27 Jun, 2024

“Portugal foi um dos primeiros países do mundo a reconhecer a obesidade como doença”

As 15.as Jornadas de Diabetologia e Obesidade em MGF da Zona Norte têm como objetivo a atualização científica e clínica nas áreas da diabetes e da obesidade. Em entrevista, o endocrinologista e presidente deste evento, Davide Carvalho, fala sobre a evolução dos tratamentos ao longo dos anos, dos desafios persistentes no reconhecimento e tratamento da obesidade em Portugal enquanto doença crónica e grave e das expectativas para as jornadas deste ano.

Estas são as 15.as Jornadas. O que mudou desde o início até agora?
O grande objetivo da criação destas jornadas foi permitir uma atualização do diagnóstico e da terapêutica da diabetes mellitus, particularmente do tipo 2. Desde o início das Jornadas que observamos uma evolução significativa dos medicamentos. Hoje em dia, dispomos de um conjunto muito amplo de fármacos, cada um com as suas indicações próprias, que podem ser utilizados nas pessoas com diabetes tipo 2, permitindo indicações mais precisas e modificar o prognóstico da doença.

Por exemplo, os agonistas do receptor de GLP-1 são medicamentos preferenciais para doentes com obesidade, sendo a primeira opção nesses casos. Estes medicamentos também têm indicação para tratamento exclusivo da obesidade, em pessoas sem diabetes.

Em relação aos inibidores de SGLT2, há um fenómeno semelhante, pois inicialmente foram indicados para o tratamento da diabetes. Contudo, devido ao benefício cardionefroprotetor, as suas indicações foram ampliadas e, atualmente, são utilizados também em pessoas não diabéticas para prevenção da doença cardiovascular, incluindo o tratamento da insuficiência cardíaca e a redução do risco cardiovascular, e para proteção renal.

Considero que as jornadas têm cumprido a sua missão de atualização face às grandes inovações e modificações na área da diabetes e daí a adesão, que, neste momento, ronda as três centenas de participantes

 

Mesmo com uma periodicidade anual, continuam a não faltar temas para abordar?
Os avanços são muitos. Felizmente, todos os anos surgem novos estudos. Começámos por ter grandes ensaios clínicos que comprovaram o efeito dos fármacos e agora temos estudos de vida real em populações mais amplas, que não estavam incluídas nos ensaios clínicos, cujos dados permitem extrapolações e ampliação da indicação. Há sempre novas ideias e conceitos para debater nestas jornadas.

 

Embora sejam doenças gémeas e ambas sejam consideradas epidemias, em Portugal o tratamento da obesidade ainda tem muitas lacunas. A doença não é reconhecida como crónica e grave por muitos, não é diagnosticada nem tratada, e ainda há muito estigma, inclusive entre profissionais de saúde. O que pode ser feito para mudar essa realidade?
Portugal foi um dos primeiros países do mundo a reconhecer a obesidade como doença. Este ano comemoramos 20 anos desse reconhecimento, feito pelo então ministro da Saúde, Luís Filipe Pereira, com propostas da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade e da Associação dos Doentes Obesos e Ex-Obesos.

No entanto, apesar do reconhecimento, os medicamentos ainda não são comparticipados, o que limita significativamente a possibilidade de tratamento dos doentes. Os medicamentos são eficazes, mas muito caros.

Além disso, existe a ideia errada de que as pessoas são obesas porque querem, que são desleixadas ou que não se cuidam, o que não é verdade. Fatores genéticos e ambientais contribuem para essa situação. Com a abordagem da obesidade integrada nas Jornadas de Diabetologia e Obesidade, queremos alertar e acabar com o estigma associado à obesidade. 80% dos diabéticos tipo 2 têm excesso de peso ou obesidade, portanto, precisamos combater esse estigma.

 

“Os medicamentos são eficazes, mas muito caros”

 

Além das diversas temáticas sobre diabetes e obesidade, o programa inclui um tema a ser abordado por um especialista em Saúde Pública: “Sistema de Saúde – O que a pandemia pôs a nu”. Na sua opinião, o que a pandemia revelou?
A ideia de convidar o Dr. Gustavo Tato Borges, que teve uma participação importante durante a pandemia de covid-19, é explorar o que a pandemia nos permitiu ver.

