A associação Europacolon alertou hoje para as consequências da paralisação dos rastreios de base populacional e dos milhares de diagnósticos de doenças oncológicas que ficaram por fazer devido à pandemia de Covid-19.

Segundo o presidente da Europacolon Portugal – Associação de Apoio ao Doente com Cancro Digestivo, Vítor Neves, foram adiadas, desde março, mais de quatro milhões de consultas em centros de saúde, um milhão de consultas das várias especialidades médicas e mais de 100 mil cirurgias. Como resultado, os 50 mil diagnósticos anuais de doenças oncológicas não se concretizaram na sua plenitude.

Todos os meses, antes da chegada do novo coronavírus, realizavam-se cerca de 4.800 novos diagnósticos. Todavia, a pandemia obrigou a uma paragem em março e “não houve a partir daí atitudes consistentes de consultas nos centros de saúde a tempo e horas”, informou Vítor Neves em declarações à agência Lusa. O responsável acrescentou ainda que os doentes não estão a ser referenciados para as consultas de especialidade

“Antes da pandemia a situação já era muito grave”, frisou o representante da Europacolon Portugal. Como referiu, “em 2018 já morriam 10 mil pessoas de cancro digestivo“, tendo o problema sofrido um agravamento em 2019.

Com manifesta preocupação, Vítor Neves sublinhou que “vamos ver daqui por três ou quatro anos que os números da mortalidade comparativamente de doentes não Covid com aqueles que existiam antes da pandemia vão crescer enormemente”.

Também a paralisação dos rastreios de base populacional, nomeadamente do cancro do intestino, lançados no final de 2016, é um fator alarmante. “Em 2017 e 2018 houve alguns avanços, mas tomámos conhecimento há dias de que os números de 2019 diziam que só 35% das pessoas tinham aderido”.

Para Vítor Neves, este panorama vem mostrar que “aquilo que foi feito em termos de tentativa de implementação dos rastreios de base populacional foi mal feito”, tendo ficado provado que não adianta as Administrações Regionais de Saúde enviarem kits para pesquisa de sangue oculto nas fezes para casa dos utentes. Argumentou que “se os indivíduos não estiverem sensibilizados para as vantagens de fazerem o rastreio não o farão”.

Por outro lado, os utentes que fizeram o exame e testaram positivo ficam, em alguns casos, mais de 12 meses à espera da consequente colonoscopia total, uma “situação muito grave”.

“Quase todos os serviços dos grandes hospitais foram reestruturados, e bem, porque teve a sua eficácia na altura da pandemia, mas foi prejudicando, foi desvalorizando, foi secundarizando o acompanhamento que se fazia aos outros doentes”, disse o responsável.

Ao estarmos a adiar diagnósticos de cancro digestivo estamos a favorecer uma sobrevivência mais curta e uma dificuldade de estabilizar” estas doenças que não desaparecem, reiterou.

O presidente mencionou também que a resposta para colmatar o problema tem de ser conjunta. “Se, por um lado, o Ministério da Saúde tem de garantir as consultas, os rastreios e os tratamentos, por outro, os portugueses não podem ter medo de ir ao hospital; têm de confiar no sistema e perder o medo de sair à rua”, enfatizou.

Defendeu ainda a criação urgente de um programa excecional de recuperação das listas de espera para cirurgias, consultas e exames complementares de diagnóstico, com divulgação pública e periódica das respetivas métricas e a aplicação de rastreios de base populacional ao cancro do intestino, com a publicação mensal dos testes e médias de adesão e o aumento do investimento em recursos humanos e equipamentos no SNS.

LUSA/SO

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