O sofrimento do fado: doentes reumáticos não devem sofrer em silêncio

O presidente da Sociedade Portuguesa de Reumatologia (SPR) ilustra com a artrite reumatóide a importância de procurar ajuda precocemente e controlar a doença.

A artrite reumatóide é uma doença inflamatória sistémica, pelo que, embora afete sobretudo as articulações, destruindo-as, pode suscitar manifestações noutros órgãos. Estima-se que esta doença crónica atinja cerca de 1% da população, sendo duas a quatro vezes mais incidente nas mulheres. Quanto às causas, acredita-se que esteja envolvido um conjunto de fatores, dentro dos quais se sabe que existe uma pré-disposição genética − não necessariamente herdada − e que o “tabaco é um fator desencadeador da doença importante”.

À semelhança de outras patologias reumáticas, o peso social e económico da artrite reumatóide é muito significativo para os doentes. Entre outros aspetos, destaca o Dr. Luís Cunha Miranda, “a artrite reumatóide influencia a família e o desenvolvimento de uma carreira, que por si só já é difícil de ter”, visível pelos dados que apontam para metade destes doentes a abandonar o emprego.

Ainda que possa haver a tendência para associar a patologia à velhice, a artrite reumatóide, tal como “as doenças reumáticas inflamatórias como lúpus, espondilite e artrite psoriática têm um impacto imenso na sociedade por atacarem as pessoas em picos de idade ativa. São pessoas que trabalham, têm sonhos e um longo futuro”, explica.

Segundo a plataforma Reuma.pt, o número de doentes acompanhados em Portugal tem vindo a aumentar. Não obstante, o médico garante que o acesso à especialidade de Reumatologia nem sempre é fácil. “Tem sido feito um esforço para formar mais reumatologistas e para melhorar alguns serviços”, mas “existem barreiras a que se implemente a rede de referenciação hospitalar de Reumatologia”.

“Sabemos que 48% dos hospitais que deviam ter Reumatologia não têm”, mesmo havendo a capacidade para colocar estes especialistas “em muitos desses hospitais, e estamos a falar de hospitais como Amadora-Sintra, Santo António (no Porto), Guimarães, Vila Franca de Xira, Cascais, Bragança”, explicita o reumatologista.

Para o Dr. Luís Cunha Miranda, “o principal desafio é fazer entender que é necessário um planeamento a médio e longo prazo para as especialidades hospitalares que não estão tão ligadas à urgência”, sendo para isso necessário auditar as redes de referenciação e perceber qual a taxa de execução e quais as necessidades – de recursos humanos e físicos – por especialidade e local. “Sem uma estratégia, é difícil definir o caminho”, lamenta, lembrando que desde 2014 deixou de existir um plano da Direção-Geral da Saúde para a prevenção das doenças reumáticas.

“Parece haver um desinteresse motivado pela forma como os hospitais são financiados, sobretudo através de atos cirúrgicos”, e pela falta de uma “visão integrada” relativa aos gastos em saúde e gastos na Segurança Social. “As reformas antecipadas em Portugal pelas doenças reumáticas no global correspondem a quase 900 milhões de euros anuais. É brutal num país que não tem assim tanto dinheiro, e significa que se tivéssemos uma boa estratégia seríamos capazes de reduzir pelo menos para metade esse gasto”, sublinha o responsável.

Alerta ainda que estas doenças crónicas, menos relacionadas de forma direta com a mortalidade e mais com a incapacidade, “vão ser dramáticas em Portugal nos próximos 20 anos”. “Vamos ser um dos países mais envelhecidos da Europa e do mundo e não temos uma política de envelhecimento que permita envelhecer com melhor qualidade”, argumenta.

Para o presidente da SPR, a estratégia não pode ser “reativa” e tem de passar pelo diagnóstico precoce e pela acessibilidade às consultas, até porque as terapêuticas, nomeadaemnte para a artrite reumatóide, “hoje em dia são muitíssimos mais eficazes do que eram há 15-20 anos”, tendo até algum potencial de recuperação. Assim, “a identificação nos primeiros três meses, no máximo primeiros seis meses, do início das queixas, faz toda a diferença, possibilitando que a pessoa tenha uma vida completamente normal”, reforça.

As terapêuticas são dirigidas de acordo com o perfil do doente e o tipo de atividade da doença. “Numa estratégia de treat to target, definimos como alvo não ter articulações inchadas, dolorosas, não ter rigidez, não ter incapacidade e orientamos as ações para alcançar esse objetivo. Atualmente conseguimos isso num grande número de doentes, permitindo períodos muito longos de baixa atividade ou remissão da doença”, declara.

Nesse sentido, a mensagem é clara. “É muito importante que os doentes reumáticos não se escondam da sua doença e não pensem, um pouco na perspetiva do sofrimento do fado, que têm de sofrer em silêncio. Os doentes devem procurar ajuda, nomeadamente do médico reumatologista, se uma situação se prolonga no tempo, se incomoda, se tem repercussões na vida diária. Não se devem resignar à dor nem à doença reumática”, conclui.

SS/SO

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