6 Out, 2026

Dados nacionais não apontam para aumento da toxicodependência, diz presidente do ICAD

Os consumos problemáticos de droga são hoje mais graves e visíveis, mas os últimos dados nacionais não indicam um aumento da prevalência, segundo a presidente do ICAD. Joana Teixeira alerta, contudo, para a maior presença de cocaína e ‘crack’, para as novas substâncias psicoativas e para a escassez de profissionais em algumas respostas.

Dados nacionais não apontam para aumento da toxicodependência, diz presidente do ICAD

O aumento da gravidade dos consumos problemáticos de droga está a tornar a toxicodependência mais visível e pode criar a perceção de que existem mais pessoas a consumir, mas os últimos dados nacionais não apontam para um aumento da prevalência, segundo a presidente do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD).

“Os consumos que existem são cada vez mais graves, mas não há um aumento de prevalência de consumo, pelo menos nos últimos dados nacionais”, afirmou Joana Teixeira, em entrevista à agência Lusa.

A presidente do ICAD sublinhou que a maior gravidade dos casos torna também as situações mais visíveis, podendo contribuir para a perceção de um aumento dos problemas de consumo e de toxicodependência.

O perfil dos consumos também se alterou, com uma diminuição do peso da heroína e um aumento do consumo de cocaína e de ‘crack’.

“Antigamente, haveria um aumento de consumo de heroína, sobretudo endovenosa. Atualmente, assistimos a um aumento de consumo de cocaína e, sobretudo, de ‘crack’”, explicou Joana Teixeira, acrescentando que esta substância é “mais acessível”, “mais barata” e tem “um potencial aditivo muito grande”.

“É muito desorganizador para a pessoa e tornam-se muito visíveis as consequências negativas associadas ao seu consumo”, salientou.

As novas substâncias psicoativas constituem outra preocupação do ICAD, sobretudo devido ao consumo entre os jovens e à dificuldade em conhecer antecipadamente os seus efeitos.

O último Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População Geral, com dados de 2022, não permite estabelecer uma tendência relativamente a estas substâncias, uma vez que a percentagem de consumidores é residual nas diferentes faixas etárias.

Entre os jovens de 18 anos que participaram no Dia da Defesa Nacional em 2025, a prevalência de consumo recente de novas substâncias psicoativas foi, contudo, de 2,3%, próxima dos valores registados para a cocaína (2,4%) e para os alucinogénios (2,3%).

Joana Teixeira alertou para os riscos destas substâncias, muitas vezes adquiridas através da internet, e para as consequências que podem ter na saúde mental, incluindo a ocorrência de surtos psicóticos.

Questionada sobre casos concretos de jovens que tenham chegado aos hospitais com surtos psicóticos associados a estes consumos, a responsável disse que o ICAD não dispõe dessa informação, mas afirmou que estas situações ocorrem na prática clínica.

A relação entre os consumos e as comorbilidades psiquiátricas é também uma das áreas consideradas prioritárias pelo instituto.

Sobre as recentes declarações do comandante do Comando Metropolitano de Lisboa da PSP, Luís Elias, que pediu maior investimento no apoio aos toxicodependentes e defendeu que o combate ao tráfico e ao consumo de droga “não é só da polícia”, mas também da saúde e da Segurança Social, Joana Teixeira salientou a necessidade de reforçar a articulação entre instituições.

A presidente do ICAD defendeu existir “uma necessidade de trabalho em conjunto entre as várias instituições” e revelou que, em 25 de setembro, o conselho diretivo do instituto se reuniu com o comandante da PSP e representantes das divisões policiais das áreas mais problemáticas de Lisboa e da Amadora.

“Temos de envolver os vários parceiros e vai ser desta ação concertada entre as várias instituições que nós vamos conseguir realmente dar uma resposta de intervenção capaz nesta problemática”, afirmou.

Este trabalho deverá ser alargado aos municípios e à Segurança Social, com o objetivo de encontrar respostas conjuntas para os casos de maior gravidade.

Questionada sobre uma eventual falta de profissionais nas equipas de rua, Joana Teixeira afirmou não ter recebido dados que lhe permitissem corroborar essa informação, acrescentando que os projetos financiados pelo ICAD e pelos municípios estão implementados e a funcionar normalmente.

Admitiu, contudo, dificuldades de recursos humanos noutras respostas do instituto, afirmando que os profissionais disponíveis para esta área “estão neste momento a escassear” e que existem dificuldades em assegurar equipas em número suficiente.

O ICAD está ainda a realizar um diagnóstico nacional para identificar as zonas de maior fragilidade e aquelas que necessitam de maior intervenção, cujos resultados deverão estar disponíveis até ao final do ano.

Segundo Joana Teixeira, este diagnóstico deverá também permitir compreender melhor eventuais diferenças nos padrões de consumo associadas à evolução demográfica e à imigração.

A presidente do ICAD destacou ainda a evolução positiva de vários indicadores de consumo em Portugal, considerando que o país está “muito bem posicionado” no contexto europeu relativamente ao consumo de substâncias ilícitas.

 

LUSA/SO

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