Lucas Chambel - Dirigente Associativo e Estudante de Ciências Farmacêuticas

Senhora ministra, nós ‘apagamos a luz’

Todos os leitores se hão de lembrar de que por vezes era preciso serem ameaçados de que alguém iria apagar a luz, para que ganhassem coragem de retirar o último salgadinho do prato. Pois, parece que na área da saúde a senhora Ministra precisa de ter o mesmo incentivo para fazer as mudanças que os portugueses anseiam.

A dispensa de medicamentos hospitalares e a sua transferência para outros cuidados de saúde, tem estado na agenda de uma comissão, formulada para o efeito, onde, os farmacêuticos, incompreensivelmente, não foram chamados a pertencer. É caso para dizer – não falem de nós sem nós.

Ouvimos, nos últimos anos, muitos que apregoam o conceito de centralização do utente no que concerne aos cuidados de saúde. Mas afinal, o que queremos dizer com isto?

Resumindo, as políticas, sejam elas de saúde ou de outra vertente, têm de começar a ser pensadas na perspetiva do cidadão. O percurso do utente no sistema de saúde tem de ser definido não apenas da perspetiva do decisor, mas de quem vai usufruir do sistema em si. Na questão da dispensa de alguns medicamentos em contexto hospitalar, o cenário é claro. É consensual que os hospitais e centros de saúde são o cerne do nosso SNS, mas, dado o seu carater complexo e dinâmico, não conseguem chegar a todos os cantos e recantos de Portugal, o que é manifestamente normal. Para garantir o acesso à saúde a cada ‘Código-Postal’ existem farmácias comunitárias que acabam por funcionar como polo de saúde em muitas localidades, não dispensando outras intervenções essenciais e necessárias de outros serviços.

Mais, a comunicação social tem sido, até, muito insistente nesta problemática. A verdade é que cada vez mais se ouvem os gritos, ainda que silenciosos, dos que têm de percorrer distâncias incompreensíveis, para ter acesso à sua medicação. Portugueses e portuguesas que esperam que haja vontade política para que o seu dia a dia possa ser melhorado. Enquanto não olharmos para os problemas reais das bases da sociedade e tentarmos planear soluções ajustadas às suas necessidades, continuaremos a lançar para o ar, ironicamente, questões como a coesão territorial, temas esses que continuaram rodeados de questões com poucas respostas. O direito à saúde não deve variar com as coordenadas geográficas dos cidadãos.

Do trabalho que está a ser feito por esta comissão, dizem-nos as recentes indicações que está a ser planeado uma solução com a utilização dos centros de saúde. Soa a pouco quando os mesmos estão sobrecarregados e não têm a acessibilidade característica das farmácias comunitárias. Existem 230 hospitais em Portugal, 357 centros de saúde e quase 3000 farmácias, mas, enquanto não se colocar a pessoa no centro do sistema de saúde, vai sempre existir uma razão pouco percetível para não ser ambicioso na reformulação da organização dos cuidados de saúde, no meio de tantos números, este é claramente o mais preocupante.

Em suma, o pedido é claro, se para fazer as mudanças que os portugueses precisam, o Ministério da Saúde, e respetivos coniventes, necessitam de um qualquer manto de invisibilidade que continue a manter a linha do ‘bicho papão dos privados’, teremos todo o gosto de ‘apagar a luz’ e fingir que nada aconteceu desde que os portugueses saiam a ganhar com isso.

Politiquice a quanto obrigas.

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