Médico especialista em Cirurgia Geral, licenciado pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Atividade pública e privada. Docente universitário

O falhanço deste governo durante o surto pandémico Covid-19 – parte II

Foi publicado no Observador, no dia 8 de Abril de 2020, um artigo da minha autoria cujo título era o mesmo deste agora, a sua frase inicial do cabeçalho.

Nesse artigo, na sua introdução, escrevi:

“Ainda estamos a meio da tormenta e a sensação é de que estamos à deriva. Preparemo-nos para o pior, esperemos que consigamos superar este desastre de saúde pública, social, económico e político.”

Michel de Notredame foi um médico francês que viveu no século XVI tendo também exercido a actividade de apotecário.

Escreveu “As Profecias”, a sua obra mais famosa que tem um estilo poético, com versos agrupados em quatro linhas (quadras), organizados em blocos de cem (centúrias). Algumas pessoas acreditam, desde então e até hoje, que estes versos contêm previsões codificadas do futuro.

Estudou em Avignon, Montpellier (de onde foi expulso porque já era possuidor de um título de apotecário, o que era proibido pela norma ou estatutos da Universidade onde se propunha fazer o curso de Medicina; deste modo não concluiu o curso, mas foi intitulado médico posteriormente).

No seu trajecto profissional contactou com toda a sociedade, classes sociais e políticas, viajou muito em França e pela Europa.

Michel de Notredame interrompeu os seus estudos iniciais no Trivium (gramática, retórica e lógica) na Universidade de Avignon, devido a um surto ou epidemia de peste negra, o que o terá levado a abandonar os estudos e o encaminhou para a demanda da cura da referida doença através de ervas medicinais que ia observando, colhendo e estudando.

Nesta actividade criou ou elaborou uma mistura de ervas a que deu o nome, ou que foi nomeada, de “pílula rosa”. Esta pílula, que supostamente protegia as pessoas da peste negra, teria uma elevada concentração de verduras e aparentemente uma elevada carga de vitamina C.

Assim reza a lenda da “pílula rosa” do Michel de Notredame.

Os seus conhecimentos eram bastante abrangentes, um sábio para a época, e, entre outras descobertas e façanhas, descreveu o ácido benzóico que obteve através da sublimação da goma de benjoim, obtida do benjoeiro.

Dedicou-se também ao ocultismo tendo escrito uma série de almanaques anuais, nos quais passou a utilizar o seu nome em latim, Nostradamus.

Teve problemas com alguns poderes instituídos e chegou a ser apontado como herege; porém, Catarina de Médicis, esposa de Henrique II de França, era sua admiradora e chamou-o para junto da corte em Paris para, entre outras incumbências, se dedicar à horoscopia. Nesta tarefa tinha a missão de prever o futuro dos filhos dos reis através da elaboração de detalhados horóscopos dos príncipes.

A sua capacidade nestas matérias ficou de tal modo gravada no seu historial que previu mesmo a sua própria morte. No dia 1 de Julho de 1566 previu que se passaria no dia seguinte, o que veio a acontecer sendo encontrado morto próximo da sua cama e de um banquinho (presságio 141).

Astrologia, astronomia, literatura, teologia, culinária foram também algumas das matérias a que também se dedicou.

Contactou com três reis de França, Henrique II, Francisco II e Carlos IX.

Teve uma vida preenchida e multifacetada.

Conheceu gente, terras e condições humanas muito variadas, casou duas vezes e teve vários filhos – seis segundo os escritos da época.

De todos os cantos da Europa chegavam celebridades para o consultar acerca dos mais variados temas ou só para o conhecer pessoalmente.

Uma das profecias que lhe é atribuída refere que previu a queda da União Soviética, na qual consta textualmente “Um dia serão amigos os dois grandes chefes…”, o que, levando em conta os alinhamentos astrais e a decifração de iniciados na matéria, nos garantem que sim.

Talvez.

Parece que depois de os factos aconteceram estas decifrações se tornam mais fáceis e maleáveis.

É bem provável.

A profecia que mais se repercutiu na sua carreira foi escrita em 1523 quando Nostradamus, ainda Michel de Notredame, escreveu “Próximo ao fim, clarões iluminarão o céu do czar, o mais alto renunciará. O ditador padece enquanto o Rei dos Santos derruba sua última lágrima” {Nostradamus – IV,25,11}

Regressemos agora a Abril de 2020, ou avancemos no tempo, como queiram.

“Na última semana de Fevereiro o Presidente Marcelo declara que ‘tudo está a ser feito para lidar com o coronavírus’, a ministra da Saúde confirma, a DGS declara não ser necessário o isolamento de pessoas vindas de zonas onde há epidemia de coronavírus, e as associações médicas portuguesas, Ordem dos Médicos e outras alertam para o perigo da epidemia que virá a caminho de Portugal e sugerem que o país e os serviços de saúde não estão preparados para lidar com a situação. No dia 29 de Fevereiro a directora-geral da Saúde admite que Portugal possa vir a ter um milhão de infectados; passamos da bonança à tempestade, num ápice. O descontrolo é geral e total ao nível do Governo e das autoridades que dele dependem, concretamente na DGS.”

“O país vai assistindo entre o divertido e o preocupado a estes episódios rocambolescos que têm ampla difusão na comunicação social.

O país iniciou um novo PREC, Processo Rocambolesco Em Curso.”

“Hospitais diferenciados, oncológicos e outros, serviços de prestação de cuidados cuja desorganização e cujo adiamento da sua capacidade e rotinas suspenderam a actividade e tudo isto vai fazer descompensar gravemente todos os restantes doentes no território nacional; nada disto foi acautelado.

