
Psicóloga clínica nos Serviços de Saúde da Universidade de Coimbra e Coautora do livro Estar Presente (PACTOR Editora)
Faz o que eu digo…e o que eu faço!
A ciência mostra que, enquanto espécie humana, sobrevivemos e evoluímos porque desenvolvemos estratégias sociais importantes: a procura e a prestação de cuidados. Refletindo nesta última, se fechássemos os olhos e pensássemos numa imagem que a represente, talvez surgissem figuras familiares, mas também, para alguns, a imagem de uma médica, enfermeiro ou psicóloga que os acompanhou em momentos difíceis. Falamos de pessoas que escolheram dedicar grande parte da sua vida a cuidar dos outros quando estes se encontram especialmente vulneráveis.
Embora partilhem do potencial inato para a procura e prestação de cuidado, nos profissionais de saúde, a prestação de cuidado ao outro tende, muitas vezes, a sobrepor-se ao autocuidado. Quem nunca ouviu falar de um profissional afetado por burnout? Ou cujo stress e carga de trabalho impactaram a vida pessoal? A vida humana oscila entre cuidar e ser cuidado, mas os contextos laborais destas pessoas reforçam quase exclusivamente o primeiro papel. Tornam-se “ases” na identificação do sofrimento alheio e na resposta rápida e eficaz, frequentemente sob elevada pressão e responsabilidade.
Mas, no meio disto tudo, quem cuida destes profissionais? Frequentemente, para estas pessoas, as necessidades do “eu” vão-se esbatendo no combate diário ao sofrimento do outro. Sofrem com e pelo outro, assumindo responsabilidade, às vezes excessiva, pelo bem-estar e recuperação da outra pessoa, dando orientações que nem sempre transportam para as suas próprias vidas. Com o tempo, o custo de cuidar torna-se elevado. Surge a fadiga de dar compaixão, que se pode manifestar por apatia, irritabilidade, culpa ou exaustão física, afetando não só os cuidados prestados, mas também a vida pessoal e relações. O treino intensivo na prestação de cuidados pode até dificultar receber cuidado ou o reconhecer das próprias necessidades, conduzindo ao distanciamento daquilo e daqueles que lhe são importantes.
Mas não tem de ser assim. Para preservar o próprio bem-estar, a regulação emocional surge como ferramenta central para os profissionais de saúde. Falamos de estratégias simples e realistas: permitir micro-pausas conscientes entre tarefas, tomar contacto com a experiência do momento (por exemplo, através de exercícios curtos de mindfulness), treinar-se a nomear as próprias emoções (“estou cansado”, “estou frustrado”), estabelecer limites e construir redes de partilha entre pares. Pequenos gestos, mas significativos, no caminho de cuidar do “eu” como se cuida dos outros.
No fundo, o desafio é transportar para a própria vida as orientações que se dão todos os dias. Ouvir o que se diz ao outro e colocar em prática. Porque cuidar do “eu” é parte de cuidar do outro. E, já que a regulação emocional é um desafio, a leitura do livro Estar Presente pode ser útil: embora dirigido a familiares e amigos de pessoas em sofrimento emocional, reúne estratégias que o próprio leitor pode aplicar em si, promovendo maior equilíbrio entre dar compaixão aos outros e a si mesmo.
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