2025’ESC Guidelines. “Existem grandes novidades que vão mudar a prática clínica”
As guidelines da miocardite e pericardite, as da doença valvular e as das dislipidemias estarão em destaque no What´s New in 2025’ESC Guidelines. Lino Gonçalves, responsável pelo evento, avança que há “grandes novidades” e comenta alguns dos desafios que se enfrentam na prática clínica.

Qual o segredo para se conseguir organizar um evento em tão pouco tempo, já que o evento das guidelines da ESC decorreu no final de agosto e o trabalho clínico não para?
Ao longo dos anos fomos desenvolvendo progressivamente uma estrutura organizativa que é essencialmente constituída por profissionais de saúde do Serviço que, fora do seu horário, contribuem para este projeto. Apenas os audiovisuais são fornecidos por uma empresa externa. Atualmente, é relativamente fácil organizar uma reunião internacional anual desta natureza, pois a estrutura é basicamente sempre a mesma. Só temos de selecionar dentro do grupo de guidelines que em cada ano são publicadas pela Sociedade Europeia de Cardiologia, quais são as três que achamos mais interessantes para debater. Depois de as identificar, convidamos os presidentes dos respetivos comités de redação, dessas guidelines, para nos virem apresentar as grandes novidades e também convidamos os peritos nacionais nessas áreas para as debater, em profundidade, com os colegas internacionais.
Finalmente, são presença regular na nossa reunião os nossos patronos internacionais, que têm ligação à nossa Faculdade, os quais participam também ativamente no programa científico da reunião (Prof. Wael Jaber da Cleveland Clinic, Prof. Bernard Gersh da Mayo Clinic e Prof. Günter Breithardt da Universidade de Münster).
Quais as áreas/patologias mais relevantes?
Este ano, selecionámos as guidelines da miocardite e pericardite, as da doença valvular das dislipidemias. Todos estes temas têm uma elevada relevância clínica e interessam a múltiplas áreas de especialidades médicas para além da Cardiologia, como é o caso da Cirurgia Cardíaca, Medicina Interna, Medicina Geral e Familiar, Neurologia, Nefrologia e Endocrinologia.
Existem grandes novidades?
Sim, de facto existem grandes novidades que vão mudar a prática clínica do nosso dia-a-dia nestas três áreas. Não vou entrar em detalhes, não só porque seria demasiado fastidioso, mas também porque não quero diminuir a curiosidade que a antecipação das novidades poderia frustrar. Todas elas serão dissecadas em pormenor. Estão, pois, reunidas as condições para que os participantes se sintam plenamente satisfeitos ao conseguir aceder à atualização do melhor e mais atual conhecimento médico com impacto na prática clínica do nosso dia-a-dia, apresentado e discutido pelos melhores especialistas, de uma forma viva e esclarecedora, num ambiente naturalmente propício à aprendizagem.
Vão começar por abordar a miocardite e a pericardite. Atualmente, o que é mais preocupante na prática clínica nestas duas entidades?
Existem múltiplas áreas de preocupação, mas seguramente que a presença de disfunção ventricular significativa ou progressiva, a deteção de arritmias graves (ventriculares sustentadas, bloqueios de alto grau, risco de morte súbita) são motivo de grande preocupação. O desenvolvimento de miocardite fulminante, mas também a falha de resposta aos tratamentos iniciais, são motivo de grande atenção. A identificação das etiologias subjacentes a estas patologias são motivo de grande interesse, assim como a identificação de etiologias tratáveis ou agressivas (ex: miocardite autoimune, sarcoidose, infeção bacterial).
A perceção da evolução destas doenças para complicações estruturais ou hemodinâmicas (constrição, tamponamento) são igualmente muito importantes para a prática clínica. Existem também outras questões relacionadas com o prognóstico que são importantes discutir: qual a extensão da lesão no músculo cardíaco? qual a localização do LGE? Deteta-se a presença de fibrose miocárdica? Está presente um envolvimento septal? E qual a genética subjacente?
“Nesta guideline, de 2025, um dos principais desafios é a sugestão da ampliação das indicações de TAVI, diminuindo a idade-limite para ≥ 70 anos em anatomias favoráveis”
Estas duas condições clínicas podem ser causadas por vírus, nomeadamente influenza. Durante o inverno, nota-se que há mais diagnósticos associados à gripe ou a covid-19?
