Saúde Online (SO) | Que razões presidiram à criação da plataforma Let’s End HepC?

Ricardo Baptista Leite (RBL) | Sob a chancela das Nações Unidas, todos os países comprometeram-se a eliminar Hepatite C, enquanto perigo para a Saúde Pública, até 2030. No entanto, quando olhamos para os dados percebemos que essa eliminação pode não ser alcançada, mesmo no contexto em que o acesso à terapêutica é universal. E isto fez-nos questionar porquê. A conclusão a que se chega é que não basta haver acesso à terapêutica para se atingir a eliminação, é preciso que existam políticas corretas que olhem para toda a “cascata” do tratamento da doença. Ou seja, olhar desde a prevenção e da sensibilização sobre a hepatite C ao diagnóstico precoce e, naturalmente, ao tratamento.

O que fizemos na Universidade Católica foi determinar quais as 24 políticas, com base naquilo que vem na literatura científica e na opinião dos peritos, necessárias para atingir a eliminação. Construímos um modelo matemático usando os dados demográficos e epidemiológicos e as próprias políticas para se construir o Let’s End HepC, que é, no fundo, uma calculadora política.

Com a aplicação ou através do site podemos mudar as políticas de um determinado país e ver quais os impactos que vão ter a vários níveis, do doente, da situação epidemiológica e se vamos (e quando) atingir a eliminação.

Não só podemos fazer isto para 2030, como podemos mudar o ano. Pode-se alterar a subpopulação. Podemos ir mudando os cenários e com isso perceber como, com menor custo, se consegue obter maior impacto na saúde pública e com isto atingir o objetivo último, que é eliminar a doença.

 SO | E é possível a eliminação?

RBL | Segundo a “calculadora” que criámos, é possível eliminar da Hepatite C em Portugal, entre 2024 e 2025. Um objetivo que também sabemos que não será alcançado com as políticas atualmente em vigor.

SO | Quais são os principais obstáculos?

RBL | As políticas que, claramente, não refletem uma aposta do Governo e do ministério da saúde na prevenção, particularmente em populações mais vulneráveis e diria, como elemento crítico, no rastreio e no diagnóstico.

Portugal já curou cerca de 10 mil pessoas e há mais 10 mil que ou já iniciaram tratamento ou estão a aguardar. Infelizmente, o tempo de espera para aceder aos medicamentos tem vindo a aumentar ao longo do último do ano, com atrasos entre 6 meses a um ano, mas queremos acreditar que estas 10 mil terão os seus tratamentos completos, o que significa que Portugal pode chegar ao fim do ano com 20 mil pessoas curadas.

Ora, também sabemos que as estimativas rondam entre as 40 mil a 60 mil pessoas potencialmente infetadas, o que significa que estamos com cerca de 1/3 dos doentes potencialmente infetados já curados, mas que ainda há 2/3 ainda por identificar.

O que o nosso modelo demonstra é que se tivermos políticas de rastreio, numa primeira fase dirigida a populações mais vulneráveis e numa segunda à população em geral, conseguiremos atingir a eliminação.

 SO | Não podemos então falar de uma eliminação sem falarmos no diagnóstico e na prevenção da doença…

RBL | Criou-se uma falsa sensação de segurança, quer entre os órgãos políticos quer entre os media, porque a partir do momento em que há um acesso à cura, parte-se do principio de que a situação está resolvida. É importante que as pessoas compreendam que não. Só conseguiremos eliminar se diagnosticarmos quem vive com o vírus sem o saber.

SO | Este projeto não incide só em Portugal. Qual o ponto de situação de em relação aos outros países?

RBL | Até ao final do ano vão estar mais 5 países e em meados do próximo ano, 12. Neste momento, o modelo matemático apenas funciona em Portugal, pelo que não é possível fazermos uma análise comparativa.

Podemos, isso sim, analisar as políticas atuais. Quando olhamos para países como a Austrália, que é uma referência internacional, onde as autoridades de saúde compreenderam a necessidade de se fazer este rastreio, de forma precoce e universal. Foram criados modelos de rastreio dirigidos a populações mais vulneráveis e campanhas para a população em geral aconselhando o teste, que o tornaram gratuito e de fácil acesso. Por outro lado, envolveram, não só os médicos hospitalares (infeciologistas, hepatologistas) mas também os médicos de Medicina Geral e Familiar e os enfermeiros, que também têm um papel importante a desempenhar. Outra medida imprescindível, foi a da introdução da autorização para a prescrição de antivirais de ação direta em contexto prisional.

SO | Em Portugal isso não é possível?

Por cá só os especialistas podem prescrever e até acontece uma coisa surreal. Por exemplo, no Hospital Prisão de Caxias, há dois médicos hepatologistas que, por fazerem parte dos quadros estabelecimento prisional estão sob a tutela do ministério da justiça e não do da saúde, não podem prescrever o tratamento que pode curar a hepatite C. Deste modo, têm que vir médicos de hospitais para se prescrever esta medicação. É uma situação que necessita de ser corrigida.

Portugal foi pioneiro no acesso universal. Não deve perder este “comboio”, deve continuar na linha da frente. Neste momento estamos a perder a dinâmica inicial, mas esperamos que o Let’s End HepC possa ajudar a dar algumas pistas sobre os caminhos futuros que têm que ser percorridos. O esforço maior já foi feito. Agora é preciso acabarmos aquilo que começámos: não só curar as pessoas individualmente, mas também acabarmos com a presença da doença no nosso país para que mais ninguém tenha que voltar a sofrer com a Hepatite C; para que possa passar para os livros de história da Medicina.

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