Medir para prevenir: a importância de integrar a avaliação renal na prática clínica diária da Medicina Geral e Familiar (MGF)
Médico Assistente de Medicina Geral e Familiar, USF Marco | ULS Tâmega e Sousa; Coordenador do Grupo de Estudos de Doenças Cardiovasculares (GEsDCard) da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
29 Out, 2026

Medir para prevenir: a importância de integrar a avaliação renal na prática clínica diária da Medicina Geral e Familiar (MGF)

Ao contrário do que acontece com a aferição da pressão arterial, glicemia, índice de massa corporal e perfil lipídico, que são quase como que um gesto automático na apreciação dos doentes cardio-reno-metabólicos, a avaliação renal é, frequentemente, esquecida e subvalorizada.

Tal facto justifica e contribui para o elevado subdiagnóstico associado à Doença Renal Crónica (DRC), que é, porém, uma patologia altamente prevalente em Portugal (~20% da população adulta nos estádios 1 a 51 e ~9,8% nos estádios G3a/A1 ou superiores2).

Além de prevalente, é uma entidade e fator de risco independente para doença cardiovascular e que, invariavelmente, se associa a maior morbimortalidade. De todos os fatores etiológicos, a diabetes e a hipertensão arterial são os mais comuns, pelo que, pelo menos nestes doentes, mas não só (doentes com obesidade, alto risco cardiovascular, abuso de nefrotóxicos…), o rastreio sistemático e com periodicidade, pelo menos, anual é fundamental – até porque a progressão para doença renal terminal pode ser retardada.

Duas medições, uma estratificação

O rastreio desta entidade assenta em 2 testes simples e de fácil acesso: a taxa de filtração glomerular estimada (TFGe), de preferência aferida pela equação CKD-EPI, e o rácio albumina/creatinina urinária (RACu), idealmente na primeira urina da manhã. A TFGe avalia a função; o RACu revela lesão renal; e alterações num deles (e basta num), desde que mantidas por um período temporal de 3 ou mais meses, são suficientes para diagnóstico.

Além de serem ambos úteis no diagnóstico, são também fatores independentes de prognóstico e risco. A título de exemplo, um doente com uma TFGe de 89ml/min/1.73m2 e um RACu de 300mg/g tem o mesmo risco que um doente com uma TFGe de 30ml/min/1.73m2 e um RACu de 10 mg/g.

E se é verdade que os clínicos já apresentam alguma sensibilidade para diagnosticar DRC quando temos valores de TFGe mais baixos, é fundamental que os mesmos reconheçam alterações no RACu como diagnóstico e marcador de independente de prognóstico – até porque, particularmente nos doentes com diabetes, este é um marcador mais precoce de DRC.

Da informação à decisão

O repto, porém, não fica por aqui. Efetivamente, o desafio já não é só identificar quem está em risco, mas garantir decisões e intervenções efetivas, consistentes e atempadas, particularmente nos Cuidados de Saúde Primários (CSP) – até porque todas as terapêuticas modificadoras de prognóstico estão disponíveis em ambulatório e, quanto mais precocemente forem introduzidas, maior o seu impacto.

Prova disso são dados de uma revisão sistemática que demostra que a implementação das terapêuticas modificadoras de prognóstico continua subótima em muitos doentes elegíveis, defendendo justamente uma melhor integração de cuidados e apoio à decisão clínica3.

Felizmente temos já dados de um outro estudo-piloto, realizado no contexto dos CSP em Espanha, que usando um sistema de apoio à decisão que cruzou resultados laboratoriais prévios, registos clínicos e critérios das guidelines detetou casos de DRC não reconhecidos e permitiu iniciar ou otimizar terapêutica em 90% dos doentes identificados4.

Estes resultados demonstram bem a importância e viabilidade da integração da avaliação renal na prática clínica diária e utilização da informação clínica para apoiar uma abordagem mais preventiva à DRC.

À medida que iniciativas como o Projeto HÉRCULES contribuem para aprofundar o conhecimento sobre a DRC em Portugal, continua a ser na consulta do dia-a-dia que se criam muitas das oportunidades para identificar o risco, agir mais cedo e proteger melhor os nossos doentes.

 

Referências

  1. Vinhas J, Aires I, Batista Cet al. RENA study: cross-sectional study to evaluate CKD prevalence in Portugal. Nephron 2020;144:479–87. https://doi.org/10.1159/000508678
  2. Santos-Araújo C, Mendonça L, Carvalho DS, Bernardo F, Pardal M, Couceiro J, et al. 20 years of real-world data to estimate chronic kidney disease prevalence and staging in an unselected population. Clin Kidney J. 2022;16:111-24
  3. Taylor DM, et al. Complex Interventions Across Primary and Secondary Care to Optimize Population Kidney Health. Clin J Am Soc Nephrol. 2023;18(5):563-572.
  4. López-Garrigós M, et al. A Pilot Study of Opportunistic Chronic Kidney Disease Screening in Primary Care Using a Clinical Decision Support System. Diagnostics (Basel). 2025;16(1):8

 

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