«Se calhar não é nada, mas…»
Diretora Clínica da Fundação do Bom Sucesso

Gostava muito que os pais se sentissem à vontade para terminar esta frase. Na consulta ou numa reunião com a professora. Pode ser uma criança que parece não ouvir quando a chamam. Que fala pouco e se irrita quando os irmãos não a percebem: que deixou de querer participar nas brincadeiras, anda mais calada, começou a dizer que não gosta da escola. Nenhuma destas situações permite, por si só, concluir que existe um problema. Mas todas merecem espaço numa conversa.
Os pais conhecem os filhos nos pequenos pormenores. Sabem como brincam quando estão à vontade, como pedem ajuda, como reagem quando estão cansados. Por vezes, percebem uma diferença antes de conseguirem dar-lhe um nome. O “feeling dos pais” existe e é validado pela ciência, que mostra que considerar as preocupações dos pais, juntamente com os instrumentos de rastreio, ajuda a identificar dificuldades do desenvolvimento. Por isso, quando alguma coisa inquieta uma família, a resposta não deveria ficar pelo “não se preocupe”. É preciso perceber o que observaram, desde quando e em que situações. E, se decidirmos acompanhar a evolução, devemos combinar quando voltamos a avaliar.
O mesmo se aplica às preocupações que chegam da escola. Ouvir que o nosso filho está com dificuldades pode custar. Até porque, muitas vezes, já sentimos o tal “feeling” e tentámos ignorá-lo. É compreensível que a primeira reação seja explicar que em casa não acontece, que sempre foi assim ou que nós também éramos iguais. Mas uma observação diferente da nossa pode acrescentar informação importante.
A criança que conversa muito em casa pode ter dificuldade em fazer-se entender no grupo; a que parece acompanhar tudo numa conversa a dois pode perder-se numa sala com ruído. Desde o berçário, educadores e auxiliares acolhem, consolam, acompanham conquistas, mudanças e dificuldades. As relações estáveis e atentas que constroem com as crianças podem ajudar a orientar os pais sobre autonomia, rotinas, limites, brincadeiras ou formas de estimular.
A escola conhece uma parte da criança que a família nem sempre vê. A família conhece uma parte que a escola também precisa de conhecer. Para podermos aproveitar esta sinergia, precisamos de abertura dos dois lados. Os pais devem poder colocar dúvidas sem receio de parecer excessivamente preocupados. E os profissionais de saúde e de educação devem poder partilhar observações sem que isso seja entendido como uma crítica à criança ou à educação que recebe. Uma meta-análise que reuniu 117 estudos encontrou benefícios nas intervenções feitas em parceria entre famílias e escolas, na aquisição de competências sociais e comportamentais e na saúde mental das crianças. Há, portanto, boas razões para investir numa relação que não se limite à reunião de avaliação anual, ou ao telefonema quando alguma coisa corre mal.
E há observações que precisam de chegar aos profissionais de saúde. Perante dificuldades na linguagem, por exemplo, importa considerar a audição. Estudos em crianças com perda auditiva associam a identificação e a intervenção precoces a melhores resultados linguístico. As causas são diversas e podem coexistir várias necessidades. Precisamos de compreender cada situação e de manter os apoios educativos necessários enquanto a avaliação decorre.
É nesta articulação que se inscreve o modelo da Fundação Bom Sucesso, com 75 anos de experiência na promoção da saúde infantil. Reúne equipas multidisciplinares, 17 especialidades, rastreios e avaliações precoces, em contacto próximo com pais, escolas e cuidadores. Um exemplo de acompanhamento que procura compreender a criança no seu todo. Enquanto médica de família e mãe de duas crianças saudáveis, que frequentam escolas onde a presença e a participação dos pais são permitidas e incentivadas, sei que escrevo de um lugar de privilégio.
Mas gostava muito que esta fosse a realidade de todas as famílias, e que nenhuma precisasse de insistir várias vezes para ser escutada. Até lá, e porque temos ainda um longo caminho a percorrer, pais: se alguma coisa vos preocupa, falem. E se um profissional de educação ou de saúde partilhar uma preocupação convosco, escutem. Podemos não chegar a um diagnóstico, mas essa conversa pode ajudar-nos a compreender melhor a criança e aquilo de que precisa. Os adultos também têm de se esforçar e aprender a comunicar uns com os outros. As crianças merecem este esforço conjunto.
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