4 Fev, 2026

“Tem de haver uma reviravolta completa na Oncologia em Portugal”

No âmbito do Dia Mundial do Cancro, que se assinala a 4 de fevereiro, Vítor Veloso, cirurgião oncológico e presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC), falou ao SaúdeOnline sobre os desafios da prática clínica oncológica em Portugal e o papel da Liga no apoio aos doentes e aos profissionais de saúde.

“Tem de haver uma reviravolta completa na Oncologia em Portugal”

Vítor Veloso traça um retrato honesto da realidade nacional: da burocracia que limita o contacto com os doentes aos avanços médicos que prometem transformar os tratamentos, passando pela importância da humanização, da investigação e do voluntariado. O médico aborda as mudanças necessárias no SNS, os desafios dos sobreviventes de cancro e a urgência de colocar o doente no centro de todas as decisões.

 

Como define o atual estado da luta contra o cancro em Portugal?
Sempre houve, a nível nacional e sobretudo a nível governamental, planos estratégicos de luta contra o cancro, mas, desde há mais de 30 anos, nunca foram consequentes. Neste momento, fazem-se atos isolados, não coordenados nem integrados, o que faz com que não exista uma verdadeira luta contra o cancro no nosso país.

 

Quais são os principais desafios que os profissionais de saúde enfrentam na prática clínica oncológica em Portugal?
Os profissionais de saúde enfrentam vários desafios. Quanto a mim, os maiores são, em primeiro lugar, a carga burocrática, que retira aos doentes a atenção que merecem, conduzindo à desumanização. Além disso, o número de doentes é crescente e os profissionais de saúde são insuficientes no âmbito do Serviço Nacional de Saúde.

 

Esta desumanização está relacionada com a burocracia e a consequente falta de tempo para os doentes?
Exatamente. Se estão no computador durante a consulta, os médicos não têm tempo para uma comunicação adequada com o doente. Isso dá aso à falta de empatia entre o doente e o profissional de saúde. As pessoas queixam-se, muitas vezes, de que os médicos não olham para o doente. É dramático quando se fala em humanização dos cuidados de saúde.

“Os profissionais de saúde enfrentam vários desafios. Os maiores são, em primeiro lugar, a carga burocrática, que retira aos doentes a atenção que merecem, conduzindo à desumanização”

 

Isto acontece um pouco com toda a medicina e não apenas com a área da Oncologia…
Sim, mas a área da Oncologia acompanha doentes muito especiais, que merecem atenção acrescida. São mais carentes do que outros doentes.

 

Na sua experiência como cirurgião oncológico, quais foram os progressos mais significativos no diagnóstico e tratamento oncológico e quais ainda carecem de atenção?
Houve progressos muito significativos. Não se vai descobrir a cura do cancro de um momento para o outro. Estamos numa escadaria: já subimos alguns degraus, mas ainda faltam muitos outros.

A verdade é que houve avanços importantes, nomeadamente a nível da cirurgia, que se tornou cada vez menos invasiva e mais conservadora; e da radioterapia, que está mais específica, com radiações que incidem sobretudo sobre o tumor, e não tanto sobre os tecidos circundantes, como acontecia anteriormente.

Os novos equipamentos trazem muitos benefícios relativamente ao tratamento e, sobretudo, ao facto de os tecidos em redor do tumor sofrerem menos. Com o novo equipamento que vai estar ao serviço do IPO do Porto, vamos ter muitas vantagens nesse sentido.

Por último, na quimioterapia, houve grandes avanços nestas terapêuticas medicamentosas, bem como na imunoterapia. Os medicamentos inovadores, numa fase inicial, são muito dispendiosos tendo de haver ponderação a este respeito.

 

Vai haver um novo equipamento no IPO do Porto?
Sim, a Protonterapia. Será um equipamento muito sofisticado, que permitirá mais curas e, sobretudo, evitará a destruição de tecidos sãos. Tem evidência real e precisão relativamente ao tumor. Custa cerca de 120 milhões de euros e penso que estará disponível dentro de dois a três anos, servindo todo o país.

 

Muitas vezes, o problema está no diagnóstico tardio. Quais são, na sua perspetiva, os pontos críticos na identificação precoce do cancro que ainda não estão resolvidos no SNS?
O diagnóstico tardio é um dos problemas do nosso Serviço Nacional de Saúde, na medida em que a acessibilidade é difícil. O acesso ao médico de família é complicado e, posteriormente, a referenciação para os hospitais e para consultas de especialidade é também demorada.

A nível do diagnóstico, infelizmente, o SNS não consegue realizar todos os exames de forma atempada. É necessário recorrer ao setor privado, que tem sérias limitações na marcação de grande parte dos exames do SNS, assim como da ADSE e dos seguros.

Existem também esperas no tratamento, nomeadamente na cirurgia, na radioterapia e, por vezes, até no hospital de dia.

 

Portanto, o problema não passa sobretudo pelo rastreio ou pelo diagnóstico…
Não, passa por tudo, que está retardado. E, dado o grande número de doentes e a falta de profissionais e de instalações, muitas vezes estas situações são toleradas pelos próprios conselhos de administração dos hospitais.

