
Assistente Graduado Sénior (reformado em exercício); Mestre em Comunicação em Saúde pela Universidade Aberta; Doutorado em Clínica Geral pela Faculdade de Ciências Médicas / NOVA Medical School da Universidade Nova de Lisboa
O Labirinto dos Cliques: Quem é o Verdadeiro Cliente do Médico de Família?
Estou a iniciar o meu dia de trabalho. Olho para a agenda eletrónica. O primeiro utente está “amarelado”, sinal de que já está presente. Antes de o chamar, abro o processo clínico para perceber quem vem aí, o que tem para fazer e até colocar uma hipótese sobre o que o traz. Preparo-me para o chamar, mas o ecrã impõe a primeira barreira: para acionar a chamada eletrónica na sala de espera, o sistema exige que eu feche o processo que acabei de abrir.
Fecho o processo. Clico na aplicação de chamada. Clico para chamar o utente. Fecho a aplicação de chamada. E, num golpe de malvadez burocrática, o S. Clínico encerrou. Sou obrigado a reiniciar o programa: digito o nome de utilizador, insiro a palavra-passe e contemplo, depois de cada clique, a roda a girar no ecrã, esperando que o sistema decida devolver-me a agenda.
Quando finalmente consigo recuperar a agenda e, depois de fazer mais um clique, reabro o processo, o doente já está à minha porta, desorientado, à minha procura. Perdi a oportunidade de o ir receber no corredor, de o olhar nos olhos desde o primeiro instante e de ver como se move. Toda a gente sabe o quão crucial é uma primeira impressão no estabelecimento da aliança terapêutica; e o meu sistema informático acabou de a arruinar. Dispenso-me de descrever a odisseia diária que se arrasta ao longo do resto da consulta para requisitar exames complementares de diagnóstico, emitir receitas e para atualizar a medicação prolongada, nem tenho palavras para expressar o desespero.
Este labirinto de cliques não é um mero erro de programação; é um sintoma do desvirtuamento e desvalorização do ato clínico. Revela como a estrutura e a tutela pensam, na sua génese, sobre o que deve ser uma consulta médica. Ao desenhar um sistema que impede o clínico de consultar o processo antes de ter o doente à sua frente, a administração assume que o estudo prévio da história de vida do utente é um desperdício de tempo. É uma visão profundamente estranha e redutora. Exige-se do médico um diagnóstico holístico e humanizado, mas o instrumento de trabalho foi desenhado com a lógica de uma linha de montagem fabril, onde o pensamento prévio é invisível e, por isso, burocraticamente ignorado.
A clínica transformou-se numa fábrica de atos médicos e não-médicos. O médico de família contemporâneo, soterrado em burocracia, tornou-se o exemplo perfeito daquilo a que o sociólogo Hartmut Rosa chama de “alienação do mundo” [1]. Ele executa tarefas sem parar, transforma-se num “aparente dinâmico”, mas perdeu a ressonância: a ligação autêntica, recíproca e transformadora com o doente, com o seu trabalho e com as coisas [1].
A aceleração imposta pela contratualização e pelos sistemas informáticos obriga o médico a uma verdadeira hipercinesia burocrática [2]. É o preenchimento obsessivo de grelhas, a validação de baixas, relatórios para tudo e mais alguma coisa, o clique cego no parâmetro certo. Como bem nota Hartmut Rosa, a aceleração tecnológica e social prometeu-nos tempo, mas na verdade roubou-o [1]. O médico queixa-se com razão de estar assoberbado porque a sua energia é drenada por tarefas de baixo valor clínico, que o impedem de exercer a verdadeira medicina da escuta para chegar à ressonância, objetivo fulcral da clínica. Há aqui, além do mais, um monumental desperdício de recursos humanos e técnicos provocado por esta estrutura.
O reflexo desta “bulimia dos indicadores” expande-se para fora do gabinete. As próprias reuniões de serviço já não servem para a equipa refletir sobre o que está a fazer, como, porquê e para quem o faz. Não servem para aprender com os erros ou para discutir casos clínicos complexos, a essência da profissão. Em vez disso, são ocupadas a auditar o processo, discutir IDs, metas, frações, percentagens e auditorias internas como se o sucesso da unidade se medisse pela folha de Excel e não pelo alívio do sofrimento daquela comunidade. Mas cada unidade não existe para cumprir indicadores; existe para gerar bem-estar na sua população.