Vivemos um momento particular de mudanças, com um novo Governo e uma reestruturação dos serviços de saúde. Um dos problemas graves são os serviços de urgência, mas não é o único.

Houve uma grande mudança nas condições de funcionamento dos serviços de saúde em Portugal. As instituições privadas conseguem competir com os serviços de saúde públicos, oferecendo melhores salários, o que tem levado à saída de médicos, enfermeiros e outros profissionais do Serviço Nacional de Saúde para os serviços privados. Na Europa há elevada carência de profissionais e a atratividade dos melhores salários será uma outra forma de competição.

A pandemia destacou essas contradições, desafios e lacunas na estruturação dos serviços de saúde. Precisamos entender bem essas falhas para propor soluções e melhorar os cuidados de saúde para os nossos doentes.

 

“Existe a ideia errada de que as pessoas são obesas porque querem, que são desleixadas ou que não se cuidam”

 

A homenageada deste ano é a Dr.ª Ana Tato Aguiar. Porquê?
Desde o início das jornadas, temos homenageado personalidades na área da Diabetologia, começando por nomes conhecidos da Endocrinologia e da Medicina Geral e Familiar.

Este ano, vamos homenagear a Dr.ª Ana Tato Aguiar, que vem da Saúde Pública e foi diretora do ACES Santo Tirso-Trofa. Queremos também homenagear este ramo das carreiras médicas, que nos ajuda tanto nos cuidados hospitalares quanto nos cuidados de saúde primários. A pandemia destacou a importância dos colegas de Saúde Pública, justificando a sua inclusão nas nossas jornadas.

A Dr.ª Ana Tato Aguiar associou-se, desde o primeiro momento e ao longo dos anos, à organização das jornadas, com uma participação ativa. Agora que se aposentou, é mais do que justo reconhecer o seu contributo.

Uma sociedade sem memória é uma sociedade sem valores. Se não tivermos memória do contributo de muitos colegas, não teremos um futuro melhor. Este reconhecimento é indispensável. A Dr.ª Ana Tato Aguiar dedicou-se de alma e coração ao seu Centro de Saúde e será reconhecida pelo Conselho Regional Norte da Ordem dos Médicos, com a cerimónia de homenagem a ser presidida pelo Prof. Doutor Eurico Castro Alves.

 

Quais são as suas expectativas para estas jornadas?
São elevadas. Creio que teremos um grande número de participantes, para já mais de 300 inscritos. As jornadas têm despertado um interesse crescente, com uma adesão cada vez maior e mais participada dos colegas de Medicina Geral e Familiar.

Teremos diversos trabalhos em forma de pósteres a ser apresentados e discutidos. Espero uma participação ativa e discussões produtivas, características destas jornadas. A diabetes afeta cerca de 14% da população, então todos os colegas têm diabéticos nas suas listas de doentes, e acredito que a discussão será benéfica para todos, resultando em melhorias nos cuidados de saúde.

“As jornadas têm despertado um interesse crescente, com uma adesão cada vez maior e mais participada dos colegas de Medicina Geral e Familiar”

 

É sempre uma mais-valia esta discussão entre as duas especialidades?
Sim, sem dúvida. Destinar tempo para discussão é essencial, e esses momentos são sempre preenchidos. Também há novidades em outras áreas relacionadas, como novas vacinas que serão apresentadas. Um dos temas clássicos é a questão da insulinoterapia. Muitos colegas que têm menos à vontade para iniciar o tratamento com insulina terão a oportunidade de ver casos clínicos, desde os mais simples até os mais complexos, aprendendo como iniciar e intensificar a insulinoterapia, que é uma base do tratamento da diabetes.

Apesar dos novos medicamentos, muitos doentes precisam de insulina com o passar dos anos. Portanto, devemos dominar os instrumentos de monitorização da glicemia. Começámos com a glicemia capilar e agora temos a glicose intersticial, especialmente em doentes que fazem insulinoterapia. Falaremos sobre esses métodos e como eles nos ajudam a ajustar as doses de insulina de acordo com as necessidades dos doentes.

 

Sílvia Malheiro

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