Travar a Obesidade: Do Compromisso Político à Prática Clínica
A obesidade é, hoje, um dos maiores desafios de saúde pública em Portugal. No passado dia 3 de março, antecipando o Dia Mundial da Obesidade, a Assembleia da República acolheu a conferência “Travar a Obesidade: se não agora, quando?”. O evento, promovido pela plataforma Recalibrar a Balança, serviu de palco para a apresentação de 13 recomendações estratégicas que visam inverter uma epidemia que afeta cerca de dois milhões de adultos no nosso país.
Como especialistas, sabemos que a obesidade não é uma escolha, mas sim uma doença crónica e complexa. Contudo, os dados discutidos no Parlamento revelam uma realidade económica e social alarmante: o impacto financeiro da obesidade em Portugal é estimado em 4,18 mil milhões de euros anuais. Este valor, que tende a crescer drasticamente, exige uma mudança urgente do paradigma de intervenção.
A minha intervenção nesta conferência focou-se na necessidade de tirar do papel as medidas formalmente previstas. A plataforma Recalibrar a Balança destacou três interpelações de ação urgente que os Médicos de Família devem acompanhar de perto:
- Operacionalização do Programa Nacional de Prevenção e Gestão da Obesidade: É imperativo que o modelo de governação deste programa, criado no âmbito da DGS, seja finalmente publicado e executado.
- Criação de Equipas Multidisciplinares de Obesidade: A integração de cuidados nas Unidades Locais de Saúde (ULS) é fundamental para garantir que o doente tenha acesso ao adequado tratamento.
- Comparticipação da Terapêutica Farmacológica: A publicação da Portaria que estabelece o regime excecional de comparticipação de medicamentos é uma questão de equidade. Atualmente, o acesso ao tratamento farmacológico eficaz é limitado pela capacidade económica do doente, o que acentua as desigualdades em saúde.
O Papel do Médico de Família
Para nós médicos de família, estas recomendações não são apenas diretrizes políticas; são ferramentas de trabalho. A organização inteligente do sistema, focada em resultados e no combate ao estigma, deve começar nos cuidados primários.
O diagnóstico precoce e a referenciação atempada para as equipas multidisciplinares são passos críticos. Não podemos continuar a tratar apenas as complicações da obesidade (como a diabetes ou a hipertensão); temos de tratar a doença primária. O adiamento de decisões práticas compromete a capacidade do SNS em dar uma resposta digna a quem vive com esta patologia.
A conferência na Assembleia da República demonstrou que existe um compromisso político crescente, mas a retórica deve transformar-se em ação. Travar a obesidade exige um modelo de cuidados de saúde estruturado, onde o médico de família é o pilar central. Se não agirmos agora, com base na evidência científica e no acesso equitativo ao tratamento, estaremos a hipotecar a sustentabilidade do nosso sistema e, acima de tudo, a qualidade de vida dos nossos doentes.
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