19 Jan, 2026

ECDC alerta para risco de resistência com uso de doxiciclina na prevenção de IST

O Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC ) alerta que o uso frequente de doxiciclina como profilaxia pós-exposição a infeções sexualmente transmissíveis pode contribuir para a resistência antimicrobiana, apesar da eficácia demonstrada na redução de clamídia e sífilis.

ECDC alerta para risco de resistência com uso de doxiciclina na prevenção de IST

O Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) alertou hoje para o risco de desenvolvimento de resistência antimicrobiana associado ao uso frequente de doxiciclina como profilaxia pós-exposição a infeções sexualmente transmissíveis (IST).

Tendo em conta a existência de diretrizes divergentes entre os Estados-membros da União Europeia, o ECDC elaborou um documento informativo destinado a apoiar ações de saúde pública em países ou regiões que ponderam a utilização desta profilaxia como parte de estratégias abrangentes e integradas de saúde sexual e prevenção de IST de origem bacteriana.

De acordo com o Centro Europeu, ensaios clínicos demonstraram que a doxiciclina administrada como profilaxia pós-exposição – numa dose única de 200 miligramas nas primeiras 24 horas e, no máximo, até 72 horas após uma relação sexual sem preservativo – foi eficaz na redução da incidência de clamídia e sífilis entre homens que fazem sexo com homens e mulheres transgénero.

A eficácia desta estratégia foi igualmente observada em contextos reais, quando integrada em programas abrangentes de saúde sexual dirigidos a pessoas com elevado risco de contrair uma infeção sexualmente transmissível.

No entanto, o ECDC sublinha que vários estudos indicam que a profilaxia pós-exposição com doxiciclina “pode contribuir para o desenvolvimento de resistência antimicrobiana” em bactérias específicas, não só entre utilizadores frequentes do medicamento, mas também entre não utilizadores, incluindo membros das mesmas redes sexuais, a comunidade mais ampla de homens que fazem sexo com homens ou mesmo a população em geral.

Na União Europeia e no Espaço Económico Europeu (UE/EEE), as recomendações existentes sobre esta profilaxia variam. Algumas autoridades de saúde defendem a sua utilização caso a caso, sobretudo para a prevenção da sífilis em homens que fazem sexo com homens e mulheres transgénero com elevado risco de infeção, enquanto outras desaconselham a sua utilização.

“Estas posições divergentes refletem a incerteza contínua quanto aos benefícios para a saúde pública desta intervenção profilática, ponderados face aos seus potenciais malefícios, particularmente o risco de aumento da resistência antimicrobiana”, refere o ECDC.

Independentemente das recomendações nacionais, o organismo europeu assinala que o uso de doxiciclina como profilaxia pós-exposição (doxiciclina-PEP) está a aumentar entre homens que fazem sexo com homens na UE, quer através de prescrição médica, quer por automedicação.

Em dezembro, o ECDC já tinha alertado que as barreiras ao acesso a medidas preventivas e a testes de infeções sexualmente transmissíveis, bem como a escassez de dados, estão a dificultar o controlo das epidemias de clamídia, gonorreia e sífilis.

Num relatório então divulgado, o Centro Europeu descreveu um panorama complexo das respostas nacionais e apontou para “aumentos acentuados entre as populações-chave”, destacando que as taxas de notificação de gonorreia aumentaram quase 300% entre 2014 e 2023 entre homossexuais, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens.

O documento referia ainda aumentos mais recentes entre os jovens, em particular mulheres entre os 20 e os 24 anos, com um crescimento de quase 200% nas taxas de notificação de gonorreia entre 2021 e 2023, sublinhando a “necessidade urgente” de respostas nacionais “robustas e inclusivas”.

O objetivo do documento agora divulgado pelo ECDC é apoiar ações de saúde pública em países ou regiões que estejam a considerar a doxiciclina-PEP como parte de estratégias integradas de saúde sexual e prevenção de infeções sexualmente transmissíveis bacterianas.

Nesse documento, o ECDC sintetiza as evidências disponíveis sobre a eficácia da doxiciclina-PEP na redução da incidência destas infeções, o seu impacto tanto na incidência das IST como na resistência antimicrobiana de alguns agentes patogénicos, bem como a extensão da sua utilização e o perfil das pessoas que a utilizam nos países da UE/EEE.

LUSA/SO

Notícia relacionada 

VIH/SIDA: “Estamos a assistir a um retrocesso comunicacional e a uma falta de informação da população em geral”

ler mais

Partilhe nas redes sociais:

ler mais