27 Mar, 2025

“Os médicos de família devem ter um papel ativo na construção das soluções para os problemas dos CSP”

No 42.º Encontro Nacional da APMGF, a sessão de abertura marcou o início de um debate reflexivo sobre as mudanças e os desafios do SNS. Nuno Jacinto, presidente da APMGF, Carlos Cortes, bastonário da Ordem dos Médicos, e Ana Paula Martins, ministra da Saúde, sublinharam a necessidade de um olhar crítico e inovador para consolidar os cuidados de saúde primários (CSP) enquanto base do sistema de saúde.

“Os médicos de família devem ter um papel ativo na construção das soluções para os problemas dos CSP”

Nuno Jacinto abriu a sessão realçando que, “hoje em dia vivemos num tempo em que a mudança é uma constante” e sublinhou a dificuldade de aferir o impacto real das alterações no setor da saúde. Ao relembrar diversas reformas e reestruturações ao longo das últimas décadas, enfatizou que “os CSP não são uma nota de rodapé, são a base do sistema”. Para ele, é imprescindível que os especialistas em Medicina Geral e Familiar sejam ouvidos e envolvidos na definição de soluções, alertando para que “os médicos de família devem ter um papel ativo na construção das soluções para os problemas dos CSP.”
O presidente da APMGF referiu ainda que a imagem que passamos é a de termos “um sistema de saúde desgovernado, rumo ao abismo”, evidenciando o sentimento de desorientação que ronda as constantes mudanças. Para terminar, deixou uma frase de esperança aos presentes: “é hora de voltar a sonhar e a acreditar. Que este seja o nosso recomeço e o nosso deslumbramento. Bem-vindos à MGF, bem-vindos à melhor especialidade do mundo”

MGF: “herança direta dos princípios da medicina hipocrática”

O bastonário Carlos Cortes repartiu a sua intervenção em três pontos, começando por enaltecer o papel central da ciência, “um pilar absolutamente fundamental da saúde de Portugal e do mundo”. Recordou que “nunca devemos deixar de a fazer”, sublinhando a importância da medicina baseada na evidência e a necessidade de os médicos serem portadores da verdade e da transparência.
No que toca ao “deslumbramento” (tema central deste encontro), expressou a sua admiração pelo percurso da Medicina Geral e Familiar, afirmando que “a MGF é a herança direta dos princípios da medicina hipocrática”, onde o contacto humano e a proximidade com o doente são valores insubstituíveis. E salientou: “Continuo deslumbrado com a MGF. Façamos a nossa parte para não deixar que a burocracia e o hospitalocentrismo minem a essência deste trabalho.”
Por fim, dirigiu um recado direto à ministra: “Senhora ministra da Saúde, não deixe que os sucessivos governos continuem a falar da prevenção e da promoção da saúde sem agir”, num apelo à manutenção e valorização da prática médica tradicional e humanizada.

 

Transformação e sustentabilidade do SNS

A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, apresentou uma perspetiva de reforma e adaptação do SNS, afirmando que “o SNS atravessa e vem atravessando uma fase de profunda transformação”, com o objetivo de reforçar o acesso universal e a equidade. Destacou a importância dos CSP, referindo que “são a pedra angular de qualquer sistema de saúde organizado”, e frisou a necessidade de investir mais na prevenção, sobretudo após anos de excessivo enfoque no tratamento da doença.
A ministra ainda alertou para o facto de que “não podemos tratar os migrantes de forma discriminatória”, enfatizando a atenção que deve ser prestada à saúde de todos os cidadãos. Para Ana Paula Martins, repensar o modelo organizacional das USF – nomeadamente a generalização do modelo B – é fundamental para adaptarmos as estruturas às necessidades atuais e garantirmos a sustentabilidade financeira do SNS. Por outro lado, é, segundo refere, preciso dar centralidade aos CSP no modelo Unidade Local de Saúde. “Temos de descobrir em conjunto como fazê-lo”, observa.

 

A médica de família Nina Monteiro, secretária da Direção da APMGF, esteve responsável pelas apresentações dos intervenientes desta sessão.

Sílvia Malheiro 

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