Saúde Mental e a medicina
Psicólogo clínico, Presidente da Olhar – Associação pela Prevenção e Apoio à Saúde Mental e da Laços Eternos/ Associação de Apoio a Pais e Irmãos em Luto Parceiro direto do projeto Modernamente

Saúde Mental e a medicina

Talvez não fosse uma má iniciativa levar a psicologia para os corredores hospitalares, não com a intenção de psicologizar a cabeça dos médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde, mas no intuito de influenciar num sentido positivo, ou seja, proporcionar-lhes uma visão complementar (e não alternativa), do ganho individual que seria, adicionarem ao seu trabalho tão exigente, e não raras vezes, demasiado cru e sobre-humano, um acessório mental/emocional, que iria aliviar as suas prestações e o seu dia-a-dia, dentro e fora do trabalho.

Que não se veja a psicologia como uma concorrencial ciência de cura, porque a sua função é outra. Isto é, num hospital, ou noutro lugar onde a doença é o mote de trabalho, é impossível, para um médico, um enfermeiro, pessoal auxiliar, conseguirem responder solidária e compreensivamente a todas as solicitações.

Um profissional de bata branca não pode continuar a agravar a sua energia em nome do desgaste permanente, das solicitações constantes, do excesso de horas extras. É necessário introduzir um lugar de diálogo interno e a terapia, por exemplo, poderia ser uma alternativa. Mas não só. É preciso incluir práticas sociais de convívio, atividades lúdicas ou desportivas e momentos de evasão e um espaço ergonómico adequado, dentro e fora dos gabinetes de consultas.

A medicina viveu sempre fechada em si mesma. E, devido a essa postura autoinfligida, adquiriu um estatuto ímpar na sociedade. Nada contra, muito pelo contrário. Em nome da medicina, da investigação, do trabalho de tratar, curar, salvar a vida humana, a medicina adquiriu um desenvolvimento em qualidade e funcionalidade ótimos. Mas, o médico não é mais aquela personagem romantizada, onde o altruísmo atinge uma imagem de “anjo salvador”, afastada da realidade.

Porque o médico é um ser humano, ele precisa de ser cuidado e a psicologia responde com eficácia, através da sua experiência comprovada, a essa necessidade, quase sempre recalcada pelos próprios médicos. Eles são, e é compreensível que assim o seja, os maiores adversários de si mesmos. Porque lidam com a doença dos outros e dialogam com o instinto de sobrevivência a cada segundo dos seus dias. Mesmo quando estão em repouso.

Com uma aliança entre a medicina e a psicologia (e a psiquiatria, inclusive), o foco na saúde mental seria menos dispendioso, porque, em muitas situações, falar-se-ia de Saúde, e esta realidade de holísticas pertenças, aliviaria o erário público e distribuiria benefícios aos médicos e aos seus utentes.

Um médico, um enfermeiro e restante pessoal ligado à saúde, ao se deixarem acolher num espaço psicológico, adquiririam um melhor conhecimento de lidar com as emoções “doentes” vindas de fora e redimensionariam as suas próprias realidades internas. Saúde não é só não estar doente. Saúde é cuidar da mente, do bem-estar pessoal, afirmar um melhor enquadramento pessoal, social, comunitário, profissional.

Não estou a defender a psicologização da medicina. Nem faria sentido. Nem devemos psicologizar a sociedade. A psicologia existe, não tem nada a provar, nem os seus profissionais. Mas, encarar de um modo leviano, um SNS que está adoecido; o escalar de uma medicina privada, mais empresarial e que pretende, não substituir, mas ocupar, um lugar-charneira nos destinos da saúde em Portugal; uma medicina cada vez mais tecnológica em que a figura do João Semana está enterrada; o próprio prestígio da profissão está num processo de mudança, enfim, olhar para tudo isto e querer acreditar que, sem redimensionar e atualizar o discurso clínico, mantendo o trabalho dos psicólogos como algo pendular e não essencial, é querer continuar a estar no lado errado, é continuar a esbanjar dinheiro, a esticar a iliteracia dos portugueses para com os cuidados primários, é encher as urgências, esgotar os limites humanos.

 

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