Durante o inverno, há de facto um aumento na incidência de miocardite e pericardite e isso está associado principalmente ao aumento de infeções respiratórias virais, como a gripe (influenza) e a covid-19. Ambas as doenças podem causar essas complicações, mas a covid-19 tem mostrado, especialmente nos últimos anos, maior associação com miocardite e pericardite do que a gripe. As causas para esta situação prendem-se com a maior circulação de vírus respiratórios (como a influenza, VSR e SARS-CoV-2). É preciso também notar que o clima frio favorece a transmissão viral e a aglomeração de pessoas em locais fechados, o que facilita o contágio.
Relativamente às doenças valvulares, que desafios enfrentam, tendo em conta que a população está cada vez mais envelhecida?
Nesta guideline, de 2025, um dos principais desafios é a sugestão da ampliação das indicações de TAVI, diminuindo a idade-limite para ≥ 70 anos em anatomias favoráveis, mesmo em pacientes com risco cirúrgico baixo/moderado, para oferecer uma opção menos invasiva em idade avançada, o que vai sobrecarregar as listas de espera que já são longas.
É também desafiante efetuar decisões compartilhadas (com o paciente e respetivas famílias, para além da discussão em equipe multidisciplinar), tendo em consideração as preferências, riscos e benefícios no contexto específico dos pacientes idosos. Não é fácil o refinamento do processo de seleção com ênfase no planeamento a longo prazo — ter de fazer escolhas que considerem não apenas o procedimento imediato, mas também intervenções futuras (ex: tipo de válvula ou possibilidade de re-abordagens).
Não é também linear o conceito das redes de atendimento especializado (Heart Valve Centres e Centros de alto volume) para que os casos complexos sejam manuseados de forma ótima e em segurança. A importância da integração de imagem multimodal como padrão para diagnóstico, caracterização anatómica e planeamento periprocedimento continua, em 2025, a ser desafiante. A atualização das definições de deterioração valvular (SVD) e a padronização dos critérios de disfunção valvular pós‑procedimento são absolutamente fundamentais para uma prática clínica de qualidade.
Finalmente, continua a ser controversa a determinação do melhor momento de intervenção, o qual deverá levar em linha de conta a avaliação do doente em múltiplos aspetos: a fragilidade, o risco de sangramento, as comorbidades e o uso de biomarcadores (como BNP/NT‑proBNP).
“As guidelines da ESC/EAS de 2025 reforçam fortemente o papel das estatinas como base da terapia lipídica, para além disso, promovem o uso de terapias complementares, quando necessário”
O diagnóstico destas patologias deve ser mais precoce ou já se começa a referenciar os doentes mais cedo para os serviços de Cardiologia?
Em pacientes jovens ou com bom prognóstico costuma-se aguardar pelo aparecimento de sintomas ou disfunção ventricular para intervir. Mas em doentes idosos, esperar demasiado pode deixar o coração irrecuperável ou tornar a operação muito arriscada. As guidelines de 2025 apontam para um conceito de intervenção precoce em casos selecionados (por exemplo, em estenose aórtica grave assintomática com características de alto risco). No entanto, o momento ótimo de intervir é mais difícil de estabelecer em idosos frágeis ou com múltiplas comorbidades.
Vão abordar, ainda, as guidelines das dislipidemias. O colesterol continua a ser um problema de saúde menosprezado pela população, sobretudo numa época em que as redes sociais diabolizam as estatinas?
Sim, o colesterol continua a ser um problema de saúde menosprezado pela população, muitas vezes por falta de sintomas, falta de perceção de risco e influência de narrativas simplistas nas redes sociais. A demonização das estatinas nas redes sociais é um dos obstáculos mais difíceis de ultrapassar — e tende a gerar medo, diminuição da adesão à terapêutica e escolhas baseadas em mitos, não em evidências.
As guidelines da ESC/EAS de 2025 reforçam fortemente o papel das estatinas como base da terapia lipídica, para além disso, promovem o uso de terapias complementares, quando necessário, rejeitam suplementos sem evidência e estimulam uma abordagem intensiva e proativa, especialmente em situações de risco elevado. Para combater este grave problema, é necessário desenvolver um esforço conjunto de profissionais de saúde, entidades reguladoras, comunicação em saúde e divulgação de informação com conteúdo confiável nas redes sociais.
No final irão ter uma conferência com Bernard Gersh. Qual será o tema?
O tema que o Prof. Gersh vai abordar na sua keynote lecture é muito interessante e atual: “Risk stratification in chronic CAD: Anatomy, ischemia or both.“Things may not be as they always seem”.
Maria João Garcia












