Até sempre, minha querida APMGF!
Membro da Direção da APMGF
2 Nov, 2026

Até sempre, minha querida APMGF!

O encerramento de um capítulo: uma década de enamoramento, uma casa para sempre.

“Ninguém sai donde tem paz”, diz a música de Pedro Abrunhosa.

Será?

Ou será que, por vezes, podemos escolher sair precisamente de onde encontramos paz? De forma consciente, voluntária e ponderada. Será loucura? Necessidade? Cansaço? Ou, quem sabe, um imperativo de consciência?

Há uma década, iniciei a minha colaboração com a Direção Nacional da APMGF, ainda antes de a integrar formalmente. Este ano, decidi que chegara o momento de me afastar desta ligação tão próxima. Talvez por um pouco de todas as razões anteriores. Mas nunca, em momento algum, por ter deixado de acreditar neste projeto, na sua missão ou na importância que tem para a nossa especialidade.

Fazer parte da Direção Nacional da APMGF foi muito mais do que assumir responsabilidades associativas. Foi um percurso de aprendizagem, crescimento e transformação, que moldou profundamente a médica que sou e a forma como olho para a Medicina Geral e Familiar. Permitiu-me compreender melhor a nossa especialidade, conhecer os diferentes intervenientes que gravitam em torno do Serviço Nacional de Saúde, perceber a complexidade das relações institucionais e reconhecer tanto a força da nossa voz coletiva como os limites da nossa capacidade de intervenção. Deu-me uma visão mais abrangente, por vezes crua, mas seguramente mais realista, dos desafios que enfrentamos e das possibilidades que temos para fazer a diferença.

Mas a APMGF não me transformou apenas enquanto médica. Transformou-me também enquanto pessoa. Porque quando partilhamos projetos e desafios com pessoas de diferentes regiões do país e de diferentes realidades internacionais, inevitavelmente mudamos. Alargamos horizontes e aprendemos a olhar para a realidade através de outras perspetivas. Tornamo-nos mais atentos, mais tolerantes e mais inclusivos.

A decisão de deixar de ter uma participação tão ativa, embora inevitavelmente acompanhada de emoção, foi sobretudo uma decisão ponderada, assente na convicção de que não devemos permanecer indefinidamente nas mesmas funções, por mais confortáveis, especiais e nossas que elas se tenham tornado. Porque as instituições são maiores do que as pessoas que, em determinado momento, as representam. Porque renovar também é cuidar. E porque acredito que devemos dar a outros a oportunidade de viver aquilo que tivemos o privilégio de experimentar e de fazer também da APMGF a sua casa.

O passado é eterno. E que enorme alegria é poder contar com essa eternidade! Poder levar sempre comigo tudo o que a Direção da APMGF me proporcionou: as amizades, os ensinamentos, os desafios e até os momentos mais difíceis, porque também esses nos fazem crescer e dão sentido ao caminho percorrido.

Este é o encerramento de um capítulo, mas não o fim de uma história. Que venham muitos outros a escrever as próximas páginas deste livro coletivo, acrescentando-lhe novas vozes, novas ideias e novos capítulos, à altura de uma história tão rica.

Na certeza de que a APMGF foi, é e continuará a ser casa. Uma casa que não pertence apenas a quem a dirige, mas a todos os Médicos de Família, e cujas portas estarão sempre abertas para nos acolher. Quanto a mim, continuarei a acompanhar esta história com o mesmo carinho e sentido de pertença.

Até sempre, minha querida APMGF!

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