
Interna do 4.º ano de Medicina Geral e Familiar - USF Ruães (ULS Braga)
Abordagem da sexualidade na consulta de Medicina Geral e Familiar
Problemática
A saúde sexual é definida pela OMS como “um estado de bem-estar físico, emocional, mental e social”, constituindo parte essencial da vida humana. É premente inclui-la na visão holística e complexa da saúde do paciente, no entanto, existe uma enorme falha na abordagem deste tema em consulta, tanto da parte do próprio utente, como da parte do médico. Isto pode dever-se ao facto de ainda constituir um assunto tabu, à falta de conhecimento ou a fatores externos, como o reduzido tempo de consulta.
Existem poucos estudos na população portuguesa relativamente à prevalência da disfunção sexual, mas estima-se que possa afetar entre 20% a 30% dos homens e entre 30% a 45% das mulheres, mais uma vez destacando que é um problema frequente, que merece o tempo e a atenção do médico. Mas é importante ressalvar que nem todas as dificuldades e insatisfações sexuais são classificadas como disfunções, por isso deve ser feita uma investigação aprofundada e contínua.
Definição e causas
A disfunção sexual é definida pelo DSM-V como uma perturbação/problema numa ou mais fases do ciclo de resposta sexual, ou ocorrência de dor associada à relação sexual, que implica stress ou sofrimento pessoal significativo, com a duração de pelo menos 6 meses. Pode ser classificada, conforme as suas caraterísticas, em disfunção do desejo (mais prevalente nas mulheres), da excitação (mais prevalente nos homens, na forma de disfunção erétil), do orgasmo, ou associada a dor.
Existem várias causas etiológicas: comorbilidades (endocrinológicas, cardiovasculares, psiquiátricas, ginecológicas), iatrogénicas (por causa cirúrgica ou fármacos, destacando-se o papel dos antidepressivos), fatores individuais (história sexual anterior, problemas relacionados com a imagem corporal e autoconceito), fatores da relação (estabilidade e satisfação conjugal, intimidade) e até fatores culturais, sociais ou religiosos.
Como abordar a sexualidade na consulta de Medicina Geral e Familiar (MGF)?
Primeiramente, deve ser promovido um ambiente confortável e de confiança, sempre assegurando a confidencialidade do doente e nunca fazendo julgamentos! Auxilia usar o mesmo tipo de terminologia usada pelos utentes, mas as questões devem ser claras e diretas. Exemplos de questões que podem ser feitas na abordagem inicial são: “Atualmente tem relações íntimas/relações sexuais?”, “Está ou está o/a seu/sua companheiro/a com alguma dificuldade sexual nesta fase?”, “Tem algum problema ou dificuldade sexual que gostasse de abordar?”. Depois de ultrapassada a introdução do assunto, o paciente vai sentir-se progressivamente mais confortável e vai ser possível explorar cuidadosamente a sua história clínica.
Diagnóstico
É parte fundamental para o diagnóstico conhecer os antecedentes do indivíduo e a caracterização da dificuldade e do seu contexto: início e duração; descrição detalhada das dificuldades sentidas; espaço físico/ambiente onde a interação sexual decorre; acontecimentos prévios; exploração de causas secundárias e de possíveis agentes stressores que poderão antecipar e/ou acompanhar a interação sexual. O exame físico, através da avaliação ginecológica ou urológica, é também essencial, para descartar alterações anatómicas. Os exames laboratoriais ou de imagem têm um papel se houver suspeita de etiologia orgânica (podem ser pedidas análises à função tiroideia, perfil glicémico, perfil lipídico, testosterona total e livre, SHBG, sDHEA, estradiol, prolactina; exames de imagem, como o ecodoppler peniano ou ecografia ginecológica).
Tratamento
Os tratamentos dependem do problema apresentado e de quem vai à consulta. Alguns dos tratamentos relativamente acessíveis à implementação na consulta de MGF são:
– Educação sexual – desmistificar ideias pré-concebidas; conversar sobre preliminares, brinquedos sexuais, exploração do corpo/sensações do próprio e do parceiro; reforçar a comunicação entre o casal.
– Intervenção nas medidas de estilo de vida e controlo de comorbilidades cardiovasculares.
– Alteração de fármacos – redução da dose ou suspensão (caso seja possível) do fármaco possivelmente iatrogénico. Nota que existem antidepressivos mais favoráveis para a esfera sexual, como a mirtazapina, o bupropiom, a agomelatina e a vortioxetina.
– Melhoria das condições físicas para a excitação e orgasmo – dar dicas para promover um ambiente propício a uma relação sexual confortável e prazerosa; destacar mais uma vez o papel dos preliminares; ensinar técnicas para retardar a ejaculação; no caso de disfunção erétil, considerar o uso de inibidores de fosfodiesterase por via oral.
– Tratamento da dor – uso de lubrificantes, hidratantes vaginais, estrogénios tópicos ou fisioterapia.
Noutros casos, são necessárias intervenções mais complexas e demoradas (tratamento com dispositivos; terapia sexual ou conjugal), sendo necessário o encaminhamento para consulta especializada de Medicina Sexual.
Conclusão
Em suma, a consulta de MGF pode ser um espaço ótimo para esclarecer dúvidas, ultrapassar mitos/corrigir ideias erradas e um sítio de obtenção de informação correta e segura, que poderá ajudar a identificar e intervir em situações patológicas do foro sexual.





