Nem azar, nem uma coisa da idade: uma fratura óssea pode ser osteoporose e mudar uma vida inteira
A osteoporose é responsável por quase 200 fraturas de fragilidade diárias em Portugal, algumas das quais, como a da anca, associadas a 30% de mortalidade no primeiro ano. A Tecnimede lançou uma campanha de alerta para uma “doença que continua pouco visível”.

“Foi azar. Foi só uma queda. É da idade.” Quantas vezes estas não são explicações usadas para justificar uma fratura óssea? E quantas vezes também essa mesma fratura, que muitos têm tendência a justificar como acaso, não muda a vida por completo? “Uma fratura de fragilidade não é necessariamente um episódio isolado do qual se recupera e volta à vida anterior. Pode significar dor persistente, perda de mobilidade, perda de autonomia, necessidade de ajuda de terceiros e, nas fraturas mais graves, aumento do risco de mortalidade – 30% no primeiro ano, no caso da fratura da anca”, refere Tiago Meirinhos, reumatologista.
Filipe Cabral, médico de Medicina Geral e Familiar, acrescenta: “este é um valor superior ao da mortalidade por enfarte e vários tipos de cancros. Logo, é fundamental travar esta doença que afeta milhares de pessoas e que continua, infelizmente, a ser subdiagnosticada e subtratada. “
Na realidade, uma fratura pode ser o primeiro sinal de osteoporose e partir um osso pode mudar a vida inteira. Este é o mote de uma campanha nacional, lançada pela Tecnimede no âmbito do Dia Mundial da Osteoporose (20 de outubro), que pretende dar visibilidade a um problema de saúde que pode ser grave. “A osteoporose é frequentemente uma doença silenciosa até ocorrer a primeira fratura”, explica Tiago Meirinhos, que confirma que, por cá, não é um caso isolado. “Em Portugal, estima-se que ocorram cerca de 70 mil fraturas de fragilidade por ano, quase 200 por dia, e espera-se que este número aumente substancialmente nas próximas décadas. Neste contexto, há um conceito que considero fundamental: uma primeira fratura deve ser encarada como um sinal de alarme”.
Isto significa, para quem já teve uma fratura de fragilidade, um “maior risco de voltar a fraturar, particularmente nos primeiros anos. Portanto, uma fratura não deve ser vista apenas como um problema que termina quando o osso consolida; deve desencadear uma avaliação do risco de osteoporose e medidas para evitar a próxima fratura”, acrescenta.
O desafio da adesão
São vários os desafios associados à osteoporose. Um dos maiores, segundo Tiago Meirinhos, é o tratamento. “Temos tratamentos capazes de reduzir significativamente o risco de fratura, mas esse benefício só existe se o diagnóstico for feito, se o tratamento for iniciado e se o doente o mantiver durante o período adequado.”
Filipe Cabral confirma que “não só não estamos a diagnosticar a osteoporose, como estamos a tratar apenas uma ínfima parte dos doentes que dela padecem. O treatment gap, isto é, a diferença entre o número de pessoas que têm indicações para receber tratamento e o número de pessoas que efetivamente recebem esse tratamento, tem vindo a aumentar, posicionando-se nos 75% no caso do sexo feminino. O que é que isto significa? Que, em Portugal, já com diagnóstico e com indicações para receberem o tratamento, só uma em cada quatro mulheres o recebe de facto”.
A baixa adesão é uma realidade. “O fármaco mais prescrito em Portugal tem uma adesão, ao final de dois anos, de essencialmente 5%. Ou seja, só uma em cada 20 pessoas ao final de dois anos está a aderir à terapêutica”, refere Filipe Cabral.
Algo que, segundo Tiago Meirinhos, tem várias razões: “a osteoporose é normalmente assintomática entre fraturas, pelo que é difícil manter durante anos um medicamento para uma doença que a pessoa não ‘sente’. Algumas pessoas têm também receio dos efeitos adversos e, por vezes, esse receio é desproporcionado relativamente ao risco real de uma fratura”.
