“Os médicos de família devem ter um papel ativo na construção das soluções para os problemas dos CSP”
No 42.º Encontro Nacional da APMGF, a sessão de abertura marcou o início de um debate reflexivo sobre as mudanças e os desafios do SNS. Nuno Jacinto, presidente da APMGF, Carlos Cortes, bastonário da Ordem dos Médicos, e Ana Paula Martins, ministra da Saúde, sublinharam a necessidade de um olhar crítico e inovador para consolidar os cuidados de saúde primários (CSP) enquanto base do sistema de saúde.

Nuno Jacinto abriu a sessão realçando que, “hoje em dia vivemos num tempo em que a mudança é uma constante” e sublinhou a dificuldade de aferir o impacto real das alterações no setor da saúde. Ao relembrar diversas reformas e reestruturações ao longo das últimas décadas, enfatizou que “os CSP não são uma nota de rodapé, são a base do sistema”. Para ele, é imprescindível que os especialistas em Medicina Geral e Familiar sejam ouvidos e envolvidos na definição de soluções, alertando para que “os médicos de família devem ter um papel ativo na construção das soluções para os problemas dos CSP.”
O presidente da APMGF referiu ainda que a imagem que passamos é a de termos “um sistema de saúde desgovernado, rumo ao abismo”, evidenciando o sentimento de desorientação que ronda as constantes mudanças. Para terminar, deixou uma frase de esperança aos presentes: “é hora de voltar a sonhar e a acreditar. Que este seja o nosso recomeço e o nosso deslumbramento. Bem-vindos à MGF, bem-vindos à melhor especialidade do mundo”
MGF: “herança direta dos princípios da medicina hipocrática”
O bastonário Carlos Cortes repartiu a sua intervenção em três pontos, começando por enaltecer o papel central da ciência, “um pilar absolutamente fundamental da saúde de Portugal e do mundo”. Recordou que “nunca devemos deixar de a fazer”, sublinhando a importância da medicina baseada na evidência e a necessidade de os médicos serem portadores da verdade e da transparência.
No que toca ao “deslumbramento” (tema central deste encontro), expressou a sua admiração pelo percurso da Medicina Geral e Familiar, afirmando que “a MGF é a herança direta dos princípios da medicina hipocrática”, onde o contacto humano e a proximidade com o doente são valores insubstituíveis. E salientou: “Continuo deslumbrado com a MGF. Façamos a nossa parte para não deixar que a burocracia e o hospitalocentrismo minem a essência deste trabalho.”
Por fim, dirigiu um recado direto à ministra: “Senhora ministra da Saúde, não deixe que os sucessivos governos continuem a falar da prevenção e da promoção da saúde sem agir”, num apelo à manutenção e valorização da prática médica tradicional e humanizada.

Transformação e sustentabilidade do SNS
A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, apresentou uma perspetiva de reforma e adaptação do SNS, afirmando que “o SNS atravessa e vem atravessando uma fase de profunda transformação”, com o objetivo de reforçar o acesso universal e a equidade. Destacou a importância dos CSP, referindo que “são a pedra angular de qualquer sistema de saúde organizado”, e frisou a necessidade de investir mais na prevenção, sobretudo após anos de excessivo enfoque no tratamento da doença.
A ministra ainda alertou para o facto de que “não podemos tratar os migrantes de forma discriminatória”, enfatizando a atenção que deve ser prestada à saúde de todos os cidadãos. Para Ana Paula Martins, repensar o modelo organizacional das USF – nomeadamente a generalização do modelo B – é fundamental para adaptarmos as estruturas às necessidades atuais e garantirmos a sustentabilidade financeira do SNS. Por outro lado, é, segundo refere, preciso dar centralidade aos CSP no modelo Unidade Local de Saúde. “Temos de descobrir em conjunto como fazê-lo”, observa.

A médica de família Nina Monteiro, secretária da Direção da APMGF, esteve responsável pelas apresentações dos intervenientes desta sessão.

Sílvia Malheiro
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