Desnutrição associada à doença afeta cerca de 115 mil pessoas em Portugal
Cerca de 115 mil pessoas em Portugal poderão sofrer de desnutrição associada à doença, mas apenas 31% dos doentes hospitalizados são rastreados. O alerta é da Associação Nacional da Indústria de Alimentação Infantil e Nutrição Entérica e Parentérica, que defende o reforço do diagnóstico precoce e um maior acesso às terapêuticas nutricionais.

A desnutrição associada à doença poderá afetar aproximadamente 1% da população portuguesa, o equivalente a cerca de 115 mil pessoas, segundo estimativas divulgadas pela Associação Nacional da Indústria de Alimentação Infantil e Nutrição Entérica e Parentérica (ANID), que alerta para a necessidade de melhorar o rastreio e o acesso à nutrição clínica.
Em declarações à agência Lusa, o secretário-geral da associação, Pedro Queiroz, revelou que apenas 31% dos doentes internados nos hospitais são submetidos a rastreios de desnutrição associada à doença, uma percentagem que considera insuficiente para identificar atempadamente as necessidades de intervenção nutricional.
“O que nós entendemos é que o primeiro grande passo é aumentar os rastreios para, efetivamente, identificar a necessidade e depois melhorar a acessibilidade” à nutrição clínica, afirmou, sublinhando a importância de realizar esta avaliação em contexto hospitalar, de modo a permitir uma intervenção imediata.
A associação recorda que a nutrição clínica constitui uma componente essencial do tratamento de diversas patologias, nomeadamente doenças inflamatórias intestinais, oncológicas e neurológicas, insuficiências orgânicas e situações de recuperação pós-cirúrgica.
Uma intervenção nutricional adequada pode contribuir para reduzir complicações, encurtar o tempo de internamento, melhorar o prognóstico e a qualidade de vida dos doentes, além de prevenir mortes evitáveis.
Estas questões estarão em destaque no Fórum Nacional da Nutrição Clínica, que decorre esta terça-feira, 13 de outubro, em Lisboa. O encontro reúne especialistas, decisores públicos, profissionais de saúde, representantes dos doentes e entidades reguladoras para analisar o impacto do novo regime de comparticipação da nutrição entérica e os obstáculos que persistem no acesso às terapêuticas nutricionais.
Associação defende alargamento da comparticipação aos suplementos nutricionais orais
Desde o início de 2026, os doentes que necessitam de suporte nutricional através de nutrição entérica beneficiam de uma comparticipação do Estado de 69%, percentagem que deverá aumentar para 90% em 2027.
Pedro Queiroz considera que a medida representa um avanço importante no acesso a estas terapêuticas, embora defenda que o regime de comparticipação deve ser alargado aos suplementos nutricionais orais.
“Este primeiro passo de comparticipação que o Governo português deu nós naturalmente consideramos bastante positivo”, afirmou, alertando, contudo, para a necessidade de prosseguir com novas medidas.
Segundo o responsável, a portaria que estabelece o regime de comparticipação da nutrição entérica já contempla a futura inclusão dos suplementos nutricionais orais, inicialmente com uma comparticipação de 15%. No entanto, ainda não existe uma data definida para a entrada em vigor desta medida.
Para a ANID, embora represente um passo relevante em matéria de política de saúde, uma comparticipação de 15% dificilmente será suficiente para assegurar o acesso efetivo dos doentes que necessitam destes produtos.
A associação defende, por isso, uma evolução gradual da comparticipação dos suplementos nutricionais orais, até atingir os 90% previstos para a nutrição entérica, método de alimentação clínica administrado por via oral ou por sonda para suprir as necessidades nutricionais dos doentes.
Continuidade dos cuidados após a alta hospitalar preocupa associação
Outro dos desafios identificados pela ANID prende-se com a continuidade do suporte nutricional após a alta hospitalar, particularmente entre os doentes que regressam ao domicílio e continuam a necessitar de terapêuticas específicas.
A associação chama a atenção para a vulnerabilidade destas pessoas, muitas das quais apresentam doenças crónicas, fragilidade clínica, incapacidade funcional ou situações pediátricas complexas, e sublinha que os tratamentos nutricionais não devem ser interrompidos na transição para casa.
Neste contexto, Pedro Queiroz considera indispensável assegurar uma articulação eficaz entre os profissionais de saúde e os serviços envolvidos no acompanhamento dos doentes, bem como garantir o acesso aos produtos nutricionais prescritos.
“A transição do hospital para o domicílio exige coordenação entre equipas, planos nutricionais claros, formação para cuidadores, monitorização regular e acesso garantido aos produtos prescritos. Quando estes elementos falham, o doente fica desprotegido num momento particularmente vulnerável”, alertou.
Para a ANID, o reforço do rastreio hospitalar, a melhoria das condições de comparticipação e a garantia da continuidade dos cuidados são prioridades para assegurar uma resposta adequada às necessidades das pessoas com desnutrição associada à doença.
LUSA/SO
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