 

Quais são as grandes mudanças necessárias no sistema de saúde para melhorar os desfechos oncológicos, por exemplo, nos próximos 10 anos?
É necessária uma grande luta, tanto ao nível dos profissionais de saúde — que têm de ser em maior número — como da acessibilidade, que tem de ser melhor e mais rápida. Só assim o doente sairia beneficiado. Portanto, é necessária uma reestruturação profunda, muita resiliência e uma grande luta. É preciso coragem para esta mudança.

 

A investigação, as terapêuticas disponíveis e as novas tecnologias têm avançado muito rapidamente. O que o entusiasma mais no futuro da investigação e do tratamento do cancro e quais são os obstáculos que ainda precisamos de ultrapassar?
Estou francamente satisfeito com alguns avanços, não só na radioterapia e na cirurgia, mas também no tratamento médico, como a quimioterapia, a imunoterapia e outras terapêuticas avançadas. Estas representam uma melhoria significativa e permitem a cura de doenças que, há cinco ou dez anos, não seria possível tratar, garantindo uma sobrevivência com boa qualidade de vida ou mesmo a cura.

Há um entusiasmo muito grande. É evidente que estas terapêuticas são extremamente caras, mas penso que, dentro de um espaço de tempo relativamente aceitável, estarão disponíveis para a grande maioria dos doentes oncológicos.

 

Tendo em conta que existem cada vez mais sobreviventes de cancro, considera que recebem o acompanhamento adequado?
Neste momento, há cerca de 400 mil sobreviventes de cancro a nível nacional. Nos primeiros cinco anos, os doentes são seguidos a nível hospitalar. No entanto, seria desejável que, após esse período, fossem acompanhados pelos médicos de família. Essa prática ainda não existe, mas considero que é um dos pontos importantes na reestruturação do sistema.

 

Tendo acompanhado inúmeros casos ao longo de décadas, que desafios biopsicossociais recebe mais frequentemente dos doentes?
Não só como profissional dedicado à Oncologia durante dezenas de anos, mas também a nível da LPCC, verifico que os apoios psicológico e emocional são cada vez mais importantes para os doentes. Por essa razão, a Liga disponibiliza consultas gratuitas de Psico-Oncologia para os doentes com cancro e respetivas famílias.

Existe ainda o aspeto social, que a nível nacional é cada vez mais relevante. Temos cerca de 2 milhões e 300 mil pessoas em risco de pobreza. Neste contexto, quando há um doente com cancro, muitas vezes apenas uma pessoa trabalha na família, o que reduz o rendimento para cerca de 60%. Naturalmente, a LPCC presta apoio no pagamento da renda de casa, da luz, da água, dos transportes, dos medicamentos e da alimentação.

 

“Estou francamente satisfeito com alguns avanços, não só na radioterapia e na cirurgia, mas também no tratamento médico, como a quimioterapia, a imunoterapia e outras terapêuticas avançadas”

 

A nível dos doentes que não procuram a Liga e no que se refere a estas necessidades, como é que as equipas de saúde do SNS lidam com estas situações? Têm condições para isso?
Não só não têm condições, como também não existem equipas suficientes para dar resposta às necessidades. Há um défice muito grande nestas equipas, que deveriam ser em maior número e com mais valências. Ainda assim, a Liga está disponível para colaborar a 100% sempre que solicitada pelas equipas multidisciplinares do SNS.

 

Além deste papel estratégico no apoio aos doentes, qual é a ligação da Instituição com os profissionais de saúde?
Somos cada vez mais solicitados para colmatar um conjunto de necessidades, não só dos profissionais de saúde, mas sobretudo dos doentes. As consultas de Psico-Oncologia estão também abertas aos profissionais de saúde. Além disso, promovemos formação para profissionais de saúde, abrangendo várias valências.

Relativamente aos doentes, organizamos cursos de formação, conferências e webinares. É um vasto conjunto de iniciativas formativas, extremamente importante, que pode colmatar inúmeras deficiências do SNS.

 

Quais são as principais prioridades da Liga para o triénio atual e como se traduzem em ações concretas para os profissionais clínicos?
O doente continua a ser o nosso principal foco. Pretendemos continuar a alargar as ajudas, não só sociais, mas também ao nível do apoio emocional, nomeadamente através do voluntariado.

No apoio psicológico e na formação, queremos cada vez mais colaborar com o SNS, numa lógica de complementaridade. Temos ainda como missão a promoção da literacia em saúde, uma vez que cerca de 50% da população tem literacia insuficiente. À medida que a medicina evolui, o doente é cada vez mais chamado a tomar decisões, e quem não está informado não decide adequadamente.

Trabalhamos também na prevenção primária, promovendo hábitos de vida saudáveis e alertando para comportamentos de risco.

Apoiamos igualmente jovens investigadores. Temos mais de 30 bolsas a nível nacional, pois consideramos que sem investigação e inovação não é possível avançar. O feedback tem sido muito positivo.

