8 Jul, 2020

Utentes não conseguem marcar consultas nos centros de saúde

Centenas de telefonemas ficam por atender e Associação de Médicos de Família estima que, nos últimos três meses, ficaram por fazer 15 mil diagnósticos de cancro

As novas regras estipuladas devido à pandemia da Covid-19 trouxeram vários constrangimentos aos utentes que precisam de marcar consultas nos centros de saúde. Os utentes têm agora de marcar as consultas por telefone antes de se poderem deslocar à unidade, contudo, há centenas de telefonemas que ficam por atender devido à incapacidade das linhas, de acordo com o Jornal de Notícias.

Uma das alternativas oferecidas aos utentes é a marcação de consultas por email, que funciona melhor, mas esta prova não ser uma boa alternativa para a população mais idosa. De acordo com o JN, na área do cidadão, no Portal SNS, há centros de saúde sem datas de agendamento disponíveis.

Em declarações ao JN, a dirigente da Federação Nacional dos Médicos (FNAM), Rosa Ribeiro, explica que “a maioria dos centros de saúde não tem central telefónica, tem duas ou três linhas, que quando estão ocupadas dão sinal de chamada. Por isso, a sensação de que ninguém atende.” Os utentes têm portanto “razão de queixa quando dizem que ninguém atende”, refere ainda a dirigente da FNAM.

O presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMG), Rui Nogueira, alerta para o impacto que as consultas por fazer têm no diagnóstico de doenças, nomeadamente, no diagnóstico do cancro. Estima-se que tenham ficado por realizar cerca de 15 mil diagnósticos de cancro, durante o período da pandemia.

Ao Jornal de Notícias, Rui Nogueira disse ainda haver cerca de um milhão de doentes crónicos que precisam de seguimento e que só agora estão a ser recuperados.

 

Falta de resposta às chamadas cria “desacatos”

 

A falta de resposta às chamadas está a criar “desacatos” à porta dos centros de saúde, uma vez que os utentes se deslocam às unidades na tentativa de marcarem as suas consultas presencialmente. Rosa Ribeiro realça que “o doente estava habituado a aparecer à porta do centro de saúde” mas que agora “não pode ser assim.”

O problema da falta de centrais telefónicas que registem a entrada das chamadas e permitam a sua devolução, não é um problema criado pela pandemia da Covid-19, e já foi reportado à tutela há muito tempo. A pandemia veio agravar o problema e “mostrou assimetrias regionais e locais e diferenças de liderança”, referiu Diogo Urjas, presidente da Associação Nacional de Unidades de Saúde Familiar, em declarações ao JN.

A recuperação da atividade perdida nos últimas meses é dificultada pelo facto de que as equipas de saúde familiar têm de ligar diretamente para os casos suspeitos de Covid-19 e doentes assintomáticos ou com sintomas ligeiros, que estão em vigilância no domicilio, o que sobrecarrega os profissionais. Em declarações ao JN, Rui Nogueira diz que o procedimento é “excessivo” e “redundante”. Rosa Ribeiro acrescenta que os médicos chegam a fazer “50 telefonemas por dia, o que é uma loucura.”

Entre março e maio deste ano, ficaram por realizar 3,45 milhões de consultas presenciais, face ao mesmo período de 2019.

AR/SO

 

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