Para mudar este cenário, o reumatologista identifica três pilares de comunicação e gestão da relação médico/doente que considera essenciais: “explicar, simplificar e acompanhar. O doente deve perceber porque está a ser tratado e qual é o seu risco; o esquema terapêutico deve, sempre que possível, ser compatível com a sua vida; e deve existir acompanhamento para verificar se o medicamento está a ser tomado corretamente, se é tolerado e se continua a ser a opção adequada. A decisão deve ser partilhada: quando o doente compreende que o objetivo não é apenas ‘melhorar uma densitometria’, mas evitar uma fratura que pode comprometer a sua independência, a perceção do valor do tratamento muda”.
É necessário, acrescenta, “uma verdadeira rede de prevenção de fraturas” e, aqui, o médico de família está numa posição privilegiada. Filipe Cabral concorda: “o médico de família tem um papel central, porque é efetivamente a porta de entrada de muitos dos doentes nos cuidados de saúde, particularmente no Sistema Nacional de Saúde, e é o profissional que acompanha a pessoa em todas as fases da sua vida. Está, por isso, numa melhor posição para identificar precocemente as pessoas que apresentam um maior risco de osteoporose e também um maior risco de fraturas”.
“O reumatologista e outras especialidades com experiência em metabolismo ósseo são particularmente importantes quando existe doença grave ou secundária, fraturas recorrentes, dúvida diagnóstica, necessidade de terapêuticas mais específicas ou decisões complexas de sequenciação”, acrescenta Tiago Meirinhos. O importante é “garantir que o doente não ‘desaparece’ depois de tratar a fratura”.
Como reduzir o risco de osteoporose?
“É possível reduzir significativamente o risco de osteoporose”, assegura Tiago Meirinhos. Embora nada se possa fazer em relação a alguns fatores, como a idade, menopausa e genética, que não são modificáveis, “a saúde óssea começa a construir-se muito cedo. É importante atingir um bom pico de massa óssea na infância e juventude e depois procurar preservá-lo ao longo da vida. Os pilares são relativamente simples: atividade física regular, alimentação adequada, aporte alimentar de cálcio suficiente, vitamina D adequada, evitar tabaco e consumo excessivo de álcool e prevenir quedas”.
“O médico de família pode conhecer as situações que justificam, por um lado, uma intervenção preventiva, mas por outro lado também identificar pessoas com maior risco através de uma calculadora, o FRAX, que avalia a probabilidade de fraturas osteoporótica a 10 anos. Deve ser usada a partir dos 40 anos de idade, anualmente e se usarmos esta ferramenta de uma forma sistemática, ou seja, como se fosse um rastreio, vamos efetivamente identificar muitas pessoas com indicação para o tratamento e, subsequentemente, reduzir de forma substancial o risco de fraturas e morbimortalidade”, afirma Filipe Cabral.
Tiago Meirinhos chama a atenção para a prática de exercício. “O osso responde à carga mecânica, por isso, atividades com impacto adequado e treino de força são importantes. Em pessoas mais idosas, trabalhar o equilíbrio e força muscular é igualmente fundamental porque reduz o risco de quedas — e, sem quedas, muitas fraturas não aconteceriam. Também devemos identificar precocemente pessoas com fatores de risco particulares. Por isso, e na minha opinião, mais do que começar a pensar nos ossos aos 70 anos, deveríamos pensar em saúde óssea ao longo de toda a vida”.
E reforçar a informação, porque há três coisas que os portugueses não sabem e deviam saber sobre a osteoporose: “primeiro, osteoporose não é uma consequência inevitável do envelhecimento. Pode ser diagnosticada e tratada; segundo, uma fratura após uma queda da própria altura não deve ser considerada simplesmente “azar”. Em determinadas idades e localizações, pode ser o primeiro sinal de fragilidade óssea e deve levar à avaliação do risco de osteoporose; terceiro, gostaria que as pessoas percebessem que a primeira fratura pode ser a oportunidade de prevenir a segunda. Não devemos esperar que ocorram várias fraturas para reconhecer que existe um problema”.
SO/COMUNICADO












