A Primeira Lição
Psicólogo clínico. Presidente da Olhar – Associação pelo Prevenção e Apoio à Saúde Mental e Laços Eternos – Associação de Apoio a pais e irmãos em luto. Parceiro direto do projeto Modernamente

A Primeira Lição

“O médico é alguém que ajuda o outro, que sabe olhar o outro, que sabe ler nos olhos e tocar no corpo.” (1) Não há síntese mais perfeita do que é ser médico. Esta modesta frase, é dita por Sobrinho Simões, na página 24, do recente livro de Luís Osório. Quando as coisas são ditas assim, sem academismos e pretensões intelectuais, conseguimos perceber a importância que é investir no desenvolvimento da medicina e na valorização dos seus interlocutores.

A medicina é uma ciência sénior. Transposta consigo as dores e a sabedoria de um mundo, onde as pessoas carregam, entre outras coisas, a doença não como uma sombra, mas condimento da própria vida. E, se há cérebros humanos que pensam em guerras, em poder, também há mentes debruçadas no estudo das causas de existirmos e convivermos com a falta de saúde e na importância do tratamento e da cura.

A doença é um mal que nos ensina a cuidar da saúde. Só assim podemos olhar para o corpo, para o seu interior, não como uma caverna sombria e interdita, mas como uma obra em busca de perfeição. Assim, “abrindo” o corpo à ciência e estimulando o cérebro a estudar, a especular, a experimentar, a investigar, chegamos aos nossos dias com uma medicina desenvolvida, mais próxima dos doentes. E, no futuro que já é presente, a medicina irá estar, ainda mais, ao lado da prevenção, investindo numa literacia individual maior sobre como cuidar responsavelmente de si mesmo.

A medicina de hoje, reflete, no entanto, um estado de alguma agonia. Sinal dos tempos, podemos dizer. Hoje, o que é que está bem? pergunta-se. Mas o pessimismo não aponta para soluções eficazes. A medicina, hoje, afirma-se como uma ciência que aceita a tecnologia de ponta como uma solução e não um recurso oportunista, que pode auxiliar o trabalho dos médicos.

No entanto, por contradição, o médico hoje tem muito mais trabalho, é muito mais solicitado. Trabalha ligado ao computador, mas é-lhe exigido ser humano, relacionar-se “à antiga” com os doentes. E, por contraste, o doente está aparentemente mais informado, quase sempre, e exige, solicita mais atenção e uma comunicação “olhos nos olhos”, que toda a verdadeira consulta médica solicita.

Esta aprendizagem de relação está para além de causas economicistas e da excelente formação que os médicos recebem na faculdade. É uma aprendizagem que só se instala nos cérebros destes profissionais se adquirirem, em paralelo, um conhecimento do significado intrínseco do que é salvar vidas, amar o ser humano no abstrato, adquirir ferramentas de sobrevivência emocional para lidar com o fracasso, os limites do que é insuportável, a noção da imponderabilidade e incapacidade de prolongar a vida para lá dos seus limitados contornos físicos.

Aceitar, não em nome da sã humildade, que o trabalho do médico é, mas valorizar em primeiro lugar, o conhecer-se a si próprio, nas sensíveis, mas fundamentais idiossincrasias e colocar no outro não só a sua sabedoria, dedicação, interesse genuíno em tratar, mas também a humanidade inteira que traz dentro de si, quando escuta aquele que é o seu doente.

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