Como acomodar esta epidemia aos casos de espera por cancro, por transplantes, de outras patologias graves e onde os serviços de saúde estão sempre no limite da sua capacidade de resposta? Que complicações pelos desequilíbrios destas e de outras patologias se estão a desencadear…? Abruptamente e sem critério, foi tudo suspenso, cancelado, adiado sem se saber até quando.”

“A hospitalização domiciliária, treino de equipas para resposta dedicada, medidas de protecção na família, nada foi salvaguardado.

A este propósito é caricato termos assistido a anúncios publicitados pela DGS, e declarações da ministra da Saúde, desaconselhando o uso de máscaras! Compreende-se, não havendo máscaras desaconselha-se o seu uso. De seguida instala-se a desconfiança, o descrédito das autoridades.

Nada funcionou! Apenas o medo e a desconfiança foram ganhando terreno.”

“Nada estava preparado, e a capacidade de organização e de resposta foi quase nula, a nível governamental e de liderança no Ministério da Saúde. Os serviços de saúde responderam e deram o seu melhor fruto da competência e dedicação dos seus profissionais.”

“O desinvestimento na saúde, a ineficiência do seu modelo de gestão, a falta de preocupação com as auditorias ao sistema, decidindo mesmo ao contrário do que algumas recomendavam, como foi o caso do Hospital de Braga.”

O que se exigia:

  • uma rápida identificação dos grupos de risco, com os profissionais de saúde a deverem ser devidamente protegidos pois seriam e serão os soldados desta guerra.
  • identificação dos grupos de risco e fazer o seu confinamento rigoroso, lares, idosos, grandes aglomerados populacionais, doentes com patologias que estão mais vulneráveis. Nestes grupos o rastreio e diagnóstico precoce seria essencial. Se isto não for feito precocemente as consequências tardias serão bem piores e de maior dimensão. É ao que iremos assistir, e já o estamos a verificar.
  • medidas de higiene e instrução da população, uso de máscaras e outras medidas de cuidado no relacionamento social de proximidade.”

O resto do artigo continua actual, ler aqui

“Também a nível mais geral e na componente da governação económica, o país ficou bloqueado. A economia está paralisada.”

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“O SNS está preparado e não faltou nem faltará nada no combate à epidemia”, primeiro-ministro António Costa, (ainda em exercício).

“Depois das mortes em resultado da Covid-19 assistiremos a um aumento da morbilidade e da mortalidade de diversas doenças que tiveram uma descontinuidade nos seus tratamentos, no acompanhamento, na realização de meios complementares de diagnóstico, nas cirurgias que foram adiadas, de consequências imprevisíveis, desastrosas, talvez catastróficas. Já há sinais de alerta neste aspecto!”

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“Ainda estamos a meio da tormenta e a sensação é de que estamos à deriva. Preparemo-nos para o pior, esperemos que consigamos superar este desastre de saúde pública, social, económico e político.”

Pois, começa a ser tão evidente:

“O governo não aprendeu nada com a primeira vaga.”

…carta aberta de cinco ex bastonários da Ordem dos Médicos e mais o actual – faz seis…

“O pior está ainda para vir.”

…Fernando Nobre, presidente da AMI; Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar contra a fome.

O SNS já estava degradado, no limite da exaustão de recursos técnicos, equipamentos e humanos, e esta pandemia só veio acentuar e tornar mais evidente esta situação, fruto do desinvestimento nos últimos anos.

As deficiências estruturais não se resolveram nas últimas décadas, sobretudo desde finais da década de noventa que tal plano inclinado se veio a acentuar.

A pandemia agravou e evidenciou as deficiências, tudo isto potenciado pela incapacidade de gestão, de coordenação, de monitorização, de respostas adequadas e atempadas, e foi patente a inoperância ou ausência de planos de contingência.

A cooperação e integração num verdadeiro sistema de saúde dos diversos agentes, públicos, privados, sociais e convencionados, é ineficiente, desperdiça recursos, aumenta a entropia e a despesa com os resultantes custos suportados pelos cidadãos.

A insanidade política, a bizarria institucional tomou conta do discurso público, da acção governativa e das organizações dela dependentes.

“Já foram feitos contactos com os privados”, Presidente Marcelo.

Pois…

“O país precisa de um abanão”, António Costa, primeiro ministro de Portugal, (ainda).

Pois…

É verdade, e triste, e trágico.

“A pandemia está descontrolada nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto”, Médicos de Saúde Pública, “e tudo vai piorar”…

Cada vez mais há pacientes jovens a serem infectados, e com gravidade, os internamentos sobem de modo acentuado, as unidades de cuidados intensivos começam a ficar saturadas.

Era previsível, e nada, ou quase nada, se fez.

“A situação tornar-se-á insustentável”, responsável do Hospital Curry Cabral.

Uma situação de calamidade, pois, o pandemónio.

Regressamos ao Processo Rocambolesco Em Curso, PREC, infelizmente, uma insanidade na gestão, uma incompetência assustadora.

Os doentes “não Covid” vão sofrendo gravemente as consequências, piorando os seus quadros clínicos, e morrendo mais precocemente.

Regressemos a Nostradamus.

É melhor não, fica para outra ocasião; só uma nota final, como diria Nostradamus, acertar depois de factos tão previsíveis e com tamanha evidência é fácil, principalmente depois de terem acontecido – bom, isto já é de La Palice…

*Artigo escrito em consonância com o anterior acordo ortográfico

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