Instaurou-se a ditadura dos números com a pseudo-segurança que neles é depositada. Nas avaliações institucionais, o que vale é apenas o que se pode quantificar; a dimensão qualitativa da relação é solene e olimpicamente ignorada porque não pode ser medida. Ora, nem tudo o que se mede é importante, e nem tudo o que é importante é mensurável. O médico corre não porque o tempo encolheu, mas porque a sociedade o convenceu de que estar parado a escutar é uma perda de produtividade. O burocratismo de gestão tornou-se cego à complexidade humana. O sistema regista com precisão cirúrgica se o quadrado da vacinação ou do rastreio foi assinalado (dados quantitativos), mas é totalmente incapaz de medir se o médico conseguiu acalmar o sofrimento de uma mãe ou detetar uma depressão mascarada através do silêncio do doente (dados qualitativos). A tecnologia tornou-se uma ferramenta de industrialização da consulta.
A Medicina Geral e Familiar não é uma ilha dentro do sistema de saúde, e este também não o é dentro da sociedade. Mas é evidente que alguém tem de começar por contestar esta dissincronia do tempo. Na consulta atual, a atenção não flui numa linha contínua atenta à narrativa do doente [2]; é uma linha descontinua, pontilhada, fatiada como carpaccio, porque o clínico é forçado a saltar permanentemente do doente para o computador, de tarefa em tarefa. A continuidade, característica basilar da MGF, está a ser assassinada dentro do próprio gabinete, no tempo da consulta, por esta atenção sincopada.
A isto acresce a dessincronia dos ritmos diagnosticada por Hartmut Rosa: a velocidade exigida pela sociedade digital não se compatibiliza com a velocidade imutável da Natureza [1]. O desejo político de resolver um luto num único episódio clínico está profundamente desfasado do tempo natural que a psique exige para metabolizar a perda. Por muita pressa que a pós-modernidade tenha, um luto exige tempo, tal como uma gravidez biológica continua a precisar de nove meses para se completar. Quando o médico cede à pressa social e ao medo da escuta, responde com a prescrição farmacológica reflexa. Destrói a “esperoterapia”. Transforma o luto, uma resposta humana saudável e natural, numa patologia artificial para devolver o indivíduo rapidamente à engrenagem produtiva. O mesmo se aplica a muitos outros fenómenos sociais de perda ou de desafios emocionalmente exigentes.
A inversão é total. O sistema foi desenhado para que o médico trabalhe para o gestor e para o político (que exigem números céleres para apresentar em campanhas ou relatórios de sustentabilidade financeira), em vez de trabalhar para o utente (o clíens, aquele que legitimamente procura proteção e ajuda). O utente passa de sujeito da relação clínica a mero “combustível” para alimentar o indicador. E quando o médico abdica da sua soberania e aceita este papel, ele desumaniza o doente e autodesumaniza-se, caindo no burnout não por excesso de trabalho com sentido, mas pelo absoluto vazio de trabalhar sem rumo.
Diante deste cenário, a passividade não é uma opção eticamente aceitável. O sofrimento institucionalizado e a exaustão que paralisam a classe médica e, por arrasto, toda a equipa, não podem continuar a servir de justificação para o conformismo ou para a autoagressão do burnout. Urge romper com a engrenagem. É imperativo e urgente desenhar um movimento de oposição consciente dentro dos gabinetes, nas unidades de saúde, nas comunidades e nas sociedades científicas, uma resistência ativa que devolva a soberania ao ato clínico e resgate a dignidade da nossa missão. Pela gravidade e complexidade do desafio apelo a essa discussão, por mim, se me for permitido, voltarei a este tema.
Referências Bibliográficas e Notas
[1] Rosa, Hartmut (2022) Alienação e Aceleração: por uma teoria crítica da temporalidade; tradução de Fábio Roberto Lucas. Petrópolis, RJ: Editora Vozes.
Nota: Rosa define a “alienação” como o estado em que o sujeito executa ações e estabelece relações com o mundo (pessoas, coisas, trabalho) sem que haja uma ligação viva, afetiva ou transformadora (ressonância). O sujeito age de forma mecânica e hiperativa, mas o mundo permanece-lhe “mudo” e frio. O choque entre os ritmos da aceleração social/tecnológica e as “barreiras naturais de velocidade” (os ritmos biológicos, ecológicos e psicológicos humanos, como o tempo do luto ou do crescimento), gerando a dessincronia patológica da sociedade contemporânea.
[2] Han, Byung-Chul (2016). O Aroma do Tempo: Um Ensaio Filosófico sobre a Arte da Demora; tradução de Miguel Serras Pereira. Lisboa: Relógio D’Água Editores.Nota: Han introduz o conceito de “hipercinesia”, “tempo atomizado” e “dissincronia”. Sem uma narrativa contínua que ordene a vida, o tempo estilhaça-se em pontos soltos (a linha pontilhada), forçando o indivíduo a uma hiperatenção dispersa e a um ativismo cego que destrói a capacidade de contemplação e a profundidade do ato humano.
NOTA: O autor utilizou o modelo de inteligência artificial Gemini (Google) como assistente editorial para a revisão estilística e estruturação gramatical do manuscrito original.
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