15 Abr, 2026

Presidente da SPMI demite-se da direção da urgência do Amadora-Sintra após 10 meses de pressão

“As equipas de urgência, em vez de estarem a tratar dos doentes que se inscrevem naquele dia, estão presas aos 75 doentes que estão lá permanentemente internados”, criticou Luís Duarte Costa.

Presidente da SPMI demite-se da direção da urgência do Amadora-Sintra após 10 meses de pressão

O presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), Luís Duarte Costa, demitiu-se no final de fevereiro do cargo de diretor do Serviço de Urgência Geral (SUG) da ULS Amadora-Sintra, revelou o próprio à agência Lusa.

A decisão surge na sequência da impossibilidade de concretizar um plano que visava reduzir o número de doentes internados na urgência do Hospital Fernando Fonseca, um dos principais fatores de pressão sobre o serviço. “Demiti-me exatamente por isso. Fui para lá em maio de 2025 com a promessa de que íamos conseguir tirar de lá os doentes internados”, afirmou o médico, reconhecendo que se tratava de “uma promessa difícil de resolver”.

Segundo explicou, o principal constrangimento da urgência prende-se com a incapacidade de transferir os doentes internados para as enfermarias. “As equipas de urgência, em vez de estarem a tratar dos doentes que se inscrevem naquele dia, estão presas aos 75 doentes que estão lá permanentemente internados”, disse.

Luís Duarte Costa apontou ainda o peso dos chamados casos sociais que representavam cerca de 25% dos internamentos. Entre as soluções discutidas estavam a criação de respostas específicas para estes casos, como um eventual hospital social, e a utilização de 60 camas disponíveis no Hospital de Sintra. No entanto, “isso não se conseguiu fazer”, afirmou, justificando assim a sua saída após “10 meses de pressão”.

Após a demissão, a ULS Amadora-Sintra nomeou, a 9 de março, uma Comissão de Gestão do Serviço de Urgência composta por oito médicos, que se mantém em funções até à designação de um novo diretor.

Questionado sobre a falta de profissionais, o internista considerou que o número de médicos seria suficiente se estivessem dedicados exclusivamente à urgência. Contudo, sublinhou que muitos acabam por ficar retidos a acompanhar doentes internados no serviço. “Esse é o drama. Isto acontece há 30 anos. Médicos e enfermeiros trabalham sob uma pressão tremenda”, afirmou. O especialista alertou ainda que esta realidade contribui para a saída de profissionais e dificulta a atração de novos médicos. “É muito difícil cativar alguém para trabalhar naquele serviço. Muitos acabam por desistir, porque não veem solução para este problema estrutural, que é a falta de camas”, referiu.

Luís Duarte Costa salientou que a situação não é exclusiva do Amadora-Sintra, sendo comum a vários hospitais do país, devido à falta de resposta nos cuidados de saúde primários e à dificuldade em escoar doentes internados. Defendeu, por isso, que a solução não passa apenas por reforçar equipas, mas por mudanças estruturais. “A solução não é pôr mais médicos na urgência. É tirar de lá os doentes”, afirmou.

O presidente da SPMI apelou também a um reforço do papel da medicina interna na organização hospitalar, destacando o envelhecimento da população e o aumento da multimorbilidade. “Cada vez mais os doentes são idosos e com múltiplas patologias. Não se enquadram numa única especialidade”, explicou, defendendo uma abordagem baseada em equipas multidisciplinares. Por fim, criticou a atual organização hospitalar centrada nas especialidades. “Os hospitais funcionam em torno das especialidades e não do doente. Isso tem de mudar”, concluiu.

SO/LUSA

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