Médico Oftalmologista

Saúde e Felicidade: todo um programa…

Hospital CUF Infante Santo

Eis um tema, ao mesmo tempo, aliciante, controverso e estimulante. Escrever sobre felicidade e o seu impacto na saúde.

Aliciante porque a felicidade é algo que todos procuramos e que todos desejamos que impregne os nossos dias, a nossa vida e a dos que nos são queridos.

Controverso porque a definição de felicidade é dos conceitos mais subjectivos que conheço, nele cabendo definições e ambições tão simples quanto grandiosas.

Estimulante porque também eu procuro incessantemente a felicidade dentro e fora de mim e aspiro a tê-la mais presente no meu quotidiano. Assim, numa perspectiva mais egocentrista, talvez escrever sobre este tema contribua um pouco para esse objectivo.

Tudo isto porque li recentemente que a Harvard T.H. Chan School of Public Health anunciou algures em Abril deste ano a criação de um centro académico dedicado ao estudo e compreensão das complexas interacções entre o bem-estar psicológico (vulgo, felicidade) e a saúde.

Só o facto em si, de se investir na criação de um centro com estas características, é digno de registo, pela inovação, pela coragem e pela porta que abre para a reflexão e estudo sobre o modo como o meio ambiente, a genética, a nossa mente e o nosso corpo interagem para criarem estados de espírito tão diversos, tão voláteis e tão capazes de interferir com a nossa saúde, fortalecendo-a ou deixando-a em cacos.

As investigações já efectuadas indicam que o optimismo, o entusiasmo, a energia positiva, uma vida social preenchida e uma noção globalmente positiva da vida são elementos que ajudam a manter ou que melhoram a saúde.

Por exemplo, esse conjunto de emoções positivas pode reduzir o risco de doença cardíaca até 50%, melhorar o funcionamento das nossas defesas e, desse modo, reduzir a incidência de infecções, permite uma recuperação mais fácil do stress, protege contra o desenvolvimento de diversas doenças crónicas e proporciona uma vida tendencialmente mais longa. No caso das crianças, esta postura positiva face à vida ajuda-as a crescer e a tornar-se melhores e mais saudáveis adultos.

Inversamente, níveis reduzidos de bem-estar psíquico associam-se a maior incidência de stress, doença cardiovascular, depressão, diabetes, insónias, disfunção sexual, entre outras perturbações.

Se algumas das relações entre as emoções e a saúde são óbvias, outras permanecem um mistério e merecem, por isso, uma avaliação mais profunda.

Pessoas com emoções positivas tendem a praticar mais exercício, seguem uma dieta mais saudável, fumam e bebem menos, dormem melhor e tudo isso só pode ter repercussões positivas na saúde. Mas será apenas isso? Que outros mecanismos interferirão neste elo entre felicidade e saúde?…

Uma pergunta-chave é aquela que coloca a Professora Laura Kubzansky, Professora de Saúde Comportamental e Social na Harvard Chan School e co-directora deste novo Centro: “Prefere viver uma vida longa, feliz e saudável ou apenas uma vida desprovida de doenças?”

E aqui reside a essência deste tema. A moderna Medicina previne, trata e cura cada vez mais e melhor, proporcionando vidas mais longas e saudáveis mas não necessariamente mais felizes. Muitas vezes, o contrário ocorre, como todos sabemos. Podemos admitir que a missão da Medicina termina aí e que a felicidade é algo de muito pessoal, que cada um deve buscar e aperfeiçoar individualmente. Pessoalmente, penso que não.

A criação desde Centro demostra uma nova postura sobre este tema e permite admitir que se pode ir mais longe e oferecer não só vidas assépticas e saudáveis, mas vidas verdadeiramente vividas e felizes, seja qual for a definição de felicidade que queiramos aceitar ou que se adeque ao nosso modelo.

Enquanto médico, observo doentes com posturas profundamente diferentes sobre a vida e a doença. Para alguns, com mais dificuldades, o lado positivo é o que vence, para outros, mesmo com uma evolução clínica favorável, existe sempre algo que não está bem. E essa diferente atitude, para lá do efeito contagiante que tem sobre os outros, bom ou mau, tem necessariamente implicações sobre a recuperação clínica.

Não sei qual a definição de felicidade, mas sei que nela cabem coisas muito diferentes para cada um de nós. Sei também que ela não é nem pode ser um estado permanente e, provavelmente, ainda bem, porque é no contraste entre a sua presença e a sua ausência que ela pode ser melhor apreciada. Finalmente, sei que na felicidade, no bem-estar psíquico, nas “boas” emoções, se joga muita da recuperação de um paciente após uma doença ou uma intervenção cirúrgica.

Estudar os mecanismos dessas relações, compreender as suas bases bioquímicas (se as houver) e o seu padrão de resposta é um campo de intervenção que extravasa a Medicina e que deve envolver toda a Sociedade. Daí ter tanto apreciado a criação deste Centro.

Podemos ser saudáveis e tristes ou estar doentes mas com o coração preenchido. Lutar para que essas realidades coexistam é, de facto, todo um programa para esta e, seguramente, para as próximas gerações.

Por isso, quanto mais cedo começarmos, melhor…

Texto escrito de acordo com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990

 

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