Estamos a construir um edifício com 72 camas, que ficará concluído dentro de dois anos, destinado a acolher doentes em tratamento que não necessitam de assistência hospitalar diária, como os que realizam radioterapia. Precisam de pernoitar, mas não de cuidados diretos, o que lhes garante condições dignas de acolhimento.

Vamos ainda disponibilizar cursos de Comunicação para profissionais de saúde. Consideramos que estas formações deveriam existir desde a faculdade. A falta de comunicação não cria empatia e gera afastamento entre o profissional de saúde e o doente.

A notícia não pode ser estereotipada: é preciso conhecer a pessoa para adaptar a comunicação à situação. Caso contrário, o processo não corre bem. Se queremos humanização nos serviços, temos de lutar para que isso aconteça.

 

Qual é o papel do voluntariado em Oncologia e como os profissionais podem integrar ou potenciar estas iniciativas no seu trabalho?
O voluntariado da LPCC está a crescer. É um movimento muito abrangente, que procura dar apoio efetivo e acompanhamento ao doente nas diferentes fases do tratamento.

Os voluntários são fundamentais, pois ajudam a colmatar a falta de humanização existente a nível hospitalar, garantindo um serviço de acolhimento muito importante. Quando uma pessoa, já fragilizada por uma doença oncológica, chega a um grande hospital, sente-se desorientada e ter um voluntário disponível para ajudar, falar quando é necessário ou simplesmente ouvir, faz toda a diferença.

Acompanham os doentes no hospital de dia, na quimioterapia, nas enfermarias e até em momentos simples, como a distribuição do pequeno-almoço. São essenciais para o bem-estar emocional, a comunicação e o apoio ao doente e à família, incluindo os cuidadores, que muitas vezes ficam afastados das decisões e do acompanhamento.

 

“No apoio psicológico e na formação, queremos cada vez mais colaborar com o SNS, numa lógica de complementaridade”

 

O Dia Mundial do Cancro assinala-se a 4 de fevereiro e pretende aumentar a consciencialização, a prevenção e o acesso aos cuidados. Qual a importância de se assinalar este dia?
É extremamente importante, porque permite sensibilizar não só a população, mas também os governos e os decisores políticos. Nesse dia, vamos lançar a 5.ª edição do Código Europeu contra o Cancro, que inclui recomendações baseadas em evidência científica, fatores ambientais e comportamentos individuais, dirigidas à população, aos governos e aos decisores políticos.

Esta nova edição inclui 14 premissas, em vez de 12. Alerta, por exemplo, para o consumo de álcool, recomendando que seja evitado. Inclui também recomendações sobre vacinação, poluição ambiental e riscos ocupacionais. Aborda ainda a amamentação, a terapêutica hormonal de substituição — que deve ser usada apenas em casos excecionais e por períodos curtos — e acrescenta um novo rastreio recomendado: o do cancro do pulmão, a par dos rastreios do cancro colorretal, do colo do útero e da mama.

É uma mensagem muito forte, que esperamos que os governos levem a sério e sobre a qual reflitam.

 

Costuma haver abertura por parte dos governos para este tipo de alertas?
Na maioria das vezes, sim. Temos tido alguns avanços com diferentes governos. No entanto, como referi, são medidas isoladas, não integradas. Podem melhorar um setor, mas outros continuam em défice. É necessária uma reestruturação profunda, não só do SNS, mas sobretudo da área oncológica, com coragem e persistência.

 

Na sua opinião, qual é o impacto destas iniciativas na prática clínica e na relação com os doentes?
São campanhas que nem sempre têm a eficácia desejada, mas somos persistentes. Se não resultar à primeira, resulta à segunda ou à terceira. É o mesmo que fazemos com os governos: conseguimos pequenas vitórias — não grandes —, mas essas pequenas vitórias melhoram a situação do SNS e, sobretudo, a dos doentes oncológicos.

 

Como pode a colaboração entre instituições como a LPCC, o SNS e a comunidade científica melhorar os resultados dos doentes oncológicos e dos sobreviventes de cancro?
Neste momento, a nível nacional temos acordos com várias instituições – Universidades, Associações, autarquias. Estas parcerias são fundamentais para que a mensagem chegue às pessoas e exista uma colaboração efetiva.

 

Este é um trabalho que nunca acaba?
Exatamente, nunca acaba. Temos de ser persistentes em todas as frentes e somo-lo, porque trabalhamos pelos doentes. Quando estamos a tentar melhorar a vida das pessoas, não nos conformamos com um “não”: insistimos até, muitas vezes, se transformar num “sim”.

 

Para terminar, que mensagem deixa às equipas de saúde que trabalham todos os dias na linha da frente desta doença?
Palavras de conforto. Sei que as equipas de saúde fazem o melhor que podem. Gostaria de lhes dizer que é fundamental lutar contra a burocracia e contra a ineficiência do sistema. É preciso persistência. E gostaria que se lembrassem de melhorar a comunicação e de manter o doente — não apenas no papel, mas na prática — no centro de todas as atuações do Serviço Nacional de Saúde.

 

Sílvia Malheiro 

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