Cancro da cabeça e do pescoço. Lesões com mais de 3 semanas exigem ajuda médica imediata
Feridas na boca com mais de 3 semanas são um dos sintomas de cancro da cabeça e pescoço. Cláudia Vieira, presidente do Grupo de Estudos de Cancro da Cabeça e Pescoço, alerta para a importância do diagnóstico precoce no âmbito da campanha Make Sense. Além de apelar ao reforço da educação para a saúde, destaca o papel do dentista e do médico de família na luta contra este tumor e alerta para a escassez de cirurgiões e radiologistas diferenciados no setor público.

O cancro da cabeça e pescoço é 7.º mais prevalente na Europa, mas ainda existe um grande desconhecimento dos sintomas, o que contribui para uma taxa de mortalidade mais elevada.
Esta realidade poderia ser diferente se as pessoas estivessem mais alerta para alguns sinais e sintomas como feridas na boca, rouquidão persistente – sobretudo se se for fumador e se se consumir álcool com regularidade -, obstrução nasal e ou sangramento apenas numa das narinas ou problemas apenas num ouvido. “Se a duração desta sintomatologia for superior a 3 semanas, é preciso ajuda médica imediata”, alerta Cláudia Vieira.
Acrescem, ainda dificuldades em engolir, manchas vermelhas e brancas na boca que não desaparecem com a higiene oral e tumefações no pescoço.
Como especifica: “Em 60% dos casos, as pessoas chegam à consulta já com um cancro em estadios 3 e 4, ou seja, em estado avançado e com metástases. Mesmo com cirurgia, quimioterapia e radioterapia, o risco de morte e de recaída é elevado. Até com novos medicamentos, em estado avançado, a sobrevida média é de cerca de 14 meses.”
Um cenário que seria muito diferente se o diagnóstico ocorresse nos estadios 1 e 2, quando a taxa de cura ronda os 80-90% com cirurgia.
Pouca acessibilidade a Medicina Dentária e a médico de família
Informar e sensibilizar a população são palavras de ordem, mas também é essencial dotar o Serviço Nacional de Saúde (SNS) de médicos dentistas e melhorar o acesso ao médico de família. “Estes profissionais são muito importantes para que o diagnóstico seja mais precoce, porque o espaço de tempo entre a lesão e o cancro é de apenas 3 semanas. Resta-nos diagnosticar numa fase inicial, para se ter um melhor prognóstico”, sublinha Cláudia Vieira.
Apesar dos constrangimentos existentes, como o acesso quase exclusivo a médico dentista no privado e a falta de médicos de família nalgumas regiões, a oncologista afirma que têm sido dados alguns passos importantes. Exemplo disso, foi o reconhecimento, há poucas semanas, da carreira de Medicina Dentária no SNS. “No norte já existem centros de saúde com dentistas.”
Destaca, ainda, a implementação do PIPCO – Projeto/Programa de Intervenção Precoce no Cancro Oral, que permite aos dentistas e médicos de família referenciarem os doentes com suspeita para os três institutos de Oncologia do país. “No IPO do Porto, por exemplo, recebemos doentes sem biópsia e apenas com fotos da lesão. Este tipo de iniciativas é muito importante por causa da agressividade deste tipo de cancro.”
A Liga Portuguesa Contra o Cancro também tem um programa de rastreio para este tipo de cancro nalgumas regiões do país. “Apesar das dificuldades que ainda se sentem no acesso a dentista e médico de família, se as pessoas conhecerem os sintomas irão procurar forma de ter ajuda.”
Cláudia Vieira chama a atenção para os fumadores e consumidores regulares de álcool, na medida que apresentam um risco mais elevado de vir a desenvolver este tipo de tumor. “Autoexame, a palpação do pescoço, deixar de fumar são passos essenciais. Procurem ajuda, nem que seja na farmácia, no enfermeiro de família ou através da Linha SNS24, sobretudo perante lesões e sintomas que não melhoram em 3 semanas”, reforça.
Setor público deve ser mais atrativo para cirurgiões e radiologistas
Outro ponto que também deve ser alvo de melhorias para que se combater o atraso no diagnóstico do cancro da cabeça e pescoço é criar condições atrativas para que haja mais cirurgiões com diferenciação em cirurgia oncológica da cabeça e pescoço, assim como em Cirurgia Plástica e Reconstrutiva. “Prefere-se trabalhar no setor privado, onde os benefícios financeiros são maiores. No caso específico da cirurgia da base do crânio, não temos quase ninguém para o fazer no SNS.”
O Grupo de Estudos de Cancro da Cabeça e Pescoço (GECCP) tem estado em contacto com a Ordem dos Médicos e os colégios da especialidade, no sentido se conseguir ter outras medidas atrativas, por exemplo, no âmbito da diferenciação e da carreira médica – para que haja mais recursos no setor público. O mesmo se aplica aos médicos radiologistas, por se tratar de exames muito complexos, e à Oncogeriatria, na medida que há mais casos a partir dos 80 anos, nomeadamente em pessoas com próteses mal-adaptadas e com multipatologia.
A campanha europeia Make Sense decorre entre 21 e 26 de setembro e tem como mote “Right care at the right time” (“Os cuidados certos no momento certo”.) Promovida pela European Head and Neck Society (EHNS) e coordenada em Portugal pelo GECCP, a Make Sense conta também com o apoio do ator Rui Santos, que dá a cara pela campanha e partilha o seu testemunho enquanto pessoa que viveu um diagnóstico de cancro na língua.
Maria João Garcia
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