16 Jan, 2020

Telessaúde nas unidades de cuidados intensivos reduz taxa de mortalidade até 30%

Para além disso, ajuda a reduzir substancialmente as complicações e o tempo de permanência nestas unidades, sublinha Nuno Viegas, Manager for Portugal da EIT Health.

O tema Telessaúde surge recorrentemente nos noticiários. Normalmente para se destacar um ou outro projeto implementado no interior. Depois, assim como surgiu, fulgurante, desaparece sem deixar rasto. Qual é o panorama atua da telesaude em Portugal? Até que ponto já está desenvolvida esta tecnologia no nosso país?

Telessaúde é o uso de teleconferência, aplicativos móveis e outras tecnologias digitais para permitir a continuidade dos cuidados de saúde conectados. Saúde virtual vai além de simplesmente permitir visitas em vídeo e pode atuar como complemento, ou mesmo como um substituto de cuidados baseados nas necessidades da população ou de pacientes. O objetivo geral é melhorar o acesso a serviços críticos e reduzir custos relacionados com a prestação de cuidados.

É considerada a segunda tecnologia com maior potencial de inovação disruptiva nos próximos cinco anos. Cerca de 75% das instituições de saúde em Portugal já aplicaram projetos de telessaúde. Em relação aos hospitais do SNS, 87% das unidades tem pelo menos um projeto implementado na área de telessaúde.

“Os especialistas concordaram que um dos problemas é a falta de departamentos de inovação em hospitais”

Fica a ideia de que as coisas só funcionam quando existe envolvimento pessoal dos profissionais responsáveis pelas áreas que irão ser trabalhadas. É essa a sua perceção?

Em todos os processos de inovação é necessário que os profissionais de saúde e os pacientes vejam valor acrescentado na utilização da tecnologia. Uma prática corrente na indústria e certos hospitais internacionais é a criação de posições de agentes de transformação. Estes indivíduos coordenam o processo de criação de inovação e implementação dentro de instituições e gerem a educação de profissionais de saúde e pacientes.

Quais as áreas em que vê a implementação da telessaúde como mais vantajosa?

A inovação digital permite que os recursos altamente treinados se possam concentrar em mais atividades valiosas voltadas para o paciente. A telessaúde trará vantagens para o acompanhamento de pacientes crónicos, pacientes a viverem em zonas rurais e interiores e centros de saúde. Espera-se que a telessaúde melhore os níveis de saúde, já que pacientes diagnosticados e tratados mais cedo geralmente apresentam melhores resultados e requerem tratamentos menos dispendiosos.

Quais as principais barreiras ao desenvolvimento da telessaúde em Portugal?

Realizámos recentemente uma mesa redonda, a EIT Health Think Tank. Nesta sessão debateram-se propostas para recomendações práticas. Entre os desafios a serem enfrentados, os especialistas concordaram que um dos problemas é a falta de departamentos de inovação em hospitais, o que pode estar relacionado com prioridades de curto prazo.

Há algum problema ao nível do investimento?

Apesar de inferior a outros países, em Portugal existem fundos públicos e privados que estão dispostos a ajudar PMEs a desenvolver soluções digitais.

O que propõe para agilizar os processos?

Será necessário efetuar um estudo de mercado, sobre impacto na saúde dos pacientes e na redução de custos por parte dos pagadores (Estado e privados). Também é necessário começar a falar com agências reguladoras, pois estas deverão dar o seu parecer em soluções de saúde digital.

Existe resistência por partes dos clínicos em aderirem a estas novas tecnologias? E por parte dos utentes?

O recente relatório da consultora Deloitte sobre os cuidados de saúde à escala global revelou que 64% dos consumidores afirma ter bastante interesse em soluções de telessaúde. Simultaneamente, a maioria dos médicos pensa conseguir melhorar a qualidade do serviço prestado e monitorizar por mais tempo o paciente.

Quais as potencialidades da telessaúde?

A telessaúde tem um grande potencial de ajuda a hospitais regionais e populações rurais. Nos EUA, a monitorização domiciliária de doenças crónicas reduziu as visitas hospitalares em cerca de 50%. Também reduziu a média nacional de internamento em hospitais dentro de 30 dias após um episódio de insuficiência cardíaca de 20% para menos de 4%. A previsão oportuna de tratamentos que efetivamente revertem as consequências de um acidente vascular cerebral aumentou de 15% para 85% devido à disponibilidade de programas de deteção de AVC remoto (telestroke). E o apoio da telessaúde às unidades de cuidados intensivos está a reduzir as taxas de mortalidade entre 15 a 30% e a reduzir substancialmente as complicações e o tempo de permanência.Além disso, os programas de triagem de retinopatia por telessaúde apoiam a identificação precoce de doenças oculares graves e reduzem a incidência de cegueira em pacientes diabéticos.

Quais são as principais apostas da EIT Health InnoStars?

O EIT Health é uma rede dos 140 melhores inovadores da área da saúde apoiados pela União Europeia. Fornecemos soluções para permitir que os cidadãos europeus tenham uma vida mais longa e saudável. O EIT Health InnoStars reúne 24 Parceiros Principais e Associados na Hungria, Itália, Polónia e Portugal.

Promovemos a inovação em saúde através de competições, programas de educação, apoio a start-ups, conferências e muitas outras atividades. Em Portugal os parceiros do EIT Health são a Universidade de Évora, a Universidade de Lisboa, a Glintt, o Centro Hospitalar Lisboa Norte, a Universidade de Coimbra, o Instituto Pedro Nunes, o Centro Hospitalar Universitário de Coimbra e a Bluepharma.

Já têm projetos implantados no terreno? Em que áreas e onde?

Existem projetos presentemente a serem liderados por parceiros Portugueses como o EpiDEMPrev, Healiqs4cities, Starship e o Mobility and Active Ageing Summer School.

No que diz respeito a start-ups, o EIT Health já apoiou mais de 400 start-ups em toda a Europa e mais de 20 em Portugal.

Em Portugal apoiamos start-ups, como a Heartgenetics, Nu-Rise, BestHealth4U, Hydrustent, NeuroPsyAI, CMPI, Clynx, IHCare e muitas outras, a continuarem a desenvolver os seus produtos e serviços de forma a poderem obter investimento adicional que lhes permita ter sucesso.

Por exemplo, a Hydrustent está a desenvolver um catéter biodegradável que reduz o tempo de hospitalização de pacientes e custos de hospitalização. Já a NeuroPsyAi desenvolveu o NeuroPsyCAD, um serviço baseado na “cloud” que usa exames cerebrais comuns e algoritmos de inteligência artificial de ponta para ajudar médicos a diagnosticar a doença de Alzheimer e a doença de Parkinson.

Todas as start-ups que colaboram com o EIT Health desenvolvem soluções na área da saúde que contribuirão para aumentar a eficiência do sistema de saúde.

MMM/SO

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