28 Jul, 2026

Diretor do Programa das Hepatites apela à realização de testes e reforça importância da prevenção

O diretor do Programa Nacional para as Hepatites Virais defende que todas as pessoas devem realizar, pelo menos uma vez na vida, testes de rastreio às hepatites. Rui Tato Marinho lembra que estas doenças são frequentemente silenciosas, mas existem meios eficazes de prevenção, diagnóstico e tratamento.

Diretor do Programa das Hepatites apela à realização de testes e reforça importância da prevenção

O diretor do Programa Nacional para as Hepatites Virais (PNHV) apelou à realização de testes de rastreio às hepatites, sublinhando que estas doenças e outras patologias do fígado são frequentemente assintomáticas, apesar de existirem atualmente instrumentos eficazes de prevenção, diagnóstico e tratamento.

Em entrevista à agência Lusa, a propósito do Dia Mundial das Hepatites, Rui Tato Marinho recomendou que todas as pessoas realizem, pelo menos uma vez na vida, testes às hepatites A, B e C, bem como à hepatite D, mais rara.

Segundo o especialista, estes exames consistem em análises simples — e, em alguns casos, podem mesmo ser testes rápidos — que permitem saber se a pessoa tem ou teve contacto com o vírus.

“O grande problema é que a maioria destas doenças é silenciosa e não provoca sintomas”, alertou.

O apelo surge no dia em que foi divulgado o relatório de 2025 do Programa Nacional para as Hepatites Virais da Direção-Geral da Saúde (DGS), que revela um aumento expressivo dos casos confirmados de hepatite A em Portugal. Em 2025 foram registados 1.164 casos, face aos 319 verificados em 2024, o que representa um crescimento de 265%.

De acordo com o relatório, este aumento está relacionado com dois surtos iniciados em 2024. Um esteve associado à transmissão entre pessoas em contextos marcados por condições de salubridade deficientes e outro à transmissão por contacto sexual, afetando sobretudo homens entre os 18 e os 44 anos.

Apesar deste crescimento, Rui Tato Marinho considera que a hepatite A continua a ser, globalmente, a forma menos grave da doença.

Segundo o diretor do PNHV, a mortalidade é muito reduzida e, na maioria dos casos, a infeção não deixa sequelas permanentes nem evolui para cirrose ou cancro do fígado.

O especialista recordou ainda que a Direção-Geral da Saúde criou, há alguns anos, uma comissão de crise para acompanhar esta situação e destacou a vacinação como um instrumento essencial para controlar os surtos.

“A vacina é eficaz e constitui uma ferramenta extremamente importante para controlar estas situações”, afirmou.

Relativamente às causas dos surtos, Rui Tato Marinho referiu que estes tendem a ocorrer em determinados agregados familiares e grupos populacionais, estando associados a deficientes condições de higiene. Acrescentou ainda que existe um fenómeno que continua a ser estudado em Portugal, relacionado com práticas de sexo em grupo associadas ao consumo de substâncias químicas, identificado como fator de risco para a transmissão da hepatite A.

Apesar do aumento registado, Portugal continua a ser considerado um país de baixa endemicidade para esta infeção, apresentando habitualmente menos de um caso confirmado por cada 100 mil habitantes.

O responsável salientou também o aumento da vacinação contra a hepatite A, embora esta vacina não integre o Programa Nacional de Vacinação. Segundo explicou, o número de doses administradas passou de cerca de 30 mil, há quatro ou cinco anos, para mais de 100 mil atualmente.

Rui Tato Marinho apelou igualmente aos médicos para que notifiquem todos os casos diagnosticados, permitindo uma resposta mais eficaz em termos de saúde pública.

Também a hepatite B registou um aumento em 2025. O relatório da DGS indica que os casos confirmados passaram de 271 para 354, um crescimento de 31%.

Perante estes números, o diretor do PNHV defendeu que a vigilância não pode ser descurada e lembrou que a vacina contra a hepatite B integra o Programa Nacional de Vacinação há cerca de duas décadas.

O especialista destacou ainda a importância do rastreio junto da população migrante, recordando que algumas pessoas provenientes de países com maior prevalência da doença poderão viver com infeção crónica.

No caso da hepatite C, o relatório refere que a alteração da metodologia de notificação introduzida em 2024 condiciona a comparação direta dos dados dos últimos anos.

Ainda assim, Rui Tato Marinho destacou os resultados alcançados desde que Portugal assegurou o acesso universal ao tratamento da hepatite C. Nos últimos dez anos, mais de 38 mil pessoas receberam tratamento, com taxas de cura próximas dos 97%.

O diretor do programa classificou como praticamente único o facto de Portugal disponibilizar gratuitamente estes medicamentos, sublinhando que ninguém fica excluído do tratamento, independentemente da sua situação social ou clínica.

Segundo o especialista, esta estratégia deverá também beneficiar a população migrante, que poderá não ter tido acesso às terapêuticas mais eficazes nos países de origem.

Na entrevista, Rui Tato Marinho deixou ainda um alerta para a saúde do fígado em geral, lembrando que este é um órgão que raramente dá sinais de doença até fases avançadas.

O responsável recomendou a realização de análises simples e de baixo custo, semelhantes às utilizadas para controlar a diabetes ou o colesterol, e chamou a atenção para fatores de risco como o excesso de peso, o fígado gordo, a cirrose e o cancro do fígado.

As hepatites virais continuam a ser uma das principais causas de doença hepática crónica, cirrose e carcinoma hepatocelular, sendo os vírus das hepatites B e C responsáveis pela maioria da mortalidade associada a estas patologias.

 

LUSA/SO

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