1 Abr, 2020

“Pesadelo burocrático”. Médicos apontam falhas ao registo de doentes com Covid-19

Médicos queixam-se de falhas informáticas e da complexidade do sistema. O infecciologista Jaime Nina avisa que, se a DGS agregar todo o registo no SINAVE, "vamos deixar de ter dados".

O número de infetados com SARSCoV-2 em Portugal pode ser bem diferente do que é divulgado todos os dias em conferência de imprensa. Isto porque o sistema de reporte de casos tem várias falhas. A própria Direção Geral de Saúde já o reconheceu, afirmando que pode ter havido duplicação de casos no boletim de segunda-feira. Isto porque os dados chegam de várias fontes e não são agregados da melhor forma.

Jaime Nina, médico infecciologista do Hospital Egas Moniz, diz que o SINAVE (o único sistema de reporte de casos que vai ser considerado a partir de agora) é um “pesadelo burocrático”. “Colocar tudo dependente do SINAVE significa que vamos deixar de ter dados“, antecipa o especialista, em declarações ao jornal Observador. Isto porque, explica, o sistema pode não estar preparado para centralizar toda a informação relativa ao Covid-19.

“Está tudo dependente de as coisas informáticas funcionarem perfeitamente, e não costumam funcionar nos hospitais“. “Desde que começou a informatização do meu hospital, não houve um único dia em que funcionasse tudo. O SINAVE bloqueia e, se houver um erro, não sabemos qual é”, afirma o médico.

Ao Observador, a também infecciologista Margarida Tavares diz que no hospital onde trabalha, o São João, os médicos já desistiram de registar os casos suspeitos no SINAVE e só reportam os confirmados. “Todo e qualquer médico que via um caso suspeito fazia a declaração no SINAVE. Mas, dado o volume gigantesco que esta questão assumiu, nós e muitos outros deixámos de ter capacidade. Revelava-se impraticável”, garante.

Os médicos queixam-se da complexidade do registo no SINAVE, um processo longo que obriga ao preenchimento de muitos campos. O SINAVE não está preparada paro responder a situações de pandemia. Foi criado há 10 anos com o objetivo de recolher e divulgar os dados relativos a doenças transmissíveis (com as hepatites, malária, tuberculose, zika, sífilis, lepra, entre outras).

“Faz imensas perguntas. Todos os sintomas, a data de início dos sintomas, etc. Admito que, com a dificuldade de tempo, as pessoas privilegiem o cuidado do doente.”, admite Margarida Tavares.  “Muitas vezes, temos o serviço em baixo. Ontem estivemos muito tempo sem acesso ao SINAVE. Há vezes em que temos de voltar atrás e perdemos uma declaração inteira“, acrescenta a médica.

A isto junta-se o problema da subnotificação. Mesmo que o sistema funcione e o que o médico esteja disposto a preencher o formulário, nada garante que este o faça. “Há a tendência para descurar a notificação“, assume a infecciologista.

No mesmo sentido vai o médico Jaime Nina. “Há uma subnotificação massiva. As autoridades têm tentado melhorar o sistema. Só que, em vez de o melhorarem do ponto de vista informático, tentam penalizar os profissionais quando não preenchido devidamente”.

TC/SO

 

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