Porque continuamos a investir mais na diálise do que no diagnóstico precoce?
A diálise é uma das grandes conquistas da Medicina moderna e continua a ser indispensável para milhares de pessoas com doença renal avançada. Ainda assim, quando um doente inicia este tratamento, já percorreu, na maioria dos casos, um longo caminho de doença. Mais do que questionar os recursos destinados à diálise, importa refletir sobre a atenção que dedicamos às etapas anteriores, em que ainda é possível modificar o curso da doença renal crónica (DRC).
A DRC evolui frequentemente de forma silenciosa, embora as suas consequências ultrapassem largamente a perda de função renal. À medida que progride, aumenta o risco cardiovascular, a probabilidade de hospitalização e a perda de autonomia, com repercussões na vida profissional, familiar e social. Mesmo após o início de diálise, os desafios persistem, desde a gestão da volémia às complicações cardiovasculares, pelo que preservar a função renal residual e adaptar os cuidados à situação de cada pessoa continua a ser importante.
Felizmente, dispomos hoje de opções terapêuticas capazes de atrasar a progressão da DRC e reduzir as complicações, mas só conseguimos tirar pleno partido delas se identificarmos os doentes atempadamente. A determinação da taxa de filtração glomerular estimada e do rácio albumina/creatinina na urina, particularmente em pessoas com diabetes, hipertensão ou doença cardiovascular, oferece-nos uma forma simples de detetar doença e estratificar o risco. Para que esta avaliação tenha consequências práticas, é necessária uma articulação efetiva entre os cuidados de saúde primários e as várias especialidades envolvidas.
Também a referenciação à Nefrologia deve ocorrer numa fase em que ainda existe margem para compreender a trajetória da doença, ajustar o tratamento e discutir opções com o doente. Quando a diálise ou o transplante se tornam necessários, uma preparação atempada permite decisões mais esclarecidas e ajustadas às preferências individuais. O objetivo não é evitar a diálise a qualquer custo, mas procurar que cada pessoa chegue a essa etapa nas melhores condições possíveis.
Neste contexto, o projeto HÉRCULES representa uma oportunidade relevante para conhecermos melhor a realidade da DRC em Portugal. Ao procurar estimar a prevalência da doença na população adulta e compreender o percurso assistencial das pessoas com condições cardio-reno-metabólicas, poderá ajudar a identificar necessidades ainda pouco visíveis e eventuais falhas na deteção e no acompanhamento. Conhecer quantas pessoas vivem com DRC, em que fases se encontram e como acedem aos cuidados é essencial para planear respostas adequadas. Os resultados poderão, assim, apoiar estratégias de diagnóstico precoce e uma melhor articulação entre serviços, embora seja necessário aguardar pelas conclusões do projeto antes de definir medidas concretas.
O diagnóstico precoce e o tratamento da doença avançada não são prioridades concorrentes. São partes do mesmo percurso de cuidados, cujo sucesso deve ser medido não apenas pela capacidade de oferecer diálise ou transplante, mas também pelos anos de função renal preservada, pelas complicações evitadas e pela qualidade de vida dos doentes.






