aos cuidados especializados e impacto da doença na qualidade de vida dos doentes.
Para este propósito, os ensaios clínicos dão uma resposta rigorosa, mas incompleta. Apesar de fundamentais para demonstrar eficácia e segurança de moléculas ou outras intervenções, frequentemente envolvem populações selecionadas e contextos controlados que não espelham consistentemente a realidade das pessoas com doença e o(s) sistema(s) de saúde onde estão inseridos.
É aqui que Evidência de Mundo Real assume um papel de relevo. É o tipo de estudos que pode servir diferentes objetivos: contextualizar o valor demonstrado nos ensaios clínicos à prática clínica quotidiana, incluindo a população real e a sua diversidade, e, indo mais além, procurar respostas a questões ligadas aos percursos assistenciais e cuidados prestados, e não apenas avaliar o impacto de uma medida singular sobre os resultados na população estudada.
Mesmo após a definição de linhas orientadoras daquele que deve ser o percurso da pessoa com doença renal crónica pela Direção Geral da Saúde, sabemos estar longe da sua efetiva implementação na prática clínica.
Quando os sistemas de saúde enfrentam crescentes desafios demográficos e económicos, não basta ser eficaz, é necessário ser eficiente. O Projeto HÉRCULES é colocado ao serviço deste propósito; ao integrar um estudo populacional nacional de prevalência da DRC e um estudo retrospetivo focado no percurso dos doentes com condições cardiovasculares, renais e metabólicas, a iniciativa procura gerar evidência robusta e representativa da realidade portuguesa.
É conhecimento com potencial de acelerar a transformação dos cuidados de saúde centrados no doente: ao captar resultados clínicos e percursos assistenciais reais, permite avaliar o impacto das intervenções, para além dos indicadores tradicionais, identificando oportunidades para investir em estratégias preventivas, atrasar a progressão para estadios avançados da doença e graus de maior morbilidade, que culminarão em melhoria da qualidade de vida das pessoas com DRC e otimização dos sistemas de saúde.
Apesar da abrangência e robustez deste projeto, ficam questões por responder, nomeadamente relacionadas com a prevalência e trajeto das pessoas com etiologias menos prevalentes da DRC, como as glomerulopatias primárias, ou populações específicas, como a pediátrica, às quais outros estudos de mundo real poderão trazer respostas.
Os estudos de mundo real, como o projeto HÉRCULES, representam uma ferramenta essencial para transformar dados em conhecimento, conhecimento em ação e ação em melhores resultados para os doentes renais portugueses, de forma sustentável para o sistema e profissionais de saúde.
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