“Precisamos de saber quantas pessoas têm doença renal crónica, quantas permanecem por diagnosticar, estádio e risco de progressão”
Os resultados do HÉRCULES, o estudo que vai permitir ter uma noção exata da realidade da doença renal crónica em Portugal, poderão reforçar o investimento na prevenção e no diagnóstico precoce desta patologia. Quem o afirma é Rui Miranda, médico de Medicina Geral e Familiar e regente do Mestrado Integrado em Medicina da Universidade do Algarve.

O que nos dizem, atualmente, os dados do SNS sobre a doença renal crónica (DRC) em Portugal e quais considera serem ainda as principais lacunas de conhecimento nesta área?
Os dados disponíveis sobre a DRC em Portugal são ainda incompletos, sobretudo no que respeita aos estádios iniciais e aos casos não diagnosticados. O estudo RENA, realizado entre utilizadores dos cuidados de saúde primários (CSP), estimou uma prevalência ajustada de 20,9%, acima das referências europeias e mundiais consideradas pelos autores. Embora as limitações do estudo não permitam extrapolar diretamente este valor para toda a população portuguesa, o resultado aponta para uma carga relevante de doença.
Assim, precisamos de saber quantas pessoas têm DRC, quantas permanecem por diagnosticar, qual o seu estádio e risco de progressão e que diferenças existem no acesso ao diagnóstico e ao acompanhamento. Importa também conhecer o plano terapêutico instituído e a sua adequação ao estádio da doença, ao risco individual e às recomendações clínicas.
O Projeto HÉRCULES poderá contribuir para melhorar o conhecimento da prevalência em Portugal e apoiar o planeamento de respostas mais adequadas às necessidades desta população. Para esta resposta, os médicos de família, pela proximidade e continuidade dos cuidados, têm um papel central na identificação precoce e no acompanhamento destes doentes.
“Não basta dosear a creatinina e calcular a taxa de filtração glomerular (TFG): é necessário avaliar o rácio albumina/creatinina urinária (RACu), essencial para a classificação e estratificação prognóstica da DRC”
Até que ponto os dados atualmente registados no SNS refletem a realidade clínica da DRC e que desafios existem na utilização dessa informação para estimar a verdadeira dimensão da doença?
A ICPC-2, classificação usada nos cuidados de saúde primários, não dispõe de um código específico para DRC. O código utilizado, U99 – Outras doenças urinárias, agrega situações muito distintas, dificultando a identificação dos doentes com DRC e a realização de auditorias internas. Mesmo que o diagnóstico conste em texto livre, a sua identificação exige a revisão individual dos processos.
Não basta dosear a creatinina e calcular a taxa de filtração glomerular (TFG): é necessário avaliar o rácio albumina/creatinina urinária (RACu), essencial para a classificação e estratificação prognóstica da DRC. Destaco o contributo dos laboratórios que já disponibilizam este rácio quando solicitamos «microalbuminúria» em amostra ocasional de urina. É ainda essencial confirmar a persistência das alterações durante pelo menos três meses. Sem estes elementos, podemos omitir casos ou classificar como DRC alterações transitórias.
Por fim, os utentes que recorrem à consulta não representam necessariamente toda a população. Estimar a dimensão da doença exige integrar diagnósticos, resultados laboratoriais e evolução temporal, considerando também quem não foi avaliado ou tem menor contacto com os serviços.
De que forma uma caracterização mais completa do percurso dos doentes com DRC no SNS poderia contribuir para melhorar a prevenção, o diagnóstico precoce e a articulação entre cuidados de saúde?
Uma caracterização mais completa permitiria identificar oportunidades perdidas: na avaliação das pessoas em risco, na confirmação do diagnóstico, na instituição de medidas de proteção renal e na referenciação à nefrologia. Os resultados do HÉRCULES poderão reforçar a prioridade à DRC nos CSP e apoiar o investimento na prevenção e no diagnóstico precoce. Conhecer melhor a dimensão do problema ajudará a planear uma avaliação mais sistemática das pessoas em risco e a assegurar o acompanhamento após o diagnóstico.
Poderá também apoiar o planeamento conjunto da resposta dos CSP e da Nefrologia, favorecendo uma referenciação atempada e o acompanhamento partilhado. A evidência poderá ainda sustentar a criação de um indicador diretamente dedicado à DRC no Índice de Desempenho da Equipa (IDE), atualmente inexistente. Esse indicador deverá valorizar a avaliação das pessoas em risco e o acompanhamento adequado de quem tem doença. A sua monitorização ajudaria as equipas a identificar falhas e a melhorar os cuidados, com o objetivo de atrasar a progressão da DRC, reduzir complicações e melhorar a qualidade de vida.
“… precisamos de saber quantas pessoas têm DRC, quantas permanecem por diagnosticar, qual o seu estádio e risco de progressão e que diferenças existem no acesso ao diagnóstico e ao acompanhamento”
O que nos dizem, atualmente, os dados do SNS sobre a doença renal crónica (DRC) em Portugal e quais considera serem ainda as principais lacunas de conhecimento nesta área?
Os dados disponíveis sobre a DRC em Portugal são ainda incompletos, sobretudo no que respeita aos estádios iniciais e aos casos não diagnosticados. O estudo RENA, realizado entre utilizadores dos cuidados de saúde primários, estimou uma prevalência ajustada de 20,9%, acima das referências europeias e mundiais consideradas pelos autores. Embora as limitações do estudo não permitam extrapolar diretamente este valor para toda a população portuguesa, o resultado aponta para uma carga relevante de doença.
Assim, precisamos de saber quantas pessoas têm DRC, quantas permanecem por diagnosticar, qual o seu estádio e risco de progressão e que diferenças existem no acesso ao diagnóstico e ao acompanhamento. Importa também conhecer o plano terapêutico instituído e a sua adequação ao estádio da doença, ao risco individual e às recomendações clínicas.
O Projeto HÉRCULES poderá contribuir para melhorar o conhecimento da prevalência em Portugal e apoiar o planeamento de respostas mais adequadas às necessidades desta população. Para esta resposta, os médicos de família, pela proximidade e continuidade dos cuidados, têm um papel central na identificação precoce e no acompanhamento destes doentes.
Até que ponto os dados atualmente registados no SNS refletem a realidade clínica da DRC e que desafios existem na utilização dessa informação para estimar a verdadeira dimensão da doença?
A ICPC-2, classificação usada nos cuidados de saúde primários, não dispõe de um código específico para DRC. O código utilizado, U99 – Outras doenças urinárias, agrega situações muito distintas, dificultando a identificação dos doentes com DRC e a realização de auditorias internas. Mesmo que o diagnóstico conste em texto livre, a sua identificação exige a revisão individual dos processos.
Não basta dosear a creatinina e calcular a taxa de filtração glomerular (TFG): é necessário avaliar o rácio albumina/creatinina urinária (RACu), essencial para a classificação e estratificação prognóstica da DRC. Destaco o contributo dos laboratórios que já disponibilizam este rácio quando solicitamos «microalbuminúria» em amostra ocasional de urina. É ainda essencial confirmar a persistência das alterações durante pelo menos três meses. Sem estes elementos, podemos omitir casos ou classificar como DRC alterações transitórias.
Por fim, os utentes que recorrem à consulta não representam necessariamente toda a população. Estimar a dimensão da doença exige integrar diagnósticos, resultados laboratoriais e evolução temporal, considerando também quem não foi avaliado ou tem menor contacto com os serviços.
“Conhecer melhor a dimensão do problema ajudará a planear uma avaliação mais sistemática das pessoas em risco e a assegurar o acompanhamento após o diagnóstico”
De que forma uma caracterização mais completa do percurso dos doentes com DRC no SNS poderia contribuir para melhorar a prevenção, o diagnóstico precoce e a articulação entre cuidados de saúde?
Uma caracterização mais completa permitiria identificar oportunidades perdidas: na avaliação das pessoas em risco, na confirmação do diagnóstico, na instituição de medidas de proteção renal e na referenciação à nefrologia.
Os resultados do HÉRCULES poderão reforçar a prioridade à DRC nos CSP e apoiar o investimento na prevenção e no diagnóstico precoce. Conhecer melhor a dimensão do problema ajudará a planear uma avaliação mais sistemática das pessoas em risco e a assegurar o acompanhamento após o diagnóstico. Poderá também apoiar o planeamento conjunto da resposta dos CSP e da Nefrologia, favorecendo uma referenciação atempada e o acompanhamento partilhado.
A evidência poderá ainda sustentar a criação de um indicador diretamente dedicado à DRC no IDE, atualmente inexistente. Esse indicador deverá valorizar a avaliação das pessoas em risco e o acompanhamento adequado de quem tem doença. A sua monitorização ajudaria as equipas a identificar falhas e a melhorar os cuidados, com o objetivo de atrasar a progressão da DRC, reduzir complicações e melhorar a qualidade de vida.
SO
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