<i class="iconlock fa fa-lock fa-1x" aria-hidden="true" style="color:#e82d43;"></i> Questões éticas na consulta em Medicina Geral e Familiar
Especialista em Medicina Geral e Familiar

Questões éticas na consulta em Medicina Geral e Familiar

A consulta de Medicina Geral e Familiar (MGF) é, por natureza, um espaço de encontro entre o médico, o utente e a sua família. Os problemas éticos, longe de serem situações excecionais, fazem parte deste quotidiano assistencial, aumentando a complexidade do cuidar e exigindo uma capacidade de reconhecimento e deliberação que permita uma resolução prudente. Esta mesa propõe-se abrir um espaço de reflexão e deliberação ética, nos domínios da confidencialidade e do consentimento em menores.

A confidencialidade constitui um dos pilares da relação terapêutica. Ela surge do encontro do dever de sigilo médico e do direito do utente à sua privacidade. Os desafios surgem de formas diversas: o pedido de um familiar para aceder à informação clínica sem consentimento, a partilha de dados com outras entidades, ou situações em que o segredo protege o utente, mas expõe terceiros a risco. Em cada caso, o médico é confrontado com valores em conflito, como sejam a autonomia, a beneficência, a família, entre outros, sem que exista uma resposta única. A deliberação em cada circunstância permite encontrar um caminho de ação intermédio que preserve o maior número de valores.

O consentimento em menores representa um domínio de particular complexidade ética. O adolescente que chega à consulta está em processo de construção da sua autonomia, com capacidade de decisão crescente nem sempre reconhecida. Quando pede confidencialidade sobre um comportamento de risco ou um problema de saúde mental, o médico é colocado perante um problema ético: respeitar a vontade do jovem ou envolver os pais. O que orienta a deliberação é a avaliação da maturidade, da natureza da situação e do contexto familiar. A consulta deve ser um espaço de negociação ética centrado no bem-estar e na segurança daquele jovem em concreto.

Para além destas questões, a MGF enfrenta hoje novos desafios éticos, como a utilização crescente da inteligência artificial no apoio à decisão clínica e as disparidades no acesso aos cuidados que colocam o médico de família perante problemas de equidade e justiça distributiva que dificilmente se resolvem no espaço da consulta, mas que nela se tornam visíveis e urgentes.

A ética clínica, entendida como a identificação, análise e resolução dos problemas éticos que surgem no cuidado de pessoas concretas, é parte intrínseca do trabalho do Médico de Família. Reconhecer que esses problemas merecem o mesmo rigor que os problemas clínicos, e que a sua resolução exige capacidade de deliberação, formação e estruturas de suporte adequadas, é o ponto de partida desta mesa.

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