18 Ago, 2026

“Cuidar do luto não é apenas uma tarefa dos profissionais de saúde mental”

A morte faz parte da vida, mas ainda existem dúvidas e dificuldades quando se fala de luto. Eunice D. R. Silva, especialista em Psicologia Clínica e Psicoterapia e psicóloga certificada e supervisora em Terapia Focada nas Emoções, alerta para a importância da formação dos profissionais de saúde nesta área, fazendo uma antecipação da terceira edição da European Grief Conference (EGC 2026), que vai decorrer entre 9 e 11 de setembro, no Porto. O evento é organizado localmente pela Sociedade Portuguesa de Terapia Focada nas Emoções (SPTFE) e pela Universidade da Maia, em parceria com instituições da Dinamarca, Irlanda e o Berevement Network Europe.

“Cuidar do luto não é apenas uma tarefa dos profissionais de saúde mental”

O European Grief Conference, que vai decorrer entre 9 e 11 de setembro, no Porto, vai dar destaque ao tema do luto. Ainda é um assunto tabu, mesmo junto dos profissionais de saúde?

Eu não diria que é propriamente um tabu, mas há muitas vezes uma resistência em aproximar-se do assunto, porque este toca na dor emocional, nas perdas e na morte. Muitas pessoas, incluindo profissionais, podem não se sentir preparadas, capacitadas ou confortáveis para o abordar.

E, no entanto, pode ser importante para qualquer pessoa cultivar um entendimento e uma aceitação da própria natureza humana. Quando perdemos algo ou alguém importante para nós, é natural que haja sofrimento, que surjam emoções, pensamentos e manifestações comportamentais que expressam essa perda. O mundo externo muda e o mundo interno tem de se adaptar a essa nova realidade, de forma a integrar a perda. Para o indivíduo, para a família e, por vezes, para toda a comunidade, é um processo que se desenrola ao longo do tempo, que pode assumir muitas formas e que é influenciado pela personalidade, pela cultura e por muitos outros fatores.

Menos evidente para quem não conhece o tema é que o processo de luto pode conduzir também a crescimento pessoal, implicando a recriação de significados, a religação à vida e vivências mais amplas de aceitação, de amor e de compaixão.

Alguns profissionais podem ainda entender a sua ação sobretudo na dimensão material, a do corpo, ficando menos atentos à sua influência e à sua responsabilidade para com pacientes que estão em sofrimento psicológico, seja por luto, seja por outras razões. O luto tem sido estudado cientificamente em toda a sua complexidade e diversidade e existem hoje várias propostas teóricas de concetualização e de intervenção, quando esta é necessária. Por isso pode ser muito valioso, mesmo para profissionais que não trabalham em saúde mental ou em Cuidados Paliativos, compreender melhor o fenómeno do luto.

Quais os principais desafios que os profissionais de saúde enfrentam quando têm de falar ou lidar com o luto?

Do meu ponto de vista, para se sentirem confortáveis e competentes a lidar com pessoas enlutadas, os profissionais de saúde precisam antes de mais de cultivar uma atitude de aceitação da experiência do outro, sem julgamento, com respeito e com compassividade. Isto implica validar e tolerar a expressão emocional do enlutado, estar com a pessoa, reconhecendo no campo interpessoal o seu direito a sentir.

Às vezes essa expressão pode ser de revolta dirigida aos próprios profissionais de saúde e este é um grande desafio: o de compreender a dinâmica emocional que está por baixo, sem ficar reativo a ela.

Outro desafio é a ativação de memórias pessoais do próprio profissional, das suas perdas, ou dos seus medos da morte, da finitude, do desconhecido, da falta de controlo. Aí corre-se o risco de ficar à mercê das próprias emoções, com o desafio acrescido de perceber como geri-las.

Os profissionais de saúde estão globalmente mais programados para agir, resolver e aliviar. Por isso, quando assistem ao sofrimento emocional de alguém em luto, é muito tentador fazer alguma coisa para retirar rapidamente a pessoa desse sofrimento, dizendo algo que pode, na realidade, não ajudar, ou até medicando para diminuir a expressão do luto que está no seu curso adaptativo. Mas o luto, sendo por vezes muito doloroso, resolve-se melhor vivendo-o: passando pela dor e fazendo, nesse caminho, aquilo que a pessoa sente que precisa de fazer para encontrar uma relação com o falecido, consigo mesma, com os outros e com o mundo que faça sentido para si, e aceitar a vida de novo, ou a nova vida.

Penso que o maior desafio para os profissionais de saúde, e, no fundo, para todos nós, é o de encontrar a nossa relação pessoal com a vida e com a morte: ter consciência de onde estamos, pessoalmente, quanto às perdas e à morte, de quão tranquilos estamos face à nossa condição existencial, e fazer o trabalho de elaborar as nossas próprias emoções. A isto junta-se o desafio mais prático de ter informação adequada, que ajude a compreender qual é o nosso papel quando se trata de ajudar, e de que forma ajudar.

“O luto prolongado é precisamente aquele que mantém a pessoa estagnada, aprisionada, porque alguma coisa a impede de avançar para a aceitação da perda e para a transformação que precisaria de fazer dentro de si”

Quais são as principais consequências do luto patológico?

A expressão «luto patológico» é hoje uma designação mais antiga e abrangente, que foi caindo em desuso. Aquilo que ela descrevia, sobretudo as formas que se cronificam e não se integram, corresponde, no essencial, ao que atualmente se designa por luto prolongado, uma categoria que passou a estar reconhecida nas classificações internacionais. Esta nova terminologia afasta-se de uma leitura do luto como doença e privilegia uma visão menos estigmatizante. O luto não é uma doença nem é algo a eliminar. Cada pessoa o vive à sua maneira, porque cada um de nós é único. Mas também não é verdade que «o tempo cura tudo». O luto leva o seu tempo, e, nesse tempo, o organismo precisa de se adaptar, de ressignificar, de realizar um conjunto de processos internos que resultam na adaptação da pessoa a um mundo sem o outro. A maioria das pessoas adapta-se sem intervenção clínica e só uma minoria desenvolve luto prolongado.

O luto prolongado é precisamente aquele que mantém a pessoa estagnada, aprisionada, porque alguma coisa a impede de avançar para a aceitação da perda e para a transformação que precisaria de fazer dentro de si. É o luto em que, por exemplo, passados 10 anos, a dor ativada por um estímulo que evoca a perda surge com uma intensidade e uma natureza como se essa perda tivesse ocorrido hoje.

As consequências fazem-se sentir a vários níveis. Os recursos emocionais da pessoa passam a estar largamente ocupados por este processo, e ela não se permite seguir em frente, reenvolver-se com a vida ou procurar a sua felicidade. É frequente haver isolamento social e um afastamento progressivo de atividades e relações que antes davam sentido. Há também um impacto na saúde física, no sono, na energia, no autocuidado, e um risco acrescido de perturbações associadas, como a depressão, a ansiedade ou o stress pós-traumático, podendo, nos casos mais graves, surgir ideação suicida. Daí a importância de reconhecer estes quadros e de encaminhar para apoio adequado, sabendo distinguir o luto que segue o seu curso natural daquele que fica bloqueado.

Que medidas devem ser tomadas para que o luto deixe de ser um assunto tabu e para que haja maior literacia nesta área, sobretudo junto médicos e de outros profissionais de saúde?

A primeira medida é simples, é importante falar sobre o luto. Lembrar que é um processo estudado cientificamente, que muito se sabe já sobre ele e sobre como ajudar.

Depois, há todo um trabalho de reconhecimento e de cultura institucional: valorizar a nossa natureza humana, reconhecer o potencial doloroso da perda e validar a necessidade de tempo para o ajustamento, o que se reflete em políticas próprias. A humanização dos locais de trabalho e um discurso que assuma que não somos apenas máquinas de produção, mas seres emocionais, são parte da mesma direção. E, no plano concreto, importa identificar e disponibilizar recursos de apoio psicológico para quando forem necessários, tanto para os enlutados como para os próprios profissionais que lidam com a morte e luto no seu quotidiano.

Uma comunidade com literacia do luto reconhece a perda, acolhe quem sofre e legitima o tempo necessário para a adaptação, prevenindo o isolamento antes de qualquer intervenção especializada. Adicionalmente, é importante que os conteúdos sobre o Luto sejam incluídos, se ainda não o foram, nos programas académicos de formação dos profissionais de saúde.

“Este congresso estrutura-se em torno de um modelo de cuidado do luto em quatro níveis, que vai da literacia e da sensibilização de toda a sociedade, passando pelo apoio informal das redes próximas e pelo apoio comunitário”

É membro da Sociedade Portuguesa de Terapia Focada nas Emoções. Em que consiste esta terapia e de que forma pode ser aplicada?

A Terapia Focada nas Emoções foi desenvolvida desde os anos 80 por Leslie Greenberg e colegas como Robert Elliott, Jeanne Watson e Rhonda Goldman. Tem raízes na tradição humanista e experiencial, recolhendo contributos da terapia centrada na pessoa, da Gestalt e da abordagem existencial, mas é, na sua essência, uma abordagem integradora, que junta a essa herança o conhecimento atual da ciência das emoções e uma perspetiva construtivista sobre a forma como criamos novos significados. Tem décadas de evidência de eficácia no apoio a pessoas com depressão, ansiedade, trauma e dificuldades relacionais, e combina uma relação terapêutica profundamente empática com um trabalho ativo e estruturado sobre a forma como processamos aquilo que sentimos.

As emoções aqui são vistas como fontes de informação adaptativa, sinais que nos orientam sobre as nossas necessidades, os nossos valores e aquilo que é importante para nós. O trabalho terapêutico consiste, em boa parte, em ajudar a pessoa a aceder às suas emoções, a dar-lhes sentido e, quando estão bloqueadas ou são desadaptativas, a transformá-las. Costuma dizer-se, na TFE, que a forma de transformar uma emoção é com outra emoção.

No caso do trabalho com pessoas enlutadas, quando o processo de luto fica bloqueado, quando há emoções não elaboradas, culpa, revolta ou assuntos por resolver com quem partiu, a terapia ajuda a evocar essas emoções num contexto seguro, a dar-lhes voz e a reprocessá-las, permitindo que a dor siga o seu curso e que a relação com o falecido se transforme, em vez de permanecer congelada.

Que mensagem gostaria de deixar a quem pretende participar no Congresso?

Diria que é uma excelente oportunidade para compreender o fenómeno do luto na atualidade em diferentes perspetivas.  Este congresso estrutura-se em torno de um modelo de cuidado do luto em quatro níveis, que vai da literacia e da sensibilização de toda a sociedade, passando pelo apoio informal das redes próximas e pelo apoio comunitário dirigido a quem está em maior risco, até à intervenção clínica especializada. É essa amplitude que o torna tão relevante pois mostra que cuidar do luto não é apenas uma tarefa dos profissionais de saúde mental, mas uma responsabilidade partilhada por toda a comunidade.

Quer trabalhem diretamente com pessoas enlutadas, quer simplesmente queiram compreender melhor uma das experiências mais universais da condição humana, encontrarão certamente neste congresso algo que os toque e enriqueça, profissional e pessoalmente. Será um privilégio recebê-los no Porto.

Maria João